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O mundo islâmico irrompe em chamas

Manifestantes entram em confronto intenso com força de segurança.

Existem momentos em que a máscara cai, em que a farsa da 'estabilidade' que o imperialismo vende sobre seus reinos clientes no Golfo Pérsico se desfaz em poucas horas, revelando regimes de minoria sunita mantidos pelo sabre saudita, pelo dólar americano e pela repressão policial sobre uma maioria xiita expropriada, humilhada e silenciada. Bahrein vive um desses momentos. E o medo dos Al-Khalifa — a família real que há dois séculos senta sobre o pescoço daquele povo— é tão palpável que pode ser medido pelo número de prisões.


A população do Bahrein é de maioria xiita — em torno de 55 a 60 por cento. Esta maioria ocupa sistematicamente os estratos inferiores da hierarquia social: excluída dos postos de comando das forças armadas e da polícia, sub-representada nos cargos governamentais, discriminada no acesso ao emprego público e ao funcionalismo de elite. Ao mesmo tempo, o Bahrein é um dos países com maior proporção de trabalhadores migrantes em relação à população total: migrantes representam mais da metade dos habitantes do arquipélago, e constituem a espinha dorsal da força de trabalho privada — construção civil, serviços domésticos, hotelaria, comércio, etc.


Esses trabalhadores — vindos majoritariamente do sul da Ásia, da África subsaariana e do Sudeste Asiático — operam sob o sistema kafala, que vincula o status de residência do trabalhador ao seu empregador. Na prática é um sistema de semiescravidão, onde o trabalhador não pode trocar de emprego sem autorização do patrocinador, não pode deixar o país e qualquer tentativa de escapar de um empregador abusivo o transforma automaticamente em migrante ilegal sujeito a prisão e deportação. O próprio ministro do Trabalho do Bahrein chamou, em 2009, o kafala de escravidão — e depois de fazer essa declaração o país anunciou reformas que, como documentou a Human Rights Watch, 'as autoridades pouco fizeram para fazer cumprir'. Em 2026, o kafala segue em vigor: trabalhadores domésticos continuam excluídos de proteções básicas como dias de folga semanais, horas extras e licença médica remunerada. Não há salário mínimo para trabalhadores estrangeiros. Os salários são pagos com atraso ou simplesmente não são pagos. É sobre essa estrutura que os Al-Khalifa reinam, com o apoio da 5ª Frota da Marinha norte-americana ancorada em Manama e das tropas sauditas estacionadas na fronteira.


Quando os mísseis iranianos atingiram instalações ligadas à 5ª Frota em Manama em 28 de fevereiro e 1º de março de 2026, o regime deparou-se com uma situação que revela sua própria fragilidade estrutural: vídeos circularam nas redes sociais mostrando grupos de bahreinitas comemorando os ataques. Rindo, batendo palmas e celebrando o fogo que caiu sobre a frota que garante a família que os oprime.


O regime respondeu com prisões. As autoridades do Bahrein lançaram uma campanha de detenções contra indivíduos que teriam 'expressado alegria e celebração' pelos ataques iranianos. Esse episódio demonstra a profundidade do abismo entre os Al-Khalifa e a maioria do povo que governa. Demonstra que o único laço que une esse povo a essa monarquia é o laço da coerção. E que, qquando os mísseis iranianos fazem tremer a base naval americana e, com ela, a garantia de sobrevivência do regime, o que emerge é a alegria.

O que aconteceu no Bahrein ecoou em toda a região, no Paquistão — país com a segunda maior população xiita do mundo, estimada em 30 a 40 milhões de pessoas —, protestos eclodiram em múltiplas cidades simultaneamente. Em Karachi, a maior cidade do país, centenas de manifestantes marcharam em direção ao Consulado Geral estadunidense. A força de segurança abriu fogo, ao menos 10 pessoas foram mortas dentro e ao redor do consulado e mais de 60 ficaram feridas. Em Skardu, no norte do país, ao menos 11 manifestantes foram mortos. Em Islamabade, entre 5.000 e 8.000 pessoas concentraram-se próximas à Zona Vermelha, o distrito que abriga o parlamento e a embaixada norte-americana. 'Aqueles que estão do lado dos EUA são traidores', gritava a multidão. 'Vingança contra Israel’.


No Iraque, centenas de manifestantes tentaram chegar ao complexo diplomático na Zona Verde de Bagdá onde fica a embaixada dos EUA. A polícia iraquiana respondeu com gás lacrimogênio e granadas de atordoamento. O Grande Aiatolá Ali al-Sistani — a autoridade religiosa xiita mais respeitada do mundo árabe, um homem que raramente faz declarações políticas diretas — convocou os iranianos a 'permanecerem unidos'. O governo iraquiano decretou três dias de luto nacional por Khamenei.


Na Índia, xiitas saíram às ruas em marchas de velas, carregando retratos do mártir, entoando consignas anti-imperialistas. No norte da Nigéria, em Kano, manifestantes agitaram bandeiras iranianas e palestinas enquanto arrastavam pelo chão bandeiras dos EUA e de Israel.


Voltando ao Bahrein, o regime não tem sequer legitimidade popular para suportar que seus súditos expressem alegria numa rede social, demonstrando a profundeza da crise de sua hegemonia. 


O imperialismo construiu no Golfo Pérsico um sistema de controle baseado em três pilares: monarquias clientes, bases militares e exploração da força de trabalho migrante. Esse sistema está sob pressão como não esteve desde 1979. As bases são atacadas, os clientes são pressionados por sua própria população e os trabalhadores migrantes observam - e sua situação de classe os predispõe, mais cedo ou mais tarde a entrar nessa equação.


As monarquias do golfo árabe, vendidas como são, não conhecem outro caminho para a insatisfação popular que não a repressão aberta contra seu povo. Mas sua hora há de chegar e, como disse o grande revolucionário palestino Ghasan Kanafani: 

"O imperialismo lançou seu corpo sobre o mundo, a cabeça no Leste Asiático, o coração no Oriente Médio, suas artérias alcançando a África e a América Latina. Onde quer que você o atinja, você o danifica, e serve à revolução mundial."

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