Epstein: os arquivos do horror e a impunidade da classe dominante
- Jorge Batista
- há 7 horas
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A recente divulgação de novos arquivos ligados ao caso Jeffrey Epstein revela a faceta mais cruel e monstruosa do capitalismo imperialista e de sua classe dominante: trata-se de uma radiografia brutal do funcionamento interno dos membros desta classe, onde crimes hediondos, tráfico sexual e pedofilia são expressões orgânicas de um sistema fundado na exploração absoluta.
Os documentos, revelados após anos de sigilo judicial, expõem com maior nitidez aquilo que já era sabido e sistematicamente abafado, que Epstein não operava sozinho, tampouco à margem do poder. Ele era um operador político-financeiro, um mediador entre banqueiros, magnatas, chefes de Estado, membros da realeza, altos funcionários do imperialismo e serviços de inteligência.
Elon Musk
Nos arquivos judiciais o nome de Elon Musk aparece repetidamente em comunicações e registros que sugerem uma relação social mais próxima do que ele admitiu publicamente. E-mails datados de 2012 a 2014 mostram Musk trocando mensagens com Epstein sobre possíveis planos de visitar sua ilha privada no Caribe, incluindo perguntas sobre quando seriam as “festas mais animadas” no local e logística de datas festivas. Embora os registros também indiquem que a viagem não chegou a ocorrer, o simples fato de constarem nas páginas oficiais contradiz diretamente as repetidas negações públicas de Musk de que tenha participado de festas ou visitado a propriedade de Epstein.
Esses mesmos arquivos incluem referências a almoços e outros encontros planejados entre Epstein e Musk, bem como ao fato de que o seu nome foi listado em calendários e agendas do financista, registros que colocam sua figura no meio do circuito de elites que se moviam na órbita de Epstein, mesmo depois de sua primeira condenação por tráfico sexual em 2008.
Musk tem negado veementemente qualquer envolvimento, afirma que nunca esteve no avião conhecido como “Lolita Express”, na ilha ou em qualquer evento de abuso, e se apresenta como um crítico do encobrimento e defensor da divulgação total dos arquivos, bem como de punição aos verdadeiros criminosos envolvidos com Epstein. No entanto, o conteúdo dos documentos, que incluíram mais de 3,5 milhões de páginas de e-mails, agendas e registros, lança luz sobre uma interação entre Musk e Epstein que vai além de encontros casuais, indicando contato frequente e trocas de mensagens que agora são vistas como parte de um padrão mais amplo de vínculo social entre o financista e figuras poderosas do imperialismo.
Bill Gates
Outra figura que aparece repetidamente nos arquivos é o bilionário Bill Gates. Gates aparece não como um contato lateral, mas como alguém inserido numa relação prolongada com um predador sexual já condenado, relação essa que, segundo os próprios documentos atribuídos a Epstein, evolui para um regime explícito de chantagem. Rascunhos de e-mails e anotações internas de Epstein, datados de 2013, descrevem Gates como tendo mantido encontros íntimos mediados por Epstein e registram a posse, por parte do financista, de informações comprometedoras sobre a vida sexual do cofundador da Microsoft, incluindo alegações sobre doenças sexualmente transmissíveis e tentativas de ocultação desses fatos dentro de seu casamento.
Gates manteve encontros reiterados com Epstein mesmo após sua condenação por tráfico sexual em 2008, inserindo-se conscientemente em um circuito de abuso, segredo e chantagem típico das classes dominantes. O que os arquivos revelam é que Epstein se apresentava como alguém que detinha material suficiente para pressionar um dos homens mais poderosos do planeta, transformando a relação em um vínculo assimétrico de poder e vulnerabilidade.
Donald Trump
O nome de Donald Trump é outro que aparece repetidas vezes nos arquivos, inclusive em spreadsheets e listas internas do FBI em que agentes foram instruídos a “marcar” qualquer menção ao nome de Trump enquanto faziam uma revisão exaustiva dos arquivos relacionados a Epstein, segundo declaração parlamentar e relatos de pessoas envolvidas na verificação dos documentos. Esse sistema de marcação indica que Trump não é apenas um nome esporádico, mas uma figura central nos escândalos ligados ao financista.
