Novo governo fascista assumiu no Chile e Mapuches reafirmaram: "Haverá lutas!"
- Gerson Lima

- há 14 horas
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Protestos se espalharam por Santiago, Valparaíso, Concepción, Temuco e outras regiões do Chile no dia da posse do novo gerenciamento do país, dia 11 de março. O início de governo do fascista José Antonio Kast - esse filho de integrante do partido nazista alemão e admirador de Pinochet - foi marcada por protestos nas ruas, policiamento ostensivo, brutal repressão, prisões e resistência. Em Valparaíso, nas imediações do Congresso Nacional, onde ocorria a cerimônia de troca de mando, foi queimado um grande boneco de Trump, no meio da rua, sob grito de consignas contra o imperialismo dos Estados Unidos, o repúdio aos laços de Kast com o governo Trump e "israel" sionista.
A transição entre o oportunista Gabriel Boric e o fascista Kast, entretanto, não é uma ruptura, mas uma continuidade estratégica. O discurso de segurança e contrainsurgência que estruturou a reta final do governo de Boric continua sendo o eixo dominante do regime político chileno. Para além das diferenças retóricas entre as administrações Boric e Kast, a política de orientação estratégica da burguesia chilena e sua subordinação histórica ao imperialismo estadunidense é a mesma. Se o governo de Boric expressou esse alinhamento na linha liberal do Partido Democrata dos Estados Unidos, a ascensão de Kast representa a mesma política formulada agora na linguagem do trumpismo. Trata-se, em ambos os casos, de variantes de uma mesma estrutura de subordinação que articula a economia chilena com os interesses do capital transnacional.
Kast demonstra sua similaridade com Trump, Javier Milei e outros governos reacionários, ao já ordenar a construção de "barreiras físicas" para "deter imigrantes" na fronteira com a Bolívia e assinar declaração conjunta com os EUA que implicaria a cessão de recursos estratégicos do Chile, como as terras raras, aos ianques. Ele pretende indultar carabineiros e militares presos por crimes hediondos, assassinatos e torturas e quanto à ocupação e repressão no Wallmapu (território ancestral Mapuche), sua política será continuar e intensificar a aplicação da doutrina de ordem pública de estilo fascista, colonialista e racista, também executada pelo governo Boric.
Mais de 140 lideranças mapuches atualmente cumprem penas nas prisões do Chile, entre elas, Héctor Llaitul Carrillanca, preso desde agosto de 2022, condenado a 23 anos de prisão por cinco crimes de opinião previstos na Lei de Segurança do Estado, em ação movida pelo governo oportunista e repressor de Gabriel Boric. Desde a Penitenciária de Concepción (província de Biobío), Héctor Llaitul, liderança e porta-voz da organização Mapuche, Coordenadora Arauco Malleco (CAM), denuncia a repressão do Estado autoritário, militarização de Wallmapu, contra a qual as comunidades resistem com dignidade: "O estado de emergência, as leis draconianas, os procuradores racistas, a demonização dos Mapuches e seus guerreiros, os drones, os tanques, os veículos blindados e o número exorbitante de militares e policiais apontam para um cenário de guerra contra a causa Mapuche." 1 Para Llaitul, "a Nação Mapuche resiste atualmente a mais uma invasão, desta vez da forma mais selvagem e devastadora do capitalismo. Estamos, portanto, enfrentando as ofensivas neofascistas da extrema-direita chilena, com ideologias coloniais e racistas que se assemelham ao sionismo criminoso contemporâneo." 2
Wallmapu, o território ancestral mapuche que abrange partes das antigas fronteiras coloniais do sul do Chile e da Argentina, encontra-se atualmente sob militarização devido aos interesses do imperialismo estadunidense e seus lacaios internos, incluindo o sionismo israelense, em impor a lógica da acumulação capitalista. A militarização de territórios disputados é o principal modelo adotado pelo Estado chileno para manter a opressão da Nação Mapuche, que nas últimas décadas retomou sua luta política e territorial pela reconstrução nacional. Através da militarização e da criminalização da causa mapuche, o Estado chileno opta por manter os lucros de grandes empresas extrativistas em território ancestral. O Estado chileno protege, assim, grandes empresas florestais e projetos energéticos. "Independentemente do governo no poder, seja de direita, centro ou pseudoesquerda, uma maior repressão e intolerância foram impostas à causa Mapuche, reafirmando a verdadeira natureza do Estado chileno: capitalista e colonial", destacava Llaitul. 3
"Contra o avanço da extrema-direita e o saqueio do Wallmapu, haverá luta"
Destacamos trechos da entrevista, obtida a um mês e pouco da posse do novo governo, por Notícias Werkén 4, com o porta-voz histórico da Coordenadora Arauco-Malleco (CAM), Héctor Llaitul:
(...)
