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"Almas Livres, Corpos Encarcerados", projeto de leitura de Igor Mendes pela N-1 Edições


Desde abril, a N-1 Edições vêm lançando semanalmente leituras inéditas sobre prisão, o projeto "Almas Livres Corpos Encarcerados" tem curadoria do autor e editor da nossa revista Igor Mendes. A publicação segue um tema fio que o acompanha durante sua trajetória como autor, e como ativista político, que é o da prisão, motivado pela sua passagem pelo sistema prisional como preso políticos das Jornadas de Junho de 2013 e da mobilização contra a Copa em 2014. Igor agora traz uma curadoria de textos sobre diversos casos de prisão em diferentes contextos como a libertação nacional Palestina, a luta revolucionária do grupo Fração do Exército Vermelho da Alemanha e das masmorras repressivas indianas contra qualquer vento que se levante contra seu estado de castas.


A primeira publicação é do palestino Nasser Abu Srour, que passou 12 anos nas prisões israelenses, sendo um dos libertados em 13 de outubro de 2025 no âmbito do acordo de troca de prisioneiros e cessar-fogo no Gaza, atualmente exilado para o Egito. Nasser publicou o La historia de un muro (em espanhol), ainda não publicado no Brasil e ganhou o Prêmio de Literatura Árabe 2025. O texto publicado é uma entrevista ao The New Arab sobre sua vida pós-prisão, o qual o Palestino emociona e faz uma singela evocação sobre a força que deve ter um ativista quando preso:


"A geografia da prisão impõe aos seus detentos uma postura revolucionária que é extensão de uma longa luta, garantindo que a prisão não constitua uma ruptura ou descontinuidade no cenário político e de resistência nos territórios ocupados. Aqueles que assumem posições devem ser uma força motriz e um fator que torne os prisioneiros capazes de — e de fato comprometidos com — formular um discurso nacional abrangente que reorganize o vocabulário do conflito com a ocupação e construa uma espécie de guarda-chuva ou berço no qual todas as mentes e mãos se unam em busca do objetivo da libertação e da emancipação."


Além deste, um destacado texto publicado é o de Lutz Taufer, começou a militar pelo Coletivo Socialista de Pacientes da Universidade de Heidelberg e nos Comitês contra a Tortura por Isolamento de Presos Políticos. Em 1975, participou da ocupação armada da Embaixada da Alemanha Ocidental em Estocolmo para libertar 26 presos políticos, mas a ação fracassou, resultando em 20 anos de prisão, a maior parte em regime de isolamento. Foi libertado da prisão em 95 e atualmente mora no Brasil. O seu relato diferencia-se do estilo de Nasser, mais literário. O que de forma alguma retira sua importância ao preparar as gerações de lutadores para o que é a luta reivindicativa e diária no sistema prisional.


"Três anos após minha prisão, fui transferido para outra prisão. Quando, à noite, a porta da minha cela foi destrancada para que eu pudesse pegar a refeição do jantar, havia três prisioneiros idosos em uniformes de detentos em frente à minha cela; eles permaneciam imóveis nas portas de suas celas. Os guardas estavam ali ao lado, sorrindo. Todas as outras celas do corredor estavam trancadas. Eu nunca tinha tido contato com outros prisioneiros. No  primeiro momento,  fiquei surpreso e não sabia como me comportar. Acenei para eles amigavelmente, mas não houve nenhuma reação. Foi estranho. Na manhã seguinte, minha cela foi aberta novamente, todas as outras celas permaneceram fechadas como sempre,  e pude pegar água quente. Vi os nomes escritos nas portas dos três prisioneiros idosos. Kaduk, Erber, Klehr. Os nomes não me eram desconhecidos. Eu os conhecia da literatura sobre o fascismo. Eram três dos poucos condenados  da SS que haviam sido condenados no Julgamento de Auschwitz, em Frankfurt. Klehr era o paramédico de Auschwitz que matou milhares de prisioneiros com injeções no coração. Kaduk prestava serviço na rampa, onde assassinava cruelmente crianças que chegavam. Um quarto, Boger, o inventor do balanço de Boger, um instrumento de tortura que já existia durante a escravidão também no Brasil, havia falecido um ano antes."

E continua:


"Então era essa a “igualdade de tratamento” pela qual havíamos lutado com greves de fome, que o governo me oferecia. Eu teria que passar os próximos anos com esses monstros nazistas. Essa experiência me deixou completamente abalado. Senti que era meu dever absoluto matar esses monstros. Tentei afiar uma faca da minha cela para transformá-la em arma, o que, felizmente, não deu certo.

Como não queria me envolver com esses nazistas, a única opção que me restava era ficar sozinho na cela de isolamento. Mas isso não era uma solução. Exigi ser transferido para Celle, outra prisão, para ficar com outros três presos da RAF."


Este mundo da prisão, nada desconhecido dos revolucionários e dos ativistas, toma uma forma mais clara e menos "final" para aqueles que lêem, a luta, como diz Nasser, continua e se transforma dentro da prisão, ela agudiza a luta interna da esquerda contra a direita, da deserção contra a persistência e limita os espaços para onde se apoiar. Ainda assim, milhares e milhões de jovens enfrentam a sua forma esta limitação e carregam no peito uma medalha de honra como inimigos declarados do Rei.


As publicações seguirão e pelo que temos de informação contará com um relato inédito em português de uma prisão indiana, dentro do contexto da Operação Caçada Verde, uma das muitas mobilizadas pelo governo da Índia que prometia o fim dos naxalitas e do maoísmo no país, mais uma fracassada. Acompanhe as publicações pelo instagram e site da N-1 Edições.


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