Os arquivos incluem muitas “tips” e relatos enviados ao FBI por cidadãos ou fontes anônimas ao longo dos anos que mencionam Trump em contextos ligados a abuso sexual, tráfico de menores e eventos com Epstein e sua esposa, Ghislaine Maxwell, incluindo relatos de festas em que ele, Epstein e outras figuras poderosas estariam presentes. Em pelo menos um desses registros, um tip datado de outubro de 2020, a alegação é extremamente grave: um informante relatou ao FBI, com base em conversa com um motorista de limousine, que Trump teria feito comentários enquanto estava no telefone sobre “abusar de alguma garota”, e outra linha no documento descreve uma acusação de que “Donald J. Trump a estuprou junto com Jeffrey Epstein”.
Além dessas tips, há também menções documentais a Trump em registros de viagem e interações sociais com Epstein em décadas passadas. As versões publicamente disponíveis dos arquivos indicam que ele voou no jato particular de Epstein em pelo menos uma ocasião nos anos 1990, conforme registros de voo citados nos documentos, e que ambos frequentavam círculos sociais similares em Palm Beach e Nova York antes de Epstein se tornar um réu conhecido por tráfico sexual.
Ainda assim, o volume de menções, em milhares de páginas e múltiplos tipos de documentos, revela que o nome de Trump está intrinsecamente presente no material produzido por anos de investigação sobre Epstein e sua rede de contatos. O fato de agentes do FBI terem tido que flagrar propositadamente menções ao nome de Trump enquanto revisavam o material mostra que ele não é uma figura isolada ou casual nos arquivos, mas um referente recorrente, o que por si só alimenta intensa especulação política e mídia em torno de sua relação com Epstein e da possível razão pela qual certos documentos ainda não foram totalmente liberados ou explicados.
Bill Clinton
Nos milhões de páginas de arquivos, Bill Clinton aparece repetidamente em fotografias, registros de viagem e documentos que conectam o ex-presidente à rede de Epstein antes da exposição pública dos crimes do financista. Em várias imagens liberadas pelo Departamento de Justiça, Clinton é visto em momentos de proximidade com Epstein e com outras figuras associadas à rede do predador, incluindo fotos em um avião particular e em ambiente de piscina e banheira de hidromassagem ao lado de pessoas cuja identidade foi ocultada nos registros públicos. Essas imagens lançam luz sobre o grau de interação social entre Clinton e um homem posteriormente condenado por tráfico sexual de menores. Além das fotos, os arquivos incluem registros documentais que confirmam que Clinton viajou a bordo do jato particular de Epstein em múltiplas ocasiões na década de 1990 e início dos anos 2000, inclusive em viagens de missão humanitária à África com membros de sua comitiva. Esses documentos também mostram Clinton em companhia de associados de Epstein, como Ghislaine Maxwell, em contextos sociais descritivos, reforçando que sua relação com Epstein era duradoura e pessoal, e não apenas casual ou de passagem.
Os arquivos deixam claro que a presença de Clinton na órbita de Epstein não se limitava a uma simples legenda em foto, ao contrário de outros figuras públicas cujas aparições nos documentos são esparsas, o ex-presidente tem múltiplas referências e imagens que, no conjunto, desconstroem narrativas oficiais simplistas de distanciamento imediato após as primeiras acusações contra Epstein. Os arquivos confirmam que ele esteve repetidamente inserido no círculo íntimo de Epstein, viajou com ele, participou de eventos sociais e foi fotografado em contextos que a própria justiça burguesa agora considera relevantes o bastante para divulgação pública.
Israel
Embora os vínculos de Epstein com presidentes dos EUA, bilionários e membros da realeza sejam documentados há anos, o novo conjunto de documentos coloca ênfase renovada em suas relações excepcionalmente próximas com a elite política, de inteligência e diplomática de Israel, sobretudo com o ex-primeiro-ministro israelense Ehud Barak.
