A contundente derrota eleitoral da política de apaziguamento

O primeiro turno das eleições majoritárias brasileiras, ocorrido neste domingo, 4, marcou uma vitória contundente da extrema-direita e do bolsonarismo. Flávio Bolsonaro, contrariando todos os institutos de pesquisa, passou ao segundo turno à frente do atual mandatário, Lula: aquele teve 47,07% dos votos, contra 45,12% deste. A votação de Flávio Bolsonaro superou as votações que o chefe do clã, Jair, obteve em 2018 e em 2022. Se, em 2022, Jair Bolsonaro ganhou a votação de primeiro turno em 12 estados, em 2026 Flávio Bolsonaro triunfou em 14 unidades da federação, incluindo Minas Gerais. Desde a chamada redemocratização, o vencedor em Minas Gerais ganhou a presidencial, assim como nunca ocorreu de o segundo colocado ao fim do primeiro turno terminar a campanha à frente. Mesmo no Nordeste, reduto lulista, Flávio Bolsonaro teve votação melhor que seu pai, enquanto Lula reduziu votação em avassaladores 98% dos municípios do país em comparação com seu mesmo desempenho há quatro anos. A isto levou a política de apaziguamento e “frente ampla” do governo petista.
Após o anúncio da avalanche eleitoral pró-bolsonarista, o que se viu, no campo petista, foi a melancolia, seguida de ataques virulentos à “ignorância” ou “reacionarismo” dos eleitores. Este tipo de “explicação” elude o fato de que no século XXI o PT governou o Brasil durante dezessete dos vinte e seis anos (2003-2016 e, depois, 2022-2026). Ora, a “índole” do povo era favorável há apenas quatro anos e agora volta a se manifestar como uma irresistível força contrária? Esta explicação, convenhamos, não vale nem um centavo. Isto serve para outra tese em voga, a da causa externa: o capital político da extrema-direita se deveria sobretudo ao financiamento massivo dos Estados Unidos. Este fator, sem dúvida, deve ser levado em conta, mas também é certo que Bolsonaro pai em 2022 contou igualmente com largo suporte de Elon Musk & cia. Neste caso, os fatores externos atuam através dos fatores internos, e é na correlação de forças da luta de classes no país onde devemos buscar a explicação do resultado eleitoral – ainda em aberto, é bom que se diga.
O que se viu nestas eleições, como fator determinante, foi a rejeição massiva ao status quo e ao incumbente de turno, rejeição capturada por uma extrema-direita mais combativa, mais rejuvenescida e mais capilarizada que a esquerda institucional. A abstenção foi a mais alta desde 1998, com 21,08% de não comparecimento, a que se somam 4,8% de votos brancos e nulos. Ou seja, um quarto dos eleitores aptos a votar se recusou a eleger qualquer candidato. Vença quem vença, será eleito por uma minoria, estridente no caso de Flávio Bolsonaro, cada vez mais desmotivada no caso de Lula, pois mesmo entre os eleitores de um e de outro é expressivo o número daqueles que só o fazem por rechaço ao seu adversário. Aquela que o PT e seus publicitários vendem como (pela enésima vez) “a eleição mais importante da história”, foi na verdade uma campanha fria, insossa e largamente despolitizada.
Flávio Bolsonaro surfou na onda “antissistema”, que tem servido à extrema-direita como bandeira nos quatro cantos do mundo. É óbvio que se trata de uma mentira, pois a família Bolsonaro e todo o séquito de bandidos que a acompanha representam o que há de pior no sistema econômico-social historicamente constituído no país. Contudo, se é completamente falso destinar a estes picaretas a esperança de mudanças para melhor, é correto o diagnóstico de que o governo Lula/PT representa o sistema. Como não? Um partido que governou o país por quatro mandatos e meio, que se aliou a oligarquias como Sarney, Calheiros e Barbalho – estas últimas, quem diria, derrubadas não pela esquerda, mas pela ascensão do PL – e partilhou o governo “com o Supremo, com tudo”, sem mexer em nenhuma questão estrutural do país (como a concentração indecente de renda ou a precariedade inaudita dos serviços públicos), não é efetivamente o partido da ordem? Não é natural que, quando a ordem entre em decadência, o povo puna os líderes que aos seus olhos a encarnam? Não é este, afinal, o sintoma de todas as grandes transformações históricas?
