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SP: O Miliciano e o Príncipe Neoliberal do PT

há 10 minutos
5 min de leitura
Foto: Band
Foto: Band

O primeiro turno das eleições de São Paulo, realizado no último domingo (04), trouxe à tona algumas contradições candentes do atual momento político. A reeleição de Tarcísio de Freitas, com 62,65% dos votos válidos, não pode ser analisada apenas pela dimensão de sua votação, é preciso olhar também para os milhões de paulistas que não participaram da escolha. No estado, aproximadamente 7,6 milhões de eleitores não compareceram às urnas, correspondendo a 22,5% do eleitorado. Na capital, a abstenção chegou a 23,4%, mais de 2,1 milhões de pessoas.

A elevada abstenção, somada aos votos brancos e nulos, revela uma parcela expressiva da população que não encontrou, ou não se reconheceu, nas alternativas apresentadas pelo sistema eleitoral. Isso não significa automaticamente que todos esses eleitores rejeitem o Estado ou a política institucional, mas demonstra uma distância considerável entre as instituições burguesas e parte da população.

Em São Paulo, essa distância ganha dimensões ainda maiores diante do peso econômico e populacional do estado. A maior unidade federativa do país continua convivendo com problemas estruturais que atravessam décadas: precarização dos serviços públicos, dificuldades de acesso à moradia, transporte caro e ineficiente, violência generalizada, desigualdade territorial, baixos salários e jornadas extensas de trabalho. Ao mesmo tempo, o debate eleitoral se concentra, como parte de sua própria natureza, na disputa entre nomes, alianças e máquinas partidárias, deixando de lado a discussão sobre as condições concretas de vida da maioria da população.

A vitória de Tarcísio precisa ser compreendida também a partir da força política construída desde 2022. O miliciano foi reeleito com mais de 13 milhões de votos e sua coligação reuniu Republicanos, PL, MDB, Democratas, Avante, PSD, além de federações partidárias. Fernando Haddad, o grande representante da “esquerda não populista”, o arauto do fiscalismo e do arcabouço fiscal, a personificação de tudo que há de errado na esquerda brasileira, mais uma vez, terminou em segundo, com mais de 7,5 milhões de votos e 36,2% dos válidos. O ex-ministro da fazenda, o príncipe neoliberal do PT, que encabeça a ala social-liberal do progressismo brasileiro, que conseguiu convencer o povo de que a esquerda é mera gestora do capitalismo burocrático, com seu discurso frouxo de "políticas públicas baseadas em evidências", "boas práticas", “defesa da democracia”. "respeito às instituições" e "responsabilidade fiscal"; esta ratazana uspiana é, de fato, o grande perdedor dessas eleições, não apenas na disputa estadual, mas na disputa dos corações e mentes das classes trabalhadoras em todo a nação. Se eu fosse Jair, mandava entregar flores e um bom whisky de presente.

Há uma estrutura política, partidária e econômica por trás da disputa. A máquina eleitoral, a presença territorial dos partidos, a capacidade de comunicação, as alianças municipais e estaduais e a identificação de determinados setores sociais com determinadas agendas têm peso decisivo no resultado.

A eleição para o Senado oferece outro elemento importante para essa análise. Guilherme Derrite, do PP, e André do Prado, do PL, foram eleitos para as duas vagas de São Paulo, com 30,59% e 29,28% dos votos, respectivamente. Na Alesp, Eduarda Campopiano, do PL, foi a candidata mais votada, com 1.956.238 votos. Eduardo Suplicy, do PT, ficou em segundo, seguido por Sofia Favero, do PSOL. A nova composição da Assembleia contará com 94 parlamentares. Mas há outra questão que precisa ser colocada: o papel desempenhado pela mal chamada “esquerda institucional”. A campanha do príncipe privatista petista (a única PPP aceitável para boa parte da “esquerda” brasileira), reuniu uma ampla coligação, incluindo PT, PCdoB, PV, PSOL, Rede, PDT e PSB. Ainda assim, a distância entre essa estrutura partidária e uma parcela significativa dos trabalhadores paulistas permaneceu evidente. É preciso perguntar por que, mesmo diante de uma realidade marcada por baixos salários, dificuldades de transporte, precarização do trabalho e desigualdade, a esquerda institucional encontra tantas dificuldades para transformar essas contradições em organização política permanente.

O problema não pode ser reduzido simplesmente à comunicação eleitoral ou à escolha de candidatos. A resposta a essa questão é a transformação da política em calendário eleitoral. Mobiliza-se a população durante alguns meses, apresenta-se um programa, pede-se o voto e, depois, governa-se para os mesmos blocos econômicos dominantes de sempre, com lucros recordes para os bancos e para o latifúndio às custas do sangue, suor e trabalho do povo. É justamente nesse espaço que a direita conseguiu construir presença permanente, pois não se limita à propaganda eleitoral. Disputa bairros, igrejas, associações, redes sociais, sindicatos, municípios, parlamentos e governos, constrói referências políticas locais e transforma determinadas pautas em identidade.

Também não basta responder ao avanço da direita simplesmente através de alianças eleitorais cada vez mais amplas, como a Frente Amplíssima governista acredita que seja a solução milagrosa para todos os problemas do país. Quando a esquerda abandona a construção de uma identidade própria em nome da governabilidade e do servilismo ao capital financeiro, transforma a política em mera administração do capital.

São Paulo possui uma das maiores concentrações industriais, financeiras e tecnológicas da América Latina, é também um estado marcado por enormes contrastes: regiões extremamente ricas convivem com regiões extremamente pobres, onde milhões dependem de transporte público, enfrentam longos deslocamentos e vivem sob condições precárias de moradia, saneamento, alimentação e trabalho.

Enquanto alguns poucos concentram tal riqueza, tecnologia e capacidade produtiva, outros milhões continuam submetidos a jornadas extensas e salários que não acompanham o custo de vida. Enquanto o estado possui uma das maiores arrecadações do país, as classes trabalhadoras paulistas enfrentam dificuldades para acessar serviços públicos de qualidade. Enquanto determinados setores acumulam enormes patrimônios, a população periférica permanece pagando uma parcela desproporcional de sua renda para sobreviver.

A eleição de 2026 abre um novo período. Tarcísio terá mais um mandato, uma base eleitoral expressiva e uma correlação de forças favorável no estado, a resposta a isso não pode ser esperar pela próxima eleição. Será necessário organizar os trabalhadores nos locais onde vivem e trabalham. Disputar os bairros, as escolas, as universidades, os sindicatos, os movimentos populares e os espaços de juventude. Construir formação política e transformar problemas concretos em pautas de organização coletiva.

Os milhões que não compareceram às urnas também precisam ser compreendidos não como uma massa homogênea, mas como pessoas que possuem diferentes razões para não votar, incluindo desinteresse, descrença, dificuldades práticas e rejeição às alternativas apresentadas. Nossa tarefa é compreender essas razões para que possamos organizar a legítima revolta das massas. O resultado de São Paulo mostra que nenhuma força política pode depender da polarização nacional ou da rejeição ao adversário para construir uma base social, é necessário construir organização onde hoje existe dispersão. Se a direita ocupa as ruas, é preciso ocupar as ruas, se a direita organiza sua base nos territórios, é preciso organizar os trabalhadores nos territórios, se a política institucional se distancia da vida concreta do povo, é preciso aproximar a organização política das condições concretas de vida.

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