De acordo com documentos citados pela Agência Anadolu e pela CNN, Barak e sua esposa, Nili Priel, hospedaram-se diversas vezes no apartamento de Epstein em Nova York entre 2013 e 2017. Correspondências por e-mail divulgadas pelo Departamento de Justiça dos EUA mostram coordenação logística rotineira envolvendo a assistente de Epstein, Lesley Groff, incluindo arranjos de limpeza, atualizações tecnológicas e planejamento de viagens. Barak reconheceu conhecer Epstein desde 2003 e confirmou ter mantido contato mesmo após a condenação de Epstein, em 2008, por aliciamento de uma menor para prostituição. O volume e a normalidade dessas trocas, ocorridas anos depois de Epstein se tornar um criminoso sexual registrado, reacenderam o escrutínio público sobre a real natureza dessa relação.
Ainda mais explosivas são as revelações contidas em um memorando desclassificado do FBI de 2020, liberado como parte do mesmo conjunto de documentos. O memorando, redigido durante uma investigação do FBI sobre influência estrangeira nas eleições dos EUA, cita uma fonte humana confidencial que alegou que Epstein “trabalhava com a inteligência israelense” e era considerado um “agente cooptado do Mossad”. O documento afirma ainda que Epstein era “próximo ao ex-primeiro-ministro de Israel, Ehud Barak”, e sugere que Epstein teria sido treinado durante o período em que Barak ocupava cargos de liderança em Israel.
Embora o memorando não constitua uma conclusão judicial e se baseie em uma fonte confidencial, sua inclusão em um arquivo oficial do FBI demonstra que tais alegações foram levadas a sério o suficiente para serem registradas no âmbito de uma investigação de contrainteligência.
Trocas de e-mails entre Epstein e Barak incluíam referências - às vezes em “tom de brincadeira”, outras defensivas - ao Mossad, incluindo uma mensagem de 2018 em que Epstein pediu que Barak esclarecesse publicamente que ele não trabalhava para a inteligência israelense.
Os arquivos também revisitam o acordo judicial de Epstein na Flórida, em 2008, amplamente descrito por críticos como um “acordo camarada”. Segundo documentos do FBI, o então promotor Alex Acosta teria sido informado de que Epstein “pertencia à inteligência”, uma afirmação que Acosta nunca comprovou publicamente, mas que circula há anos. O memorando também menciona o professor de direito de Harvard Alan Dershowitz, alegando — novamente com base em fonte confidencial — que ele teria atuado de maneira alinhada aos interesses da inteligência israelense.
Trump aparece novamente no memorando do FBI, que afirma que presidente teria sido “comprometido por Israel” e identifica Jared Kushner como figura central no círculo decisório de Trump. O memorando também destaca o papel do movimento ultraortodoxo Chabad-Lubavitch, descrito como politicamente influente e intimamente ligado à ideologia dos colonos israelenses de linha dura. Kushner é identificado como apoiador do grupo.
E-mails divulgados nos arquivos sugerem que Epstein via Israel não apenas como uma conexão pessoal, mas como uma ferramenta geopolítica. Em uma mensagem, Epstein afirmou ter aconselhado o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, a visitar Israel para fortalecer laços com Washington. O governo indiano posteriormente classificou essas alegações como “ruminações vulgares”. Outros documentos indicam que Epstein tentou intermediar encontros de alto nível envolvendo autoridades israelenses, elites do Golfo e operadores de poder ocidentais, reforçando retratos dele como um intermediário informal operando fora dos canais diplomáticos convencionais.
Uma das revelações mais perturbadoras a emergir da avalanche destes documentos é a dimensão geopolítica que seus métodos assumiram ao longo de décadas, sugerindo que sua operação sexual e de chantagem ultrapassava a mera perversão individual e se convertia em um instrumento de poder estratégico, particularmente em prol destas redes vinculadas ao sionismo. Informações que circulam nos arquivos mostram que Epstein foi introduzido ao círculo de influência global por figuras ligadas à inteligência e ao capital financeiro sionista — incluindo a conexão com Robert Maxwell, um agente tanto do Mossad quanto do MI6, e a parceria de Epstein com Ghislaine Maxwell que durou décadas com implicações operacionais diretas nessa rede. Nos anos 1990, agentes como Ari Ben-Menashe, ex-membro do Mossad, descrevem o esquema de Epstein como uma “honey trap”, uma armadilha de mel em que festas com drogas, menores e elites políticas serviam para gravar, comprometer e coagir decisores em troca de influência política e alinhamento com interesses estratégicos de Tel Aviv. Essa descrição se sobrepõe aos arquivos, que documentam trocas frequentes entre Epstein e figuras israelenses-chave e sugerem que sua proximidade com o sionismo e com a inteligência israelense era uma operação que visava fortalecer o lobby sionista dentro das políticas externas dos Estados Unidos e de aliados, manipulando poderosos através de segredos e chantagens conjugadas com tráfico sexual e exploração, e não apenas uma coleção de relações sociais escusas.