Como já se viu durante as Jornadas de Junho e, depois, nos piores momentos da Lavajato, Lula se opõe a qualquer processo de mobilização popular independente. Disse diversas vezes: “não tacarei fogo no país”. A extrema-direita, ao contrário, não se apresenta como gestora do capitalismo e batalha abertamente por um programa ideológico de transformação radical da superestrutura política, que ela não teme em chamar de “revolução” – na verdade, uma dura contrarrevolução fascista. Enquanto isto, Lula e seu marqueteiro insistiram, na maior parte da campanha, em divulgar índices abstratos de emprego e renda, que são aliás mascarados, pois o que ali se apresenta como quase pleno emprego inclui vastos setores uberizados da nossa economia, sobretudo entre a juventude das regiões metropolitanas, a qual o governo não avançou nem um passo sequer no alargamento dos seus direitos. Durante agenda realizada no Rio de Janeiro, no dia 17 de julho, Lula disse que no SUS a pessoa mais pobre, que mora no lugar mais pobre, tem o mesmo direito a tratamento no hospital que um governador ou um ministro (confira o vídeo abaixo). Na melhor das hipóteses, este é um discurso completamente divorciado da vida real das pessoas, e na pior uma mentira deslavada.
Uma vez que Lula é prisioneiro de acordos de conciliação de classe, a ele restará enfrentar Flávio Bolsonaro nas pautas de moral e costumes (mostrar como Flávio participou de orgias ou coisas afins) e criar uma campanha de terror, de que será ele ou o dilúvio, principalmente aos eleitores que se abstiveram no primeiro turno. Não há dúvidas de que Flávio Bolsonaro e a corja que o acompanha buscarão fazer pó dos poucos direitos sociais que restam ao povo brasileiro, associados a um projeto político de cunho fundamentalista religioso e entreguista. Ocorre que isto não acontecerá automaticamente, do mesmo modo que sob o governo Lula nenhum direito a mais será conquistado sem luta social. Caso Flávio Bolsonaro vença, será preciso mobilizar ou remobilizar o campo popular, destroçado por décadas de liderança imobilista do PT.
É natural, sobretudo entre as camadas médias instruídas, o medo de ver a sua paz doméstica ruir, mas lembremos que sob o capitalismo a chamada paz social nada mais é do que um estado de coisas em que as massas trabalhadoras “se deixam espoliar tranquilamente, mas que em épocas turbulentas são empurradas, tanto por toda a situação de crise como pelos ‘de cima’, a uma ação histórica independente”.(1) São essas épocas turbulentas que se avizinham, sobre as ruínas da outrora nova, agora já velha, república, e para enfrentá-las é preciso nos armarmos de novos instrumentos de luta, novas palavras-de-ordem e novas lideranças, que nem Lula nem o PT têm as condições, a capacidade ou o interesse de fornecer. Incapaz de se contrapôr à ascensão da extrema-direita, Lula tem sido um dique de contenção apenas para a emergência de forças revolucionárias no campo dos trabalhadores.
Da nossa parte, participaremos de toda e qualquer mobilização antifascista e em defesa dos interesses concretos dos trabalhadores e da juventude. Para nós, isto não é tática eleitoral, mas uma questão de princípios. Se Lula vencer, se instalará um governo de crise, inclusive com chance de impeachment, e para sobreviver este governo terá de fazer ainda mais concessões aos caciques do Congresso e do Supremo. A batalha com as hostes de Bolsonaro será apenas adiada, mais uma vez, por um par de anos. Se Flávio Bolsonaro vencer, imediatamente, uma parte enorme da população o rejeitará – somando os votos em Lula e nulos, brancos e abstenções –, e logo ficará claro para sua base popular o projeto de destruição de direitos que ele representa. Pois mesmo entre seus eleitores, a imensa maioria utiliza-se do SUS, têm os filhos matriculados nas escolas públicas e deseja o mínimo de proteção trabalhista.
No fogo das mobilizações que se levantarão paulatinamente, e logo em grandes explosões, teremos a ocasião de ver se educar no nosso campo uma nova geração de lutadores, isenta das ilusões reformistas e da respeitabilidade burguesa da geração passada, que costurou a transição lenta, gradual e pacífica do regime militar sobre os cadáveres dos mortos e desaparecidos políticos e a impunidade dos torturadores. Uma eventual eleição de Flávio Bolsonaro, portanto, não será o fim de nada, mas apenas o ponto de partida.
1 V.I. Lênin, “A bancarrota da II Internacional”, 1915






