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Cem anos sob o controle de Washington

Foto: Getty Images
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Sob os olhar sedento do secretário de Energia dos Estados Unidos, Christopher Wright, o governo venezuelano assinou, em 2 de setembro, no Palácio de Miraflores, oito contratos com petroleiras estrangeiras (Chevron, ENI e General Electric entre elas). A presidente interina Delcy Rodríguez chamou o dia de histórico. Mas o mega acordo que Donald Trump havia anunciado dias antes, classificado por ele como o maior contrato petrolífero já assinado no mundo, não saiu do papel na cerimônia. O próprio presidente da Assembleia Nacional, Jorge Rodríguez, irmão de Delcy, reconheceu que o convênio binacional "ainda não foi formalizado por aqueles que devem fazê-lo, que são os dois governos", mesmo depois de o Parlamento votar, um dia antes, apoio a um documento que formalmente ainda não existe.

O que a Casa Branca já detalhou, por meio de nota assinada pelo secretário de Estado Marco Rubio e pelo secretário de Guerra Pete Hegseth, é suficiente para medir o tamanho da operação. Dezessete campos petrolíferos, com reservas de 65 bilhões de barris, 21% das reservas comprovadas da Venezuela, foram concedidos por cem anos à North American Blue Energy Partners (Nabep), companhia do empresário Alejandro Betancourt. O Escritório de Capital Estratégico do Departamento de Guerra dos EUA ficou com 35% da empresa mãe da Nabep. O Departamento de Estado garantiu o direito de comprar, a preço de custo, 20% de toda a produção presente e futura, além de preferência sobre os 80% restantes. Washington ainda reservou para si o poder de veto sobre qualquer nomeação ao conselho de administração da empresa. Wright resumiu o essencial em Caracas: "a maioria dos diretores das empresas serão norte-americanos". O comunicado da Casa Branca completa o pronunciamento ao afirmar que o entendimento com a Nabep é regido pela legislação dos Estados Unidos e está sujeito à jurisdição de tribunais ianques. Um quinto do subsolo venezuelano passa a responder, por um século, à besta imperialista.


O empresário Alejandro Betancourt já foi investigado na Espanha, na Suíça e nos Estados Unidos por suposta lavagem de dinheiro e fraude fiscal ligadas a operações com a estatal PDVSA, acusações que nega. É esse mesmo empresário, à frente de uma companhia que multiplicou por dez sua produção em dois anos com um bilhão de dólares de investimento próprio, que agora detém direitos sobre 65 bilhões de barris por cem anos, com o Pentágono como sócio minoritário e o governo interino venezuelano como fiador político Delcy Rodríguez apresentou a parceria como caminho para recuperar a infraestrutura elétrica e energética do país, prometendo US$ 100 bilhões em investimentos e US$ 209 bilhões em impostos ao longo de 25 anos, prazo que contradiz os cem anos definidos pela Casa Branca, uma incoerência que os dois governos ainda não explicaram. O economista venezuelano Francisco Rodríguez, professor na Universidade de Denver, chamou atenção para outro dado: a receita fiscal anunciada equivale a apenas US$3,22 por barril, cerca de 4,7% do preço atual do petróleo, menos da metade da taxa de royalties fixada pela ditadura militar de Juan Vicente Gómez na década de 1920, quando o país abriu pela primeira vez suas jazidas ao capital estrangeiro. É a régua de comparação mais restritiva da história petroleira venezuelana. Rodríguez lembrou ainda que a Lei de Hidrocarbonetos exige licitação pública para a cessão de campos, e que concessões de cem anos superam em duas vezes as mais longas já outorgadas no país desde o início da exploração de petróleo.