3 – Com a chegada do governo de José Antonio Kast, como a CAM observa o cenário político que se abre para as comunidades em resistência e a relação com o Estado chileno?
“Do ponto de vista da CAM, é evidente que uma ofensiva neofascista está a caminho, como já mencionamos em outras ocasiões, sobretudo considerando as condições sociopolíticas já existentes, proporcionadas pelo atual governo, que pavimentou o caminho para essa ofensiva das forças de extrema-direita no Chile.
Além disso, é preciso considerar que os empresários, muitos dos quais descendentes das potências coloniais que usurparam territórios ancestrais e se enriqueceram à custa do sofrimento do nosso povo, também criaram as condições sociais e culturais baseadas numa economia de livre mercado profundamente capitalista, que atualmente não conhece limites quando se trata da pilhagem e devastação das nossas terras ancestrais. Essas condições permitiram a criação de espaços que salvaguardam os interesses do grande capital, fomentando assim uma industrialização e um extrativismo ferozes e cruéis que continuam com a depredação da natureza (desertificação, incêndios, secas).
No entanto, não se pode omitir que, neste contexto, o "progressismo" se mostrou funcional e cúmplice do sistema de dominação, pois faz já algum tempo seus líderes perderam a conexão com os princípios comunistas e/ou humanistas que dizem pregoar, e somente tem se dedicado a administrar quotas de poder para se enriquecerem e ser parte das corporações políticas subordinadas aos grandes capitalistas.
Hoje haveria que formular a seguinte pergunta: por que a direita contou com o concurso do "progressismo" e a esquerda rasteira para cimentar um governo de extrema-direita?
O certo e sem lugar a dúvidas, a alternância de poder entre o "progressismo" e a direita não é a solução para estabelecer a justiça social, nem menos para dar resposta às demandas da Causa Mapuche por território e autonomia, já que ambas são duas faces da mesma moeda.
Portanto, a extrema-direita, que assumirá o mando do Estado em março, apenas continuará a desenvolver e gerir o que já foi implementado, não só nos aspetos estruturais, mas também nos supraestruturais e ideológicos.
Em áreas muito específicas relacionadas à criminalização: no âmbito penal, no punitivo, na perseguição política, no discurso oficial que demoniza a causa Mapuche, o que acaba por levar à aplicação de políticas de segurança – discurso oficial – que chocam de frente com as históricas demandas de território e autonomia para o nosso povo.
Haverá luta, porque a extrema-direita chilena carrega consigo o DNA do saqueio histórico ao Wallmapu.”
4 – Considera a CAM que este novo governo irá aprofundar a linha repressiva de administrações anteriores ou vê diferenças substanciais na forma de lidar com o conflito territorial?
“Em nossa opinião, como já mencionamos, o novo governo de extrema-direita será a continuidade, não apenas por razões de diretrizes históricas do Estado chileno, que são coloniais e racistas, mas também pela adoção de políticas que têm confrontado a causa Mapuche nos últimos tempos, reinstalando à sangue e fogo o modelo neoliberal e a industrialização de territórios ancestrais, sobretudo no relacionado a atividade criminosa das empresas florestais.
Portanto, não se vislumbra uma mudança radical nas ações do governo entrante. O que deve agora ser denunciado abertamente e esclarecido é que o governo Boric, mais além de administrar muito bem um programa neoliberal, passará para a história como o governo que modernizou o aparato repressivo do Estado para a perseguição das lutas sociais em geral, e a do Povo Nação Mapuche em específico, uma consequência do restabelecimento da doutrina de Segurança Nacional.
