Derrotar a liderança desmobilizadora de Lula é uma condição para derrotar a extrema-direita
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A sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) da última terça, dia 15, ofereceu o espetáculo sangrento de ataques e escárnio entre os ministros previsto desde o estouro do escândalo do Banco Master. Até aqui, este caso se assemelha a um grande carnaval, no qual os demônios saem às ruas para que tudo volte ao normal após a catarse. Até aqui, do ponto de vista eleitoral, fracassou a trama urdida pela facção Bolsonaro-André Mendonça para fazer do ataque a Alexandre de Moraes uma bala de prata contra Lula. E isso por uma razão simples: os próprios “moralizadores de plantão” estão implicados até o pescoço na areia movediça de Daniel Vorcaro, como sabe bem o cristão Kassio Nunes.
É evidente que o vazamento das acusações contra Moraes, a poucas semanas das eleições, se configura em manobra judiciário-midiática, com finalidade eleitoreira, provavelmente com auxílio dos serviços de espionagem estadunidenses. Isto, contudo, é apenas metade da questão. A outra é que toda a cúpula “republicana” leva vida nababesca, enquanto os trabalhadores padecem com um dos menores salários mínimos da América Latina, inferior a de países como Colômbia, México e Chile, que possuem economias bem mais modestas que a brasileira. Alexandre de Moraes, desde os tempos em que foi Secretário de Segurança Pública de São Paulo, não se caracteriza exatamente por seu humanismo: quando ele encampou a perseguição aos golpistas bolsonaristas, o fez por mandato do núcleo duro das classes dominantes brasileiras – preocupadas com a perturbação que a instalação de uma eventual junta militar em Brasília causaria aos seus negócios – e para defender os próprios privilégios de corpo da burocracia a que pertence. O mesmo STF que posou então de “democrático” é marcado por uma série de decisões contra os direitos trabalhistas nos últimos anos.
Portanto, o repúdio da população a esse estado de coisas é não só justificável, como justo. Lula, em manobra que visa reverter a perda de votos mesmo em bastiões eleitorais históricos, como o dos beneficiários do Bolsa Família, anunciou a correção do programa, o que não ocorria desde 2023. Este pode ser o canto de cisne de um político que derrubar a reforma trabalhista e a escala 6x1, e encerra o mandato com os trabalhadores endividados e a juventude sem perspectivas de melhorias no curto prazo. Por uma certa ironia da história, tendo se elegido pela primeira vez em 2002 com o slogan “a esperança venceu o medo”, resta a Lula agora a nota única de que ou é ele ou o dilúvio da extrema-direita.
Deve-se dizer, a esse respeito, que se Flávio Bolsonaro for eleito em outubro, não haverá a hecatombe anunciada pelos marqueteiros petistas – e essa hecatombe é pintada desde as eleições contra Serra e Alckmin – e sim haverá luta. Ao programa ultraliberal deste “pixuleco” de Trump será preciso opor uma enorme mobilização social, coisa que de resto o PT e Lula não encarnam e pela qual não se interessam. Um novo mandato de Lula apenas adiará a eclosão destes embates, e a eles não resta nem o argumento, que seria lógico, de ganhar tempo para preparar o povo para defender o país da agressão imperialista e dos seus fascistas domésticos: a aposta da esquerda institucional é apenas salvaguardar a normalidade institucional, e dividir o governo com os caciques do Congresso, os magnatas “respeitáveis” do capital financeiro e do latifúndio. Ela não prepara, mas na verdade desmobiliza as massas para defender os seus interesses. Neste sentido, derrotar a liderança desmobilizadora de Lula é uma condição necessária para derrotar a extrema-direita, que afinal se fortaleceu e ganhou força justamente sob a sucessão de governos petistas.
O fato é que a “normalidade democrática” é contestada em todo o mundo, do mesmo modo como o acirramento da disputa entre Estados Unidos e China pela hegemonia mundial arrasta a América Latina e o Brasil para a grande conflagração que amadurece. Trata-se, portanto, de algo estrutural, que supera em muito as contendas eleitorais locais e não pode ser resolvido por elas. Como dizia o Grande Timoneiro, não devemos ter medo das grandes tormentas, pois a paz social no capitalismo nada mais é do que um estado de coisas em que as pessoas se deixam saquear e humilhar “pacificamente”. É tempo de descartar as ilusões de apaziguamento e preparar-se para a luta!






