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PR: A precarização do transporte público e a rotina dos trabalhadores em Campo Mourão

há 46 minutos
3 min de leitura
Foto: Diário do Transporte
Foto: Diário do Transporte

Na cidade de Campo Mourão (PR), a rotina de quem depende do transporte coletivo para vender sua força de trabalho tornou-se um exercício diário de resistência e desgaste. Recentemente, moradores e trabalhadores do Conjunto Mendes trouxeram à tona uma denúncia que sintetiza o caráter predatório da gestão privada dos serviços essenciais: o cancelamento arbitrário e a alteração de itinerários de linhas de ônibus em horários estratégicos.


O caso do Conjunto Mendes é emblemático. O ponto de ônibus do bairro, historicamente um local de grande concentração de trabalhadores nos horários de pico, teve uma de suas principais linhas suprimidas. Como alternativa imposta, restou aos moradores a linha do Parque Verde, cujo quadro de horários e itinerário engessado não dialoga com as necessidades reais da população. O resultado imediato é a desestruturação do cotidiano popular: atrasos

sistemáticos na chegada às empresas e comércios, a constante ameaça de punições patronais e o atropelamento do horário de almoço e descanso, momento sagrado para a recomposição física e psíquica do trabalhador.

Do ponto de vista das concessionárias privadas de transporte e dos tecnocratas a serviço do capital, a supressão de linhas em bairros populares é tratada sob o eufemismo técnico de “otimização de frota” ou “racionalização de custos operacionais”. Sob a sociabilidade capitalista, o ônibus não existe para transportar pessoas com dignidade, mas para gerar taxa de lucro. Se um

itinerário direto para o Conjunto Mendes não atinge a margem de rentabilidade almejada nos períodos entre-picos ou se exige o empenho de mais veículos e motoristas, a empresa simplesmente corta a rota, sobrecarregando linhas vizinhas e transferindo todo o custo humano da operação para as costas do passageiro. Essa busca incessante por cortar despesas operacionais revela a contradição inconciliável entre o caráter público do serviço e a apropriação privada do lucro.


Enquanto a tarifa é cobrada integralmente e sofre reajustes periódicos chancelados pelo Executivo municipal, a qualidade do serviço prestado à classe trabalhadora regride continuamente. Frente à indignação dos moradores do Conjunto Mendes, a postura da Prefeitura Municipal e dos órgãos de trânsito locais escancara o papel do Estado burguês como gestor dos negócios da burguesia. Em vez de exercer uma fiscalização rigorosa, punir a concessionária por descumprimento de metas de atendimento ou defender o direito de circulação do povo, o Poder Público atua como intermediário passivo ou conivente com as decisões empresariais.


Ao conceder reajustes tarifários sob a justificativa do “reequilíbrio econômico-financeiro” dos contratos da concessionária, a administração municipal garante a margem de lucro dos empresários do transporte, enquanto assiste de braços cruzados à precarização das linhas nas periferias. Trata-se da socialização dos prejuízos e da privatização dos lucros: o povo paga mais caro por um serviço cada vez menor e pior.


A situação vivida no Conjunto Mendes não é um problema isolado ou um "erro pontual de planejamento", mas o resultado direto da entrega de um direito fundamental à sanha do mercado. Contudo, é preciso aprender com as massas e organizar sua indignação espontânea em força política consciente.


A solução para a crise do transporte em Campo Mourão não virá dos gabinetes da Prefeitura nem da boa vontade da concessionária privada. Ela exige a organização popular de base: a criação de comissões de moradores e trabalhadores no Conjunto Mendes e bairros adjacentes, a realização de abaixo-assinados, a ocupação das sessões da Câmara Municipal e a construção de mobilizações de rua que exijam o retorno imediato da linha, a ampliação dos horários e, fundamentalmente, o debate sobre o passe livre e a estatização sobre controle dos trabalhadores do transporte público.


Somente quando a circulação da classe trabalhadora deixar de ser tratada como mercadoria e fonte de extrativismo financeiro é que o povo de Campo Mourão terá garantido o seu direito pleno à cidade e à vida digna.

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