Devemos observar que Boric jurou lealdade ao sistema capitalista transnacional dependente do imperialismo norte-americano. O que se vê refletido em ações concretas como a militarização ininterrupta de Wallmapu, novas legislações repressivas (Lei Anti-Tomadas de Terras, a Lei Nain Retamal, etc.), a alocação de recursos materiais e humanos para sitiar comunidades, ademais da modificação e/ou promulgação de outras regulamentações que, obviamente, contrariam o respeito aos direitos humanos — como o devido processo para a perseguição ao movimento autonomista, as montagens e operações de inteligência, bem como a impunidade concedida a agentes do Estado e o tratamento cruel e racista de mais de 100 presos políticos mapuches.
Uma cifra que não se havia visto antes em nenhum governo anterior, e onde as condenações são extensas e injustificadas, principalmente a jovens mapuches. Estas cifras alarmantes estabelecem um padrão elevado para a repressão que nosso povo tem sofrido nos últimos quatro anos, um padrão que devemos observar atentamente em relação ao que pode acontecer sob o novo governo da ultradireita, por se esta essa situação se agrave, já que agudizará as contradições com o Estado e nossa luta de libertação.
Em síntese, para nós, o governo Boric foi o pior de todos, pois não somente se dedicou a aperfeiçoar o modelo econômico brutalmente instaurado pela ditadura de Pinochet, senão porque se dedicou também ao aperfeiçoamento do aparato repressivo do Estado em seu conjunto, estabelecendo uma verdadeira institucionalidade opressora que somente servirá aos nossos inimigos históricos e que fica refletida na continuidade da perseguição e repressão ao Povo Nação Mapuche, que está em Movimento e Resistência.”
(...)
6 – Neste contexto de condenações, mudanças de governo e novas nomeações, que consequências concretas prevê a CAM para as comunidades e para o desenvolvimento do conflito a curto e médio prazo?
“No contexto atual do conflito, existe um novo ordenamento desde o poder de dominação que se traduz em uma perseguição política mais direcionada, e que em seu momento foi dirigida contra a CAM (Coordenadora Arauco-Malleco) e seus porta-vozes, contra seus dirigentes históricos. Também a repressão se estendeu a outras organizações de resistência territorial, visando seus mais destacados weichafe (guerreiros mapuches). Ao que se soma, de forma clara o estabelecimento da militarização do Wallmapu (território mapuche), sitiando comunidades em resistência, buscando assim ampliar o escopo da repressão indiscriminada contra todas as expressões de resistência do nosso povo em suas reivindicações territoriais, principalmente em direção as comunidades que tem processos legítimos de recuperação de terras. Em última análise, o que está emergindo é uma estratégia político-militar para tentar interromper o Controle Territorial sustentado pelas comunidades.
Não cabe dúvida que se gerará uma ofensiva fascista, militarista, contra as comunidades mobilizadas, portanto, resulta necessário realizar um trawun-nutram (encontro) por parte de nossa gente, dos lof (comunidade) dos territórios, para afrontar esse novo embate, onde se possam analisar as possíveis vias que se devem adotar dependendo da capacidade organizativa e as propostas que surgirem da gente, por certo com uma posição mais concreta e valente.
No entanto, esta é uma tarefa que exige convicção e muito newen (força), tendo em conta que as políticas de segurança e repressão já estão claras, visto que, sob o governo de Boric, têm sido muito cruas contra as comunidades e os referentes em luta, portanto propomos que as comunidades devem estar organizadas e preparadas para defender tudo o que foi conquistado em questões territoriais e políticas, porque as expressões de resistência estamos prontos para continuar no caminho da libertação.
Temos clareza, ademais, de que hoje assistimos a uma nova invasão de Wallmapu, se trata de uma ocupação moderna de nosso território ancestral pelo capital transnacional e por um Estado mais fascista, é por isso que as organizações a vanguarda abriremos espaços de reflexão e discussão interna para manter uma disposição permanente de luta pela reivindicação territorial e política, pois ninguém nos sacará da convicção de que a Causa Mapuche é absolutamente legítima, e não baixaremos os braços. A recuperação das terras é o eixo estratégico para a reconstrução de nossa nação originária.
A Nação Mapuche é reconhecida em todo o mundo como um Povo Guerreiro, em permanente resistência, e do qual os chilenos também deveriam sentir-se orgulhosos. Será um tempo de unir forças!
Weuwaiñ! (Venceremos!)
H. LL"
Notas:






