V de Vergonha

Sem citar uma única vez o nome do presidente venezuelano sequestrado pelos Estados Unidos, Nicolás Maduro, Delcy Rodrigues, então presidente interina da Venezuela, em seu discurso na Assembleia Geral da ONU, não mediu palavras para distribuir afagos a Donald Trump e aos EUA. Em um ato vergonhoso, celebrou os acordos criminosos assinados entre o seu governo e o imperialismo ianque, para entrega de 65 bilhões de barris de petróleo aos EUA e sobre a absurda transferência de reservas de ouro venezuelanos estimadas em bilhões de dólares da Inglaterra para os EUA.
A postura de Delcy contrasta profundamente com a sua última ida à Assembleia Geral da ONU, em 2019, na qual denunciou o imperialismo ianque e afirmou que seu país não se curvaria ante os interesses do que chamou de ‘’império’’ em referência aos EUA. Essa mudança no discurso e na atitude perante os ianques, deixa claro que a captura de Maduro e tudo que se sucedeu após trata-se de uma profunda traição do chavismo perante o povo venezuelano. Seria uma irresponsabilidade afirmar isso logo no dia seguinte do sequestro, mas já nos meses seguintes ficou evidente do que se tratava principalmente após Delcy e toda a estrutura do Estado venezuelano ter abaixado a cabeça de forma vexatória para Trump. Vendendo os recursos valiosos do povo que dizem representar a preço de banana, mesmo em momentos delicados como durante a recente tragédia que assolou o país após um terremoto atingir com força Caracas, a retirada do apoio histórico a causa palestina e a condenação da resistência iraniana e libanesa na ONU. Tudo a mando dos ianques.
A Venezuela foi vendida, não conquistada
A traição venezuelana criou uma imagem errônea de que os EUA podem tudo, de que é fácil para os ianques invadirem e decapitarem quaisquer governos contrários a eles. Porém, o caso da Venezuela não serve de parâmetro, pois as únicas vitórias militares que efetivamente conseguiram ali, foram explodir pequenos barcos de pescadores e capturar um presidente que já havia sido rifado por seus próprios pares. Quando, meses após o sequestro de Maduro, se arriscou em atacar um país que não se entregou de joelho e se articulou em torno da resistência nacional, não conseguiu obter seus objetivos e foram eles mesmos colocados de joelhos pela resistência iraniana.
O governo chavista, que por décadas controlou a Venezuela, não conseguiu nem ao menos produzir na base da sociedade um sentimento nacional e de repúdio ao imperialismo ianque. A falta de construção de um projeto de país independente dos capitais ianques que vinham para o país através da venda de petróleo, culminou em uma nação que mesmo diante de um grave ataque à sua soberania, não se levantou e assistiu tudo de forma até que passiva. Isso conduziu o país a uma grande pobreza a partir do momento em que os EUA impuseram pesadas sanções e bloqueios, e a Venezuela não possuía capacidade de ter uma economia que não dependesse tanto dos capitais ianques. Quando a população se revoltou, foi reprimida de forma violenta pelo Estado venezuelano, o que provocou uma queda vertiginosa da popularidade de Maduro, algo que claramente contribuiu para sua captura não gerar uma revolta popular mais profunda.
As chamadas ‘’milícias bolivarianas’’, se mostraram uma força apenas fantasiosa e que, corporativizadas pelos chavistas, também assistiram caladas a interferência ianque. É importante, portanto, reconhecer que houve na Venezuela um processo muito mais profundo que uma mera invasão e troca de comando, por parte dos ianques. A ascensão de Delcy Rodriguez representa um pacto entre os imperialistas e os chavistas, um acordo com Donald Trump pela manutenção deste mesmo grupo no poder, a soldo da venda das riquezas do povo venezuelano. É necessário que todos os revolucionários denunciem veementemente o caráter criminoso e vende-pátria do governo de Delcy, e dizer claramente que não se pode aceitar calado a interferência dos EUA na América Latina, que esta besta tem que ser expulsa do nosso continente urgentemente.
Será o Brasil a ''próxima Venezuela’’?
Esse debate se faz necessário em um momento onde vemos ameaças abertas dos ianques contra o Brasil, com Donald Trump falando abertamente em intervir de forma terrestre contra ‘’narcoterroristas’’. É importante dizer, claramente, que uma intervenção direta contra a soberania brasileira é improvável, visto que os EUA já possuem grande influência na economia, política e sociedade do Brasil. Não é necessário que haja uma intervenção militar aberta, para que os interesses estadunidenses sejam alcançados no país. Porém, não podemos descartar 100% a possibilidade, mesmo sendo altamente improvável, porque não somos ‘’mãe diná’’ e devido às constantes movimentações de Trump e seus aliados.
O Brasil possui dimensões continentais e do seu extremo norte ao extremo sul, é entendido como uma única nação. O gaúcho se entende como brasileiro, assim como o amapaense. Existe aqui, a chamada ‘’identidade nacional’’, o que provocaria em caso de qualquer interferência direta, uma reação diametralmente relevante contra. Diferente da Venezuela, o Brasil possui 220 milhões de habitantes e o governo no poder conta com aprovação de 46% da população, segundo pesquisa divulgada ontem (02) pelo instituto datafolha. Esses ingredientes produziriam fissuras, não só nas classes proletarizadas, mas também nas classes dominantes, que em uma interferência poderiam também perder espaço tendo que conciliar seus interesses com os dos ianques.
Em suma, uma intervenção ianque no Brasil além de ser desnecessária do ponto de vista de um cálculo político racional, também seria prolongada devido ao tamanho e resistência que inevitavelmente geraria. Além disso, custaria rios de dólares aos ianques que já enfrentam dificuldades devido aos rombos no orçamento causados pelas consequências da guerra no Irã.
Mais do que apostar que uma simples vitória de Lula nas eleições asseguraria a soberania nacional brasileira frente aos ianques, os revolucionários devem portanto entender que nenhuma resistência será conseguida sem mobilização popular e armamento geral da população junto a uma politização anti-imperialista.






