
CHINA SOCIAL-IMPERIALISTA FINANCIA O MASSACRE DO POVO DE MYANMAR
- Núcleo de São Paulo
- há 1 dia
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Por Jorge Hannah
Há uma falsidade cômoda, repetida à exaustão nos círculos da esquerda reformista e pelos defensores do chamado “mundo multipolar”, segundo a qual a China de Xi Jinping representaria, de alguma forma, uma alternativa ao imperialismo. Esta falsidade tem cheiro de morte - o cheiro da morte que vem de lugares como Myanmar.
Examinemos os fatos. Não os fatos conforme apresentados pelos porta-vozes do Partido Comunista Chinês, nem conforme repetidos pelos companheiros de viagem que trocaram o marxismo pelo elogio ao PIB de Pequim, como se o socialismo pudesse ser medido por tais indicadores e não fosse, em essência, o autogoverno das massas trabalhadoras.
Desde o golpe de Estado de fevereiro de 2021, quando a junta militar conhecida como SAC (State Administration Council), sob o comando do general Min Aung Hlaing, derrubou o governo eleito e iniciou um banho de sangue contra seu próprio povo, Myanmar vive uma nova fase das sua longa guerra civil, uma das mais sangrentas do século XXI.
De um lado, a junta militar. O Tatmadaw — o exército birmanês — é uma força reacionária de longa data, responsável por décadas de repressão contra as minorias étnicas do país, pelo genocídio dos Rohingya e agora por uma guerra aberta contra a maioria da população. Sua base social é estreita, seu apoio popular inexistente. Para se manter, depende inteiramente do apoio externo em armas, tecnologia e legitimidade diplomática.
Os dados sobre os crimes dessa junta são tão contundentes quanto perturbadores. A Associação de Assistência aos Presos Políticos registrou ao menos 6.239 civis mortos e 28.444 detidos desde o golpe - e os próprios pesquisadores advertem que o número real de mortos é certamente muito superior, pois não inclui os mortos em áreas remotas de difícil acesso. Quatrocentos civis foram queimados vivos ou após execução sumaria. Mais de 3,5 milhões de pessoas estão deslocadas internamente. Quase metade da população vivia abaixo da linha da pobreza em 2023, contra 27% em 2017. A classe média colapsou 50% em três anos, segundo estudo do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento divulgado em 2024.
Em fevereiro de 2024, com as fileiras militares reduzidas a menos de 130.000 homens pelas perdas de batalha e deserções em massa - foram 180 bases militares perdidas para a resistência -, a junta implementou o recrutamento forçado: homens de 18 a 35 anos e mulheres de 18 a 27 são forçados ao serviço militar, com penas de até cinco anos de prisão para os refratários. Jovens são sequestrados nas ruas de Yangon e Mandalay. Famílias pagam subornos de centenas ou milhares de dólares para livrar seus filhos. Quatorze milhões de pessoas estão tecnicamente elegíveis para o alistamento compulsório.
Este é o quadro geral. Agora perguntemos: o que faz a China neste quadro?
Os apologistas da China “socialista” dirão: Pequim mantém relações com todas as partes do conflito, busca a estabilidade, não interfere nos assuntos internos. É uma mentira. E não é nem sequer uma mentira com aparência de verdade.
A China é fornecedora ativa de armamentos à junta assassina.
A corporação estatal de aviação chinesa AVIC entregou oito aeronaves militares ao Tatmadaw em 2024 — enquanto este mesmo Tatmadaw as usava para bombardear aldeias civis, campos de deslocados internos, escolas e locais religiosos. A NORINCO — outra empresa estatal chinesa — fornece à junta armas, tecnologia militar e componentes para produção doméstica de munição. A CSIC (China South Industries Corporation) auxilia diretamente na produção de bombas aéreas utilizadas nos ataques. A China é, desde o golpe, o principal fornecedor de drones à junta — a arma que o Tatmadaw passou a empregar sistematicamente contra posições da resistência e populações civis.
Nos perguntamos: que tipo de “neutralidade” atenta contra a vida do povo trabalhador em luta contra uma juta militar golpista? Devemos dar nome aos bois e tratar a realidade como ela é: a China é cumplice dos crimes de guerra do Tatmadaw.
Os números são eloquentes por si mesmos: o Governo de Unidade Nacional (NUG) registrou 444 ataques aéreos em 2020. Em 2023, foram 1160. De janeiro a outubro de 2024, 2.648. Cada ponto nessa curva ascendente corresponde a casas destruídas, famílias massacradas, crianças mortas. E por cima de cada um desses ataques, paira a sombra do capital chinês.
Em agosto de 2024, o chanceler Wang Yi prometeu 3 bilhões de dólares em assistência à junta. Em novembro de 2024, o próprio Min Aung Hlaing foi recebido em Kunming pelo primeiro ministro Li Qiang.
Para um marxista, a questão correta não é apenas 'o que a China faz', mas 'por que faz'. A resposta está nos interesses materiais do capital chinês em Myanmar, que são transparentes como o vidro.