Família Marino e Marinho
Para não dizer que não falei das flores, há também nos arquivos um e-mail datado de março de 2013 enviado pelo empresário Ian Osborne a Jeffrey Epstein no qual ele descreve sua agenda no Brasil e menciona que, naquele momento, estava em conferência de tecnologia e faria reuniões com famílias das elites brasileiras — incluindo “as famílias Marino (Itaú) e Marinho (Globo)”, duas das mais ricas e poderosas do país. Essa mensagem específica está registrada nos documentos oficiais que compõem os arquivos e coloca a família Marinho, vinculada ao Grupo Globo, no mesmo circuito de grandes empresários e instituições financeiras que Epstein relatava ter em vista em suas comunicações.
Esse e-mail não traz contexto explícito sobre o que foi discutido nas reuniões, mas revela que Epstein, em 2013, já conhecido publicamente como predador sexual, estava se conectando com elites brasileiras por meio de interlocutores que o informavam sobre encontros com essas famílias, incluindo os Marinho.
O elemento politicamente relevante aqui é que a rede de Epstein incluía o monitoramento e o planejamento de encontros com as classes dominantes de diferentes países, e ele próprio registrava isso em suas comunicações internas. A menção explícita a “famílias Marino … e Marinho” em uma agenda de viagens que fazia referência a encontros com dirigentes de grandes grupos econômicos e de mídia demonstra que a classe dominante brasileira, ou ao menos suas franjas dirigentes, estava no radar do financista e de seus operadores, compondo o mesmo circuito transnacional em que figuram banqueiros, políticos e magnatas.
Menções (des)honrosas
1. Prince Andrew (Andrew Mountbatten-Windsor)
O antigo príncipe britânico aparece centenas de vezes nos documentos de Epstein, incluindo e-mails trocados e fotos com o financista. Os registros mencionam que Epstein ofereceu a introdução de mulheres a Andrew e há mensagens sugerindo encontros em locais privados, além de fotos em contextos sociais. Virginia Giuffre, uma das vítimas centrais do caso, anteriormente afirmou que foi traficada por Epstein para ter relações com Andrew quando menor.
2. Reid Hoffman
O cofundador do LinkedIn é um dos nomes mais citados nos arquivos (mais de 2.600 menções). E-mails mostram que Hoffman visitou a ilha de Epstein e manteve comunicação com ele após 2008, com interações detalhadas sobre encontros e eventos sociais.
3. Peter Thiel
Thiel, bilionário da tecnologia, aparece em mais de 2.200 documentos relacionados a Epstein. E-mails e registros conectam Thiel a reuniões e encontros com o financista em diferentes momentos. A repetição de seu nome dele nas trocas documentais sugere que Epstein cultivava relações com figuras centrais do setor tecnológico para manter acesso e influência.
4. Mark Zuckerberg, Jeff Bezos, Larry Page e Sergey Brin
Esses nomes de gigantes da tecnologia aparecem em registros liberados. Zuckerberg e Bezos surgem com menos frequência, muitas vezes em contexto de eventos ou jantares nos anos 2010, e Page e Brin aparecem em e-mails discutindo logística de encontros relacionados ao círculo de Epstein.
