Fascismo cotidiano, estrutural e multipartidário
- Redação
- há 2 horas
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A cena horripilante do entregador espancado até a morte no Rio de Janeiro, acusado injustamente de furtar uma bicicleta, escancara o nadir moral em que se afunda a sociedade brasileira. Há menos de um ano, este mesmo Rio de Janeiro assistia ao assassinato de cento e vinte e uma pessoas, durante incursão policial no Complexo da Penha. Passado pouco tempo, investigações revelaram ligações profundas entre a cúpula do governo do Estado e membros da facção cujos soldados foram abatidos na favela. Estes pedaços de vida cotidiana - poderíamos falar da epidemia de feminicídios, das prisões superlotadas, dos supersalários no Judiciário, das filas no INSS - exacerbam não apenas a separação, mas a colisão entre o sistema político oficial, este que se disputa agora nas urnas, e as condições de vida reais de milhões de brasileiras e brasileiros pobres.
Com efeito, na largada da campanha presidencial, o debate entre Lula e Flávio Bolsonaro se concentra sobre a velha questão da corrupção de parte a parte. A campanha petista assinala a evidente assimetria entre os valores negociados entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro e aqueles movimentados por uma lobista ligada ao filho de Lula. Mas este não é o ponto essencial: na coligação de Lula, estão todos os beneficiários da malversação oficial do Orçamento da União, os caciques do atraso regional, os patriarcas do orçamento secreto. Davi Alcolumbre, Hugo Mota, Renan Calheiros e até mesmo, na surdina, o antigo prócer de Bolsonaro, Ciro Nogueira. O chamado centrão, este pântano do pior chorume da economia e da política nacionais (e o centrão é na prática o latifúndio, acrescido de milicianos urbanos e pistoleiros clericais), se afastou de Bolsonaro e deu uma neutralidade benéfica a Lula, porque na verdade é a estas forças que o poder pertencerá, seja qual seja o próximo governo.
Na base da sociedade, as pessoas não veem seus problemas reais refletidos nas candidaturas, que são apenas uma continuação das páginas policiais. Pode-se dizer, e com razão, que o ainda muito atuante quarto poder, isto é, os monopólios de comunicação (nos quais se incluem as bilionárias big techs) são os responsáveis por ditar o foco do debate público. É verdade, mas isto só prova que os candidatos não têm qualquer interesse ou autonomia para enfrentar os temas centrais, como o pagamento indecente do serviço da dívida, os juros extorsivos que fazem do Brasil o paraíso da especulação, a degradação da base industrial do País, que o torna cada vez mais incapaz de defender sua soberania territorial e recursos naturais. Estas questões são irresolvíveis nas urnas, assim como este capitalismo de tipo semicolonial aqui instalado é geneticamente perverso e ingovernável do ponto de vista dos trabalhadores.
Carente de alternativas, uma parte enorme das classes populares, que não têm nenhuma experiência de organização coletiva no seu local de trabalho ou moradia (dada a fragmentação da produção, a burocratização dos sindicatos e o sequestro das organizações comunitárias pelas ONGs corporativizadas ou pelo crime), adere ao discurso fácil do “bandido bom é bandido morto”, da barbárie como estratégia de sobrevivência. Porque a barbárie não lhe soa distópica, como ocorre com as classes médias instruídas, mas como a sua realidade palpável e cotidiana. Sem que se dispute o terreno das ideias, da perspectiva de mundo e de sociedade que se propõe, restringindo-se apenas a negociar programas paliativos, como faz desde sempre o PT, não se pode reverter este quadro. A candidatura de Lula não tem qualquer futuro, enquanto a de Bolsonaro expressa um passado falsificado - e é importante, sim, recordar às pessoas o que foram as filas de ossos, o descaso na pandemia, a tentativa golpista, a promessa de vender o Brasil em suaves prestações a Trump e seus pedófilos. A luta política contra o fascismo não é uma campanha eleitoral, nem um tributo que se paga aos reformistas: ela é uma obrigação e necessidade permanente para todo e qualquer revolucionário.
E, claro, não se trata de defender uma nova sociedade no interior do mesmo horário eleitoral gratuito tolerado pelas classes dominantes, porque as pessoas sentem por seu instinto de classe que ali, naquele espaço, o tratamento destas questões é apenas encenado. É preciso elevar o nível de mobilização, organização e luta popular desde o chão da casa e da fábrica, passo a passo e sem descanso. Os próximos anos serão de enorme turbulência social e quem não tiver ancorado neste trabalho real, por menor que ele pareça a um olhar superficial, será soterrado






