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Comentários sobre o movimento estudantil da Unidade Comunista - FR

há 5 horas
5 min de leitura
Foto: Unitè Communiste IG: @unitecommuniste
Foto: Unitè Communiste IG: @unitecommuniste

Nota da redação: Publicamos artigo da organização francesa Unidade Comunista sobre a situação da mobilização e revolta da juventude estudantil secundarista. O artigo foi publicado na sua página do instagram @unitecommuniste


"O dia 18 de setembro marcou o início do movimento estudantil do ensino médio, que se espalhou pelo resto da França alguns dias depois. Ele teve início nos subúrbios de Paris, tendo como gatilho as condições insuportáveis de estudo: falta de pessoal e de material, prédios em mau estado e dificuldades para ingressar no ensino superior (Parcoursup).


Em 1º de outubro, mais de 600 escolas de ensino médio foram bloqueadas em todo o país, e pouco menos de 2.000 pessoas foram detidas. Todas as grandes cidades da França foram afetadas. Em 6 de outubro, os protestos em todo o país reuniram entre 256 mil pessoas (segundo o Ministério do Interior) e 450 mil pessoas (segundo os organizadores e organizadoras). Esses protestos não foram apenas massivos, mas, acima de tudo, contaram com participantes muito jovens e combativos. Desde maio-junho de 1968 que não víamos tantos jovens se engajando espontaneamente na luta.



Em 27 de setembro, um policial disparou uma granada à queima-roupa no rosto de um menino de 14 anos. Esse menino, Éden, sofreu uma fratura dupla na mandíbula e perdeu todos os dentes. No dia 29, um policial estrangulou uma menina de 14 anos. No dia 30, um policial disparou com uma arma LBD no rosto de um adolescente de 16 anos, que perdeu um olho. Em 2 de outubro, um policial prendeu um estudante do ensino médio de 17 anos em um riacho, com a cabeça dentro da água, mas, dessa vez, os outros estudantes intervieram e o espancaram. No dia 5, um menino de 15 anos teve a mão arrancada por uma granada. A essa lista somam-se os habituais atos de violência policial, incluindo violência sexual.


Foto: Unitè Communiste IG: @unitecommuniste
Foto: Unitè Communiste IG: @unitecommuniste


Tudo isso ocorre justamente no momento em que o primeiro-ministro deveria apresentar seu orçamento para o próximo ano. O Estado se encontra em uma situação difícil: precisa fazer de tudo para resolver o problema da dívida pública, acalmar os motoristas que veem o preço da gasolina subir e, agora, lidar com a juventude em revolta.


Ao recorrer a uma repressão desproporcional contra crianças, o Estado cometeu um erro imenso (do seu ponto de vista), que é consequência de suas decisões passadas: as de intensificar unilateralmente a repressão contra os movimentos sociais. O Estado afastou ainda mais as massas ao atacar seus filhos: agora não são mais apenas os jovens que se manifestam, mas também seus pais. Somam-se aos jovens e aos seus pais os sindicalistas, os representantes eleitos de esquerda, etc. A França encontra-se hoje em uma situação de vergonha internacional: incapaz de administrar seu orçamento, de lidar com sua dívida e, agora, de conter crianças que se rebelam contra o deterioramento de sua educação.


O Estado tenta, então, negociar: novas diretrizes para a “manutenção da ordem” (proibição do uso de granadas de atordoamento, etc.), plataforma “cidadã” online, diálogo com os sindicatos de estudantes do ensino médio, etc. Muitas escolas de ensino médio e universidades preferiram fechar as portas a permitir que os alunos e alunas do ensino médio e os estudantes universitários se mobilizassem nos bloqueios. O governo sabe que as férias escolares começam em uma semana e que o tempo joga a seu favor. Ele sabe que os jovens não se mobilizarão durante as férias e que será difícil retomar o movimento depois disso.


Diante da ira das massas, a burguesia recorre a dois métodos: a repressão e a negociação. Quando um método, por si só, não é suficiente, o outro o complementa. Esse fenômeno é particularmente importante na França, onde a negociação mais ou menos pacífica entre a burguesia e o proletariado passa, historicamente, por uma primeira fase de movimentos sociais mais ou menos violentos. Como os últimos movimentos sociais fracassaram, a burguesia tem, portanto, cada vez menos necessidade de negociar e cada vez menos motivos para repartir seus lucros, o que faz com que a repressão aumente. Os métodos de luta devem evoluir de acordo com isso. A forma do movimento dos Coletes Amarelos foi uma resposta das massas às mudanças nos métodos de compromisso entre o proletariado e a burguesia. Essa forma era muito incomum e “selvagem” para a grande maioria da esquerda, que na época não soube reagir. Hoje, a rapidez e a intensidade do movimento estudantil surpreendem. O Estado se adapta mais rapidamente e busca novos métodos de compromisso. Atualmente, a burguesia francesa ainda dispõe dos meios para negociar a fim de acalmar a juventude.

Foto: Unitè Communiste IG: @unitecommuniste
Foto: Unitè Communiste IG: @unitecommuniste

Mas tudo isso não passa de uma amostra do que nos espera. A juventude se levanta hoje não porque exija melhores condições de educação, mas porque sabe que seu futuro é incerto. Essa juventude está se formando hoje na luta de classes e conta com o apoio da maioria das massas, assim como também contavam os Coletes Amarelos. Os movimentos sociais estão se tornando mais raros do que no período anterior, mas são mais imprevisíveis, mais explosivos, mais repentinos, etc. Com a intensificação das contradições interimperialistas, fica claro que caminhamos para uma Terceira Guerra Mundial. Essa guerra será a oportunidade para os comunistas de todo o mundo agirem, assumirem seu papel de vanguarda do proletariado e tomarem o poder. Uma Guerra Mundial significa condições de crise na maioria dos países do mundo, tanto do lado da burguesia quanto das massas oprimidas. É com uma crise no “topo” e na “base” que uma situação se torna revolucionária, que uma revolução se torna possível.


À Guerra Mundial soma-se a crise ecológica: mudanças climáticas, desastres naturais, zoonoses pandêmicas, extinção de espécies, etc. A juventude sabe que não tem futuro, que o mundo está pegando fogo. O futuro da humanidade nunca foi tão sombrio, e é justamente por ser tão sombrio que pode ser tão brilhante. É porque o futuro delas é a crise que as massas poderão se apropriar dele e se revoltar.


Quais são, então, nossas tarefas hoje na França? É claro que o movimento atual não levará à revolução. Não há uma crise suficientemente forte nem entre as massas nem entre a burguesia, e também não há um Partido Comunista capaz de liderar as massas em sua luta. Nesse sentido, o movimento atual é dominado política e ideologicamente pela esquerda reformista parlamentar e sindical. Mas o movimento atual está repleto de esperança. É um dos muitos sinais de que estamos caminhando rumo a mudanças radicais, daqui a uma ou várias décadas.


A situação atual na França e no cenário internacional nos coloca diante de nossas responsabilidades: a de formar quadros comunistas profissionais para reconstruir o Partido Comunista e a Internacional Comunista, a fim de nos tornarmos dignos de nossa época."


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