5. David Copperfield
Registros sugerem que o mágico David Copperfield teve uma relação próxima com Epstein, incluindo visitas à ilha privada e trocas de mensagens. Investigadores na época relataram que havia evidências de que Copperfield poderia ter direcionado jovens a Epstein, e há acusação de múltiplas mulheres contra Copperfield por má conduta. O arquivo contém menções que levantam suspeitas sobre se Copperfield teria se envolvido ou facilitado contatos para Epstein, ou mesmo usado o ambiente para alvos de abuso.
6. Steven Tisch
O co-proprietário do New York Giants foi nomeado em correspondências em que Epstein supostamente oferecia “mulheres” em descrições cruas e sexualizadas a ele, em e-mails trocados nos anos 2010. Registros sugerem que Epstein frequentemente comentava sobre mulheres e possíveis encontros, e o nome de Tisch aparece repetidamente nesses contextos.
7. Sarah Ferguson (ex-duquesa de York)
O nome de Sarah aparece repetidamente em correspondência com Epstein e em fotos/e-mails envolvendo eventos sociais do círculo do financista. Há relatos de mensagens pessoais calorosas trocadas entre ela e Epstein. A presença contínua dela em comunicações com Epstein após sua condenação e a linguagem pessoal dessas trocas sugerem que sua relação com o financista ia muito além de encontros esporádicos em eventos sociais.
8. Outros nomes que aparecem em grande volume nos arquivos:
Com base em múltiplas listas que surgiram com os documentos, incluindo fotos e logs de contatos, também surgem figuras do campo artístico, empresarial ou político que, em muitos casos, estão associados por presença em imagens, fotos, listas de convidados ou documentos de contato. Embora nem todos tenham ligação confirmada com crimes específicos de Epstein, as narrativas que aparecem em documentos ou nas mídias especializadas se referem a:
Kevin Spacey, Mick Jagger, Michael Jackson e Diana Ross — em fotos nos arquivos ao lado de Epstein.
Leonardo DiCaprio, Cameron Diaz, Cate Blanchett — nomes que surgem em listas de contatos e imagens em documentos públicos vinculados ao caso.
Naomi Campbell, Bruce Willis, Courtney Love — citados em registros variados que mostram interações sociais.
Robert F. Kennedy Jr., George Lucas — mencionados em trocas ou contextos de eventos relacionados a Epstein.
Tom Pritzker, Ron Eppinger, Marvin Minsky, Doug Band, Vicky Ward e outros — aparecem em algumas listas extensas de arquivos compiladas por jornalistas e pesquisadores.
Exposição das vítimas
Em meio à torrente de documentos e mídias liberados pelo Departamento de Justiça dos EUA surgiu um dos casos mais chocantes e reveladores sobre a forma como o Estado burguês estadunidense lida com as vítimas dos crimes dos poderosos: fotos e informações extremamente sensíveis de vítimas aparentemente deixaram de ser protegidas antes da divulgação, expondo rostos, corpos e nomes completos de centenas de mulheres e meninas que foram abusadas por Epstein. Uma análise do Wall Street Journal encontrou que, em pelo menos 43 casos, os nomes completos de vítimas (muitas delas que nunca haviam se identificado publicamente e algumas menores no momento dos abusos) foram deixados sem censura, com seus endereços e outros dados pessoais acessíveis nas buscas dos arquivos públicos, obrigando sobreviventes a descobrir que suas identidades estavam expostas e a pedir correções imediatas.
Além disso, revisores descobriram dezenas de imagens não censuradas que mostravam corpos nus e rostos, inclusive em cenários de quartos e na praia da ilha particular de Epstein, cuja publicação violou as normas de proteção às vítimas que deveriam ter sido aplicadas antes da liberação dos arquivos, gerando críticas de advogados e sobreviventes que chamaram o vazamento de “abominável” e “devastador” para quem já sofreu abuso sexual.
Este caso colocou em xeque a narrativa oficial de transparência, mostrando que, mesmo sob promessa de divulgação total, as instituições que deveriam proteger os sobreviventes podem — e muitas vezes o fazem quando estes são ricos e poderosos — proteger mais os seus algozes.