O país é um elo fundamental no Corredor Econômico China-Myanmar (CMEC), parte da Iniciativa Cinturão e Rota. Este corredor conecta a província de Yunnan ao Oceano Índico, fornecendo à China o acesso marítimo que lhe permite contornar o estratégico estreito de Malaca, pelo qual passa a maior parte de seu comércio exterior e importação de energia. É uma questão de sobrevivência estratégica para o imperialismo chinês.
Os oleodutos que levam gás e petróleo ao Yunnan partem do porto de Kyaukphyu, no Estado Arakan — hoje sob controle crescente do Exército Arakan. O porto de águas profundas de Kyaukphyu, projeto bilionário chinês, está no coração da zona de combate. Das 34 obras de infraestrutura chinesas em Myanmar, 23 estavam, em dezembro de 2024, em territórios controlados pelas forças de resistência.
Eis o problema concreto do capital chinês: a junta que protege seus investimentos está perdendo a guerra. A solução imperialista é clássica — bombas, drones, aviões de guerra, bilhões em crédito. Estabilizar o regime que garante os contratos. Manter no poder o general que assina os acordos.
É o movimento natural do capital monopolista de Estado em busca de valorização. Lenin chamou esse processo pelo nome correto: imperialismo.
Mas — objetará o defensor do 'socialismo de mercado' — a China também pressionou a Aliança dos Três Irmãos. Também media negociações de cessar-fogo. Também se relaciona com os grupos étnicos.
A China apoiou inicialmente a Operação 1027 — deixou a Aliança dos Três Irmãos avançar — porque tinha interesse em punir a junta pelo caos que esta permitia nas fronteiras, onde proliferavam redes de crime organizado e ciber-estelionato que prejudicavam cidadãos chineses. Quando a Aliança avançou demais, quando tomou Lashio e ameaçou avançar sobre Mandalay e os interesses do cinturão e rota, a China fechou a fronteira. Cortou suprimentos médicos. Bloqueou vacinas infantis. Pressionou os grupos étnicos a negociar cessar-fogo com a junta. Usou o Exército Wa — milícia sob sua influência direta — como força de contenção.
É esta a 'neutralidade' chinesa: apoia quando serve, bloqueia quando ameaça. A régua que mede tudo não é a justiça dos povos oprimidos, não é o direito das nações à autodeterminação, não é a luta das minorias étnicas por sua libertação. A régua é o oleoduto de Kyaukphyu. É o porto de Mandalay. É a taxa de retorno do CMEC.
Quando um Estado usa sua posição para manipular uma guerra civil em outro país favor de seus interesses econômicos e estratégicos, fornecendo armas para massacres e bloqueando suprimentos médicos a populações civis, este Estado está pura e simplesmente praticando política imperial.
Alguns companheiros de viagem dirão: mas a China não é capitalista no sentido pleno! Há planejamento estatal, propriedade pública, o partido mantém o controle. Esta objeção confunde forma jurídica com conteúdo de classe.
O Estado chinês não representa os trabalhadores chineses. A riqueza produzida pela classe operária chinesa — explorada sob regimes de trabalho que fariam corar qualquer reformista burguês do século XIX — é apropriada por uma burguesia de Estado que se fundiu com o capital financeiro nacional e internacional. Os salários reais, as condições de trabalho, a supressão dos sindicatos independentes, os trabalhadores migrantes sem direitos, o fim da política da tigela de aço — tudo isto é a base material sobre a qual repousa o “milagre econômico chinês”. A essência do socialismo, repetimos uma vez mais, não são indicadores econômicos elevados (como o Brasil do regime militar teve na década de 1970) ou mesmo o mero bem-estar social, pois isso classificaria os países escandinavos como socialistas quando são imperialistas. A essência do socialismo é o poder político nas mãos dos trabalhadores. Como diria Lênin, afora o poder, tudo é ilusão!
Este capital, prossigamos, ao ultrapassar as fronteiras nacionais em busca de recursos, mercados e rotas estratégicas — como faz no Sudeste Asiático, na África, na América Latina — comporta-se exatamente como Lenin descreveu o capital financeiro monopolista em sua fase imperial. A bandeira vermelha com estrela amarela não muda a natureza das relações de produção que representa.
O povo de Myanmar enfrenta, simultaneamente, a brutalidade de uma junta fascista e a pressão de uma potência imperialista que financia essa junta para proteger seus oleodutos. Exige-se uma posição clara: a da solidariedade com o povo de Myanmar! Isto significa: denunciar o fornecimento de armas chinesas ao Tatmadaw; apoiar o direito das nações e minorias étnicas de Myanmar à autodeterminação; recusar a farsa das 'eleições' que a junta planeja encenar com financiamento e benção de Pequim; exigir o fim imediato de todo fornecimento de armas ao regime assassino — seja ele russo, chinês, estadunidense, francês ou qualquer outro.
O internacionalismo proletário não tem pátria preferida entre as potências. Tem apenas a causa dos explorados e oprimidos — em Myanmar, em Yunnan, em Gaza, em todo o mundo. A China social-imperialista financia o massacre do povo de Myanmar. Isso é um fato material. E fatos materiais exigem posições materiais.






