Na noite do dia 31 de janeiro, em Copacabana, uma jovem menor de idade foi vítima de um estupro coletivo encabeçado por um ex namorado, também menor de idade, e por mais quatro homens, amigos do abusador. O ocorrido violento evidência o aumento do nível de brutalidade e exploração com qual as mulheres convivem.
A situação das mulheres tem sido cada vez mais revoltante, os índices de femínicidio, principamente no Brasil, aumentaram e só no ano de 2025 o número foi de 6.904 mulheres mortas de janeiro a dezembro, segundo o Relatório Anual de Feminicídios no Brasil 2025 (Lesfem) da Universidade Estadual de Londrina e mais de 83 mil vítimas de estupro. Os dados apresentados são alarmantes e demonstram como apenas viver já é um desafio para as mulheres.
O campo "progressista" circula a ideia de que a luta das mulheres tem avançado, com mais mulheres em cargos de liderança, criação de leis específicas para a proteção das mulheres, representatividade na política, etc. Como indivíduos, muitas vezes tendemos a enxergar saídas simplificadas para a situação, como leis mais rígidas. Acontece que nenhuma medida liberal, como mulheres liderando empresas ou em cargos da democracia burguesa transformam em eficazes as leis atuais. Que pouco tem nos livrado da brutalidade a que somos submetidas. Há um aumento do discurso de ódio, representado pelos redpill, que criam uma visão de mundo que justifica a violência contra a mulher junto com o discurso conservador religioso que muitas vezes incentiva as mulheres a não denunciarem seus agressores. A verdade é que as leis, ainda que vitórias das mulheres, ainda não podem resolver problemas de um sistema inteiro que se nutre da dominação e exploração do corpo da mulher, de um lado com o trabalho invisível doméstico e de outro com o estupro pago da prostituição e pornografia.
Uma das máximas da misoginia são a violência sexual e o feminicídio, mas a exploração da mulher ocorre em muitas outras esferas, que não podem ser superadas por vias burocráticas e liberais.
O fim da exploração das mulheres é do interesse revolucionário, e o trabalho deve ser iniciado o quanto antes por todos. Foram os revolucionários em seus processos de luta pelo poder que organizaram as mulheres ativamente na luta pelos direitos. Seja na União Soviética, com o direito ao divórcio, a guarda materna e ao aborto. E indo mais além na China Popular, para além dos direitos iguais, a disparidade nas leis que entendiam a disparidade real entre o direito a propriedade e aos filhoas entre homens e mulheres. Na legislação, as mulheres tinham privilégio na concessão da guarda e recebiam parte da propriedade após o divórcio, e os homens eram proibidos a abandonarem mulheres grávidas. A organização social da China também priorizou acabar com o trabalho invisível feminino com as creches por local de trabalho, organização de mulheres industriais, lavanderias públicas e reinserção dos idosos na produção e divisão das tarefas.
Devemos nos organizar, buscar abordagens reais e combativas para os nossos problemas, organizando principalmente a autodefesa por local de estudo, moradia e trabalho. Contruir o socialismo como alternativa concreta, como caminho que corte pela raíz os problemas das mulheres; o feminícidio, o matrimônio como um instrumento de dominação, a maternidade sem a paternidade, a prostituição, a falta de direito sobre nossos corpos e o trabalho doméstico, junto as demais questões do proletariado.
Manifestantes entram em confronto intenso com força de segurança.
Existem momentos em que a máscara cai, em que a farsa da 'estabilidade' que o imperialismo vende sobre seus reinos clientes no Golfo Pérsico se desfaz em poucas horas, revelando regimes de minoria sunita mantidos pelo sabre saudita, pelo dólar americano e pela repressão policial sobre uma maioria xiita expropriada, humilhada e silenciada. Bahrein vive um desses momentos. E o medo dos Al-Khalifa — a família real que há dois séculos senta sobre o pescoço daquele povo— é tão palpável que pode ser medido pelo número de prisões.
A população do Bahrein é de maioria xiita — em torno de 55 a 60 por cento. Esta maioria ocupa sistematicamente os estratos inferiores da hierarquia social: excluída dos postos de comando das forças armadas e da polícia, sub-representada nos cargos governamentais, discriminada no acesso ao emprego público e ao funcionalismo de elite. Ao mesmo tempo, o Bahrein é um dos países com maior proporção de trabalhadores migrantes em relação à população total: migrantes representam mais da metade dos habitantes do arquipélago, e constituem a espinha dorsal da força de trabalho privada — construção civil, serviços domésticos, hotelaria, comércio, etc.