A leitura integral dos arquivos Epstein desmonta a narrativa conveniente do “predador isolado”. O que emerge das milhões de páginas divulgadas é a imagem de um operador central de uma rede internacional que conectava magnatas financeiros, chefes de Estado, acadêmicos prestigiados, bilionários da tecnologia, dirigentes de mídia e figuras do aparato de inteligência. Pedofilia, tráfico sexual, sequestro de menores, coerção psicológica, práticas de tortura, comportamento de seita e relatos de rituais aparecem de forma recorrente nos depoimentos de vítimas e em comunicações internas, sempre acompanhados de um elemento comum: proteção política e impunidade estrutural.
Os documentos revelam que Epstein não apenas abusava, mas arquivava poder. Gravava, documentava, organizava encontros e mantinha registros que funcionavam como instrumentos de chantagem permanente. É nesse contexto que aparecem os nomes de presidentes como Donald Trump e Bill Clinton, bilionários como Bill Gates e Elon Musk, intelectuais celebrados como Noam Chomsky e Stephen Hawking, banqueiros, herdeiros e gestores de fundos e, de forma particularmente perturbadora, figuras centrais da entidade sionista, com dezenas e centenas de menções a políticos, diplomatas e referências diretas ou indiretas ao Mossad. A hipótese de Epstein operar como ativo de inteligência não surge de especulação marginal, mas de memorandos oficiais do FBI, e-mails do próprio Epstein e da anomalia jurídica que marcou sua trajetória penal.
O eixo israelense se destaca nos arquivos não apenas pela frequência com que surge nas menções a Epstein, mas pela profundidade e natureza das relações documentadas, que vão muito além de encontros sociais: estadias prolongadas de figuras como o ex-primeiro-ministro Ehud Barak em propriedades de Epstein, comunicação contínua mesmo após a condenação pública do financista por crimes sexuais, e memorandos internos do FBI circulando no conjunto de documentos nos quais uma fonte confidencial afirma que Epstein era um agente cooptado do Mossad — ou seja, não um operador solitário, mas alguém cuja função era reunir informações e comprometer figuras poderosas em benefício de interesses de inteligência aliados a Tel Aviv. Essa revelação, que emerge de memorandos brutos dentro dos arquivos e que liga Epstein ao Mossad via Barak e outros intermediários, demonstra a existência de um aparato de influência geopolítica no qual chantagem, tráfico sexual e coleta sistemática de material sensível serviram a uma estratégia de fortalecimento do lobby sionista e de interferência em decisões políticas no “ocidente”, moldando relações de Estado, capital e diplomacia em escalas que os próprios e-mails e registros agora públicos deixam escapar como evidencia de um sistema de proteção e mobilização de poder muito além das aparências superficiais.
Na América Latina, as menções a burguesia brasileira, incluindo a referência direta à família Marinho em comunicações ligadas ao circuito de contatos de Epstein, reforçam o caráter global dessa rede. Trata-se de reconhecer que Epstein orbitava deliberadamente os centros de decisão econômica, política e midiática, inclusive no Sul Global. O silêncio quase absoluto da grande imprensa brasileira sobre essas conexões não é acidental, pois reflete o mesmo mecanismo de autoproteção de classe que aparece nos Estados Unidos e na Europa.
Ao final, os arquivos escancaram algo ainda mais perturbador do que os crimes em si, revelam o consenso tácito das elites em preservar seus iguais, mesmo diante de crimes sistemáticos contra crianças, jovens, mulheres indefesas. As vítimas foram descartáveis, os nomes dos poderosos foram blindados. O caso Epstein não é um retrato cru de como o imperialismo contemporâneo, o capital financeiro, o aparato de inteligência e as classes dominantes operam como um ecossistema fechado, onde a violência extrema é tolerada, desde que praticada pelas pessoas certas.
Enquanto os arquivos seguem sendo liberados a conta-gotas, a pergunta central permanece aberta: quantos Epstein foram protegidos, quantos ainda operam, e quantas vítimas seguirão sendo silenciadas em nome da estabilidade do sistema? Para quem se propõe a enfrentar o poder de frente, a resposta não virá dos tribunais da burguesia, nem de “Reformas estruturais” dentro do Estado burguês, mas da exposição implacável dessas redes e da recusa em aceitar a impunidade como regra.