A trajetória que leva Delcy Rodríguez a essa mesa de assinaturas começa na madrugada de 3 de janeiro de 2026, quando forças especiais dos Estados Unidos bombardearam instalações em Caracas e outros três estados venezuelanos, invadiram a residência de Nicolás Maduro e o sequestraram junto da esposa, Cilia Flores, levando o casal a Nova York sob acusações de “narcoterrorismo’. Dezenas de pessoas foram assassinadas pelos EUA na operação, e as Nações Unidas, como sempre fazem, sem nunca questionar qualquer aspecto da ingerência ianque sobre o mundo, manifestaram preocupação com a violação de princípios fundamentais do “direito internacional”. Ao tomar posse dois dias depois, Delcy definiu o episódio nesses termos: "venho com dor pelo sequestro de dois heróis que temos como reféns nos Estados Unidos". Prometeu soberania, denunciou a ingerência estrangeira, colocou o irmão à frente de uma comissão para exigir a libertação de Maduro. Oito meses depois, recebe em Miraflores o secretário de Energia do governo que ordenou aquele bombardeio, celebra "o caminho da diplomacia" e assina um regime de propriedade em que a maioria dos conselheiros da empresa que explora seu petróleo será estadunidense e as disputas serão resolvidas em tribunais dos Estados Unidos. A retórica de resistência serviu para consolidar o poder de uma fração da burocracia chavista sobre o aparelho de Estado. Garantido esse poder, a mesma fração administra a entrega do recurso que sustenta a economia do país aos termos ditados por quem sequestrou seu chefe de Estado.


O pedófilo laranja chegou a advertir publicamente que Delcy Rodríguez pagaria um preço mais alto do que o próprio Maduro caso não colaborasse. O comunicado da Casa Branca sobre o acordo petrolífero é explícito quanto ao objetivo geopolítico de restauração da Doutrina Monroe, "expurgando a influência estrangeira maligna de nossa região" e garantindo que "a supremacia americana em nosso hemisfério nunca mais seja questionada". Empresas russas, chinesas e cubanas foram nomeadas como alvo de expulsão do território venezuelano. A América Latina segue sendo tratada como quintal. A cúpula do PSUV e o filho de Maduro, Nicolás Maduro Guerra, saíram em defesa do acordo, citando entrevista do próprio Maduro, concedida dois dias antes de seu sequestro, em que o então presidente já se dizia favorável ao retorno do capital ianque ao setor petroleiro "sob condições de respeito mútuo", evidência de que a abertura ao capital estrangeiro não foi imposição unilateral de Delcy, mas continuidade de um giro que o chavismo já vinha preparando após anos de queda na produção: dos 2,5 a 3 milhões de barris diários do auge do governo de Hugo Chavez, entre 2005 e 2014, para o 1,1 milhão de barris produzidos em julho deste ano. Setores da base reagiram: a Frente Popular Anti-imperialista foi às ruas de Caracas afirmar que a Venezuela "não é colônia, nem quintal" dos Estados Unidos. O Movimento Revolucionário Tupamaro denunciou que, por trás do discurso de investimento e desenvolvimento, esconde-se a subordinação da riqueza nacional a interesses estrangeiros.


A guerra no Irã e o fechamento do Estreito de Ormuz derrubaram a oferta global de petróleo, disparando o preço dos combustíveis dentro dos próprios Estados Unidos às vésperas de uma eleição legislativa de novembro que pode custar aos republicanos a maioria no Congresso. Washington não busca petróleo venezuelano porque domina o mercado mundial de energia, mas porque perdeu parte desse domínio e precisa repô-lo pela força, com bombardeiros e concessões de um século, ali onde antes bastava a pressão de sanções e a promessa de investimento. A economia do império necessita de injeções constantes e do avanço ininterrupto de seu capital para fora de suas fronteiras. Esta economia, dominada por um complexo industrial militar, precisa financiar os esforços de guerra mundo a fora para se manter competitiva. Um império que ainda dita preços em Nova York e sentencia em tribunais de Manhattan, mas que já não consegue garantir seu próprio abastecimento sem sequestrar chefes de Estado, não está no auge de suas forças, está ferido, e um predador ferido não recua, ataca com mais violência onde encontra menos resistência. Na América Latina, a Venezuela pagou essa conta primeiro, mas as garras do império moribundo se estendem ao resto da América Latina quando convém aos seus interesses. Esta velha potência, farta e desdenhosa, encontrando-se em um estado de pura decadência, não medirá esforços para arrastar o máximo de povos ao abismo junto com ela. O restante da América Latina deveria estar atento às movimentações desta besta ferida e do precedente que Miraflores acaba de homologar.

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