Esses trabalhadores — vindos majoritariamente do sul da Ásia, da África subsaariana e do Sudeste Asiático — operam sob o sistema kafala, que vincula o status de residência do trabalhador ao seu empregador. Na prática é um sistema de semiescravidão, onde o trabalhador não pode trocar de emprego sem autorização do patrocinador, não pode deixar o país e qualquer tentativa de escapar de um empregador abusivo o transforma automaticamente em migrante ilegal sujeito a prisão e deportação. O próprio ministro do Trabalho do Bahrein chamou, em 2009, o kafala de escravidão — e depois de fazer essa declaração o país anunciou reformas que, como documentou a Human Rights Watch, 'as autoridades pouco fizeram para fazer cumprir'. Em 2026, o kafala segue em vigor: trabalhadores domésticos continuam excluídos de proteções básicas como dias de folga semanais, horas extras e licença médica remunerada. Não há salário mínimo para trabalhadores estrangeiros. Os salários são pagos com atraso ou simplesmente não são pagos. É sobre essa estrutura que os Al-Khalifa reinam, com o apoio da 5ª Frota da Marinha norte-americana ancorada em Manama e das tropas sauditas estacionadas na fronteira.
Quando os mísseis iranianos atingiram instalações ligadas à 5ª Frota em Manama em 28 de fevereiro e 1º de março de 2026, o regime deparou-se com uma situação que revela sua própria fragilidade estrutural: vídeos circularam nas redes sociais mostrando grupos de bahreinitas comemorando os ataques. Rindo, batendo palmas e celebrando o fogo que caiu sobre a frota que garante a família que os oprime.
O regime respondeu com prisões. As autoridades do Bahrein lançaram uma campanha de detenções contra indivíduos que teriam 'expressado alegria e celebração' pelos ataques iranianos. Esse episódio demonstra a profundidade do abismo entre os Al-Khalifa e a maioria do povo que governa. Demonstra que o único laço que une esse povo a essa monarquia é o laço da coerção. E que, qquando os mísseis iranianos fazem tremer a base naval americana e, com ela, a garantia de sobrevivência do regime, o que emerge é a alegria.
O que aconteceu no Bahrein ecoou em toda a região, no Paquistão — país com a segunda maior população xiita do mundo, estimada em 30 a 40 milhões de pessoas —, protestos eclodiram em múltiplas cidades simultaneamente. Em Karachi, a maior cidade do país, centenas de manifestantes marcharam em direção ao Consulado Geral estadunidense. A força de segurança abriu fogo, ao menos 10 pessoas foram mortas dentro e ao redor do consulado e mais de 60 ficaram feridas. Em Skardu, no norte do país, ao menos 11 manifestantes foram mortos. Em Islamabade, entre 5.000 e 8.000 pessoas concentraram-se próximas à Zona Vermelha, o distrito que abriga o parlamento e a embaixada norte-americana. 'Aqueles que estão do lado dos EUA são traidores', gritava a multidão. 'Vingança contra Israel’.
No Iraque, centenas de manifestantes tentaram chegar ao complexo diplomático na Zona Verde de Bagdá onde fica a embaixada dos EUA. A polícia iraquiana respondeu com gás lacrimogênio e granadas de atordoamento. O Grande Aiatolá Ali al-Sistani — a autoridade religiosa xiita mais respeitada do mundo árabe, um homem que raramente faz declarações políticas diretas — convocou os iranianos a 'permanecerem unidos'. O governo iraquiano decretou três dias de luto nacional por Khamenei.
Na Índia, xiitas saíram às ruas em marchas de velas, carregando retratos do mártir, entoando consignas anti-imperialistas. No norte da Nigéria, em Kano, manifestantes agitaram bandeiras iranianas e palestinas enquanto arrastavam pelo chão bandeiras dos EUA e de Israel.
Voltando ao Bahrein, o regime não tem sequer legitimidade popular para suportar que seus súditos expressem alegria numa rede social, demonstrando a profundeza da crise de sua hegemonia.
O imperialismo construiu no Golfo Pérsico um sistema de controle baseado em três pilares: monarquias clientes, bases militares e exploração da força de trabalho migrante. Esse sistema está sob pressão como não esteve desde 1979. As bases são atacadas, os clientes são pressionados por sua própria população e os trabalhadores migrantes observam - e sua situação de classe os predispõe, mais cedo ou mais tarde a entrar nessa equação.
As monarquias do golfo árabe, vendidas como são, não conhecem outro caminho para a insatisfação popular que não a repressão aberta contra seu povo. Mas sua hora há de chegar e, como disse o grande revolucionário palestino Ghasan Kanafani:
"O imperialismo lançou seu corpo sobre o mundo, a cabeça no Leste Asiático, o coração no Oriente Médio, suas artérias alcançando a África e a América Latina. Onde quer que você o atinja, você o danifica, e serve à revolução mundial."
Desfile de mísseis balísticos iranianos. Fonte: AFP
No dia 22 de junho de 1941 a Alemanha nazista iniciou sua invasão aos territórios da União Soviética. Inebriado pela vitória das suas guerras-relâmpago na Europa Ocidental e na África –devidas, em grande medida, à capitulação das chamadas “democracias” anglo-francesas durante a década anterior –, Hitler ignorou os apelos de vários dos seus generais no sentido de não abrir uma frente a Leste, sem ter chegado a um acordo mínimo com a Inglaterra (e, por extensão, Estados Unidos) a Oeste. Crendo na superioridade racial do povo ariano, e na sub-humanidade dos eslavos, o chefe do III Reich pensava ser possível derrubar em poucas semanas o Poder Soviético, em parte, devido à densa propaganda anticomunista que soprava do mesmo Ocidente acerca da suposta insatisfação dos cidadãos da URSS com o regime socialista. Baseado em grande supremacia bélica, e no fato de que toda a indústria da Europa ocupada trabalhava para a Alemanha, Hitler conseguiu significativas vitórias iniciais e impôs pesadas perdas ao Exército Vermelho, chegando suas tropas até às portas de Moscou. Contudo, amplamente mobilizadas pelo Partido Bolchevique, a totalidade das massas soviéticas e os combatentes se uniram sob a consigna “Pela Pátria, por Stalin!”, defenderam seu território palmo por palmo e terminaram a campanha, quatro anos e milhões de vidas depois, em Berlim. A Operação Barbarossa marcou, com efeito, o início do fim do nazi-fascismo clássico.
Temos muitas razões para imaginar que, no futuro, a Operação Fúria Épica, desatada por Estados Unidos e Israel contra a República Islâmica do Irã no último sábado, 28 de fevereiro, que resultou no assassinato do líder xiita Ali Khamenei, será lembrada, a despeito da dor e sofrimento que já inflige aos 90 milhões de iranianos, como o início do fim da hegemonia geopolítica do imperialismo estadunidense e de seu vassalo sionista.
Com efeito, se devemos atentar para os aspectos materiais –de que falaremos adiante –, é preciso advertir que a guerra é igualmente feita pelos seres humanos e suas ideologias. Trump e Netanyahu, como Hitler, creem-se membros de uma elite racialmente superior aos persas, aos árabes e aos povos que não são originariamente europeus de maneira geral. Trump, como Hitler, despreza o papel da mobilização popular e joga todas as suas fichas na superioridade estritamente bélica para fazer uma guerra-relâmpago. Assim como Hitler acreditava na propaganda anticomunista ocidental, Trump crê piamente que o povo persa se levantará, sob o bombardeio e os crimes dos seus inimigos (dentre os quais avulta o bombardeio de uma escola primária de meninas, resultando em mais um evidente crime contra a humanidade perpetrado pelos imperialistas à luz do dia), contra o regime que cumpre o mínimo que se exige de qualquer Estado, seja de que classe for: a defesa do seu território legítimo (o que não se confunde com anexações, por óbvio). Esta aposta de Trump é comprovadamente falsa e dela derivam necessários erros de cálculo, de que a feroz e inteligente resistência do Irã é prova inequívoca.
Os que, neste momento, relativizam a defesa sagrada do Irã à autodefesa e não percebem que nesta fase da luta a questão de classe está subordinada à sobrevivência da nação como um todo, formam parte do pequeno punhado de traidores que merecem o repúdio e o castigo. Qual sorte terão o proletariado e as massas iranianas sob um regime lacaio de Estados Unidos e da entidade sionista? Estarão mais próximos, sob tal regime, do socialismo ou da escravidão? Quais as perspectivas de vitória da resistência palestina em caso de capitulação de Teerã? Por aí se vê que, na verdade, as questões sociais e nacionais estão ligadas entre si, sendo a subordinação daquelas a estas relativa e passageira ou, mais do que isso, apenas facetas distintas de uma única questão central, que é a luta contra o imperialismo agressor.
Países diretamente envolvidos no conflito. Fonte: Al Jazeera.
Adentramos no terreno da guerra mundial
Em resposta à agressão covarde e ilegal, o alto comando iraniano atacou Israel e diversas bases militares e navios norte-americanos na região. As bases militares dos EUA no Kuwait, Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Arabia Saudita, Iraque, Catar, Jordânia e Síria foram alvejadas. Nelas, foram destruídos inúmeros equipamentos importantes. A base do Kuwait, em particular, foi riscada do mapa. O porta-aviões USS Abraham Lincoln, símbolo da arrogância imperial estadunidense, também foi atingido por mísseis iranianos. Números extraoficiais falam em 550 soldados ianques eliminados, embora oficialmente o comando estadunidense reconheça apenas quatro baixas. Oficiais da CIA também foram eliminados em Abu Dahbi. Para evitar mais perdas, seu pessoal técnico e militar evacuou das bases e opera desde hoteis, ou seja, fazendo da população civil o seu escudo humano. Bases do Reino Unido no Chipre também foram alvos dos mísseis iranianos. Diversas cidades no território palestino ocupado por Israel foram extensamente atacadas, e estão em chamas, tendo a sua população que passar longas horas no interior de abrigos. Instalações de petróleo da Arábia Saudita, Catar e outros estados títeres também foram atingidas. Trata-se de uma guerra regional em um ponto crítico da economia e da política mundial. Ou seja, de fato, já se trata de um conflito com repercussões mundiais, o que tenderá a se agravar nas próximas semanas. A China, que importa 40% do petróleo que atravessa o Estreito de Ormuz, assim como a Rússia, que depende da fabricação de drones e equipamentos militares iranianos para sustentar seu esforço de guerra na Ucrânia, não poderão ficar indiferentes aos acontecimentos.
Neste cálculo de agravamento da situação sionista-estadunidense também conta a sublevação das massas, razão pela qual as retrógradas monarquias do Golfo ainda são obrigadas a manter algum comedimento aparente no seu alinhamento com Trump e Netanyahu. Houve graves distúrbios nas embaixadas ianques na região, sendo os maiores confrontos verificados no Iraque e no Paquistão, onde dezenas de manifestantes foram assassinados. O Hezbollah, encorajado pela firme resposta iraniana, atacou o Norte de Israel desde o Líbano, revidando as diárias violações do cessar-fogo praticadas por Israel desde 2024. O próprio escritório de Netanyahu foi alvejado no centro de Telaviv, o que prova a ineficácia dos seus sistemas de defesa antiaérea contra o enxame de aço e fogo que vem do Irã. Na verdade, ao contrário do que pretendem os senhores da guerra imperialistas, a selvageria com que buscam saquear os povos oprimidos atiça seu espírito de resistência. Na sua política externa, o proletariado deve agarrar com firmeza a luta pela independência nacional contra o imperialismo, tanto quanto, em política interna, a bandeira das liberdades e direitos democráticos contra o fascismo.
Quanto aos aspectos econômicos, o preço do petróleo e do gás disparou e, ainda que não haja confirmação de fechamento definitivo, na prática o tráfego pelo Estreito de Ormuz (pelo qual escoa um quinto do petróleo mundial) já está gravemente limitado. O dólar sofre grave desvalorização e, o que é bastante sintomático, o ouro apresenta trajetória inversamente proporcional. As limitações no campo de batalha – por ora, aéreo e marítimo – tendem a acelerar o declínio do dólar como moeda mundial, pois este está sustentado desde o fim da conversibilidade dólar-ouro na força das armas estadunidenses; o declínio do dólar como moeda fictícia capaz de comprar riquezas reais, degradará a capacidade militar ianque. Enquanto o Irã usa drones que custam centenas de dólares para infligir danos às instalações dos seus inimigos, Israel e Estados Unidos são obrigados a mobilizar armamentos de milhões de dólares para interceptá-los. Embora gigantescas, as reservas dos Estados Unidos não são ilimitadas; as reservas de Israel já são limitadas e colapsarão em caso de prolongamento das hostilidades. Por vias aérea e marítima, os agressores podem impor perdas humanas incalculáveis ao povo iraniano, mas não vencê-lo; se se decidem pela invasão terrestre, abreviarão em décadas o seu próprio sepultamento.
As perdas militares e econômicas não deixarão de repercutir politicamente no interior dos Estados Unidos, com aumento da inflação e questionamentos às ações ilegais de Trump, que rasga a lei interna tanto quanto a lei internacional, ao declarar sucessivas guerras sem autorização do Congresso. No interior do seu próprio movimento fascista, MAGA, já surgem dissidências, que cobram sua promessa de não envolver os EUA em novas guerras no estrangeiro. Se o presente é de dor e sofrimento para as massas iranianas, palestinas e libanesas, vitimadas pela sanha assassina dos imperialistas, o futuro é de derrota certa para os imperialistas. A resistência iraniana, quanto mais dure, mais acelerará este processo, em essência, irreversível. Aqui se confirma o que não é uma passagem lírica, mas uma profunda síntese histórica, radicalmente científica, formulada pelo Presidente Mao: os imperialistas e todos os reacionários são tigres de papel!