O Iêmen desafia impérios

A ofensiva do Ansar Allah, os houthis do Yemen, muda o mapa do Mar Vermelho e reabre a guerra pela soberania iemenita. Na madrugada de sábado, mísseis balísticos e de cruzeiro, além de drones, atingiram alvos em Riad e a refinaria da Aramco em Yanbu, primeira vez que a capital saudita é alvo direto desde a escalada iniciada em setembro. As Forças Armadas iemenitas confirmaram as duas operações, citando 732 ataques sauditas ao Yemen desde a retomada da agressão como justificativa. Drones atingiram instalações no Aeroporto Internacional King Khalid, atingindo um prédio de carga e dois tanques de combustível, enquanto testemunhas relataram chamas e uma coluna de fumaça negra perto do aeroporto.
A intervenção saudita de março de 2015 nasceu da recusa da Arábia Saudita em aceitar que um movimento popular armado pudesse tomar Sanaa e depor um governo fabricado sob tutela do Golfo. Batizada de "Tempestade Decisiva", a operação foi lançada pela Arábia Saudita e seus aliados regionais para esmagar o Ansar Allah e reconduzir ao poder o regime de Abdrabbuh Mansur Hadi, apoiado por Riad, presidente cuja legitimidade já era, à época, tão frágil quanto a que hoje sustenta o Conselho de Liderança Presidencial. O bloqueio aéreo, terrestre e marítimo imposto sobre o território sob controle dos Houthis levou ao Yemen a pior crise humanitária do planeta segundo a própria ONU. Em um levantamento do PNUD, projetou 377 mil mortos até o fim de 2021 por efeitos diretos e indiretos da guerra, quase 60% deles causados por falta de água potável, fome e doenças, atingindo sobretudo crianças menores de cinco anos. Levantamentos do ACLED atribuem à coalizão saudita a responsabilidade por mais de 4.800 mortes civis diretas desde 2016, contra pouco mais de 1.300 atribuídas ao Ansar Allah e seus aliados. Ao tratar deste desequilíbrio, os monopólios de mídia ocidenatis não hesitam em tratar os ataques iemenitas como agressão e os bombardeios sauditas como legítima defesa.
A resposta iemenita à tentativa de sufocamento foi construir, sob bloqueio total e sem indústria bélica própria, uma capacidade de dissuasão que nenhuma das monarquias cliente da península esperava. Entre 2015 e 2019, as Forças Armadas Iemenitas passaram de foguetes improvisados a mísseis balísticos e drones de longo alcance, salto tecnológico que culminou no ataque de setembro de 2019 contra as instalações da Aramco em Abqaiq e Khurais, que reduziu pela metade, por vários dias, a produção de petróleo saudita. Este ataque expôs a vulnerabilidade de toda a infraestrutura energética saudita diante de uma nação que este tigre de papel insistia em tratar como mero adversário desprezível. O Acordo de Estocolmo, firmado em 2018 sob mediação da ONU, e a trégua de abril de 2022 foram tratados pelo Ansar Allah como pausas táticas dentro de um projeto mais amplo de reconhecimento da soberania do movimento sobre o território iemenita, projeto que os sauditas sistematicamente adiaram, usando as negociações para reorganizar suas forças em vez de encerrar o cerco, como o próprio colapso da trégua em julho passado voltou a demonstrar.
O episódio de sábado marca o ponto mais recente desta guerra que a monarquia saudita, clientelista e putrefata, tentava evitar desde 2022. O cessar-fogo firmado naquele ano com o governo de Sanaa, liderado pelo Ansar Allah, resistiu a anos de tensão até que, em 13 de julho, um avião da Mahan Air, transportando comandantes e material da Guarda Revolucionária iraniana, tentou pousar no Aeroporto de Sanaa. Forças sauditas e do assim chamado “governo iemenita reconhecido internacionalmente” (governo este que é financiado e armado pelas potências imperialistas contra a resistência houthi) bombardearam a pista para impedir o pouso. O Ansar Allah declarou o fim da trégua em resposta e, uma semana depois, anunciou um bloqueio naval contra a Arábia Saudita, atingindo em seguida petroleiros sauditas no Mar Vermelho.
Em 3 de setembro os combates se generalizaram, o que começou como uma ofensiva do Ansar Allah em Taiz e uma contraofensiva do Conselho de Liderança Presidencial (aparato sustentado por Riad e pelo capital financeiro que o patrocina, sem base social própria, cuja função é administrar a fragmentação do território que não consegue governar) em Al-Jawf e Al-Bayda se transformou, em poucos dias, na luta mais sangrenta desde o colapso da trégua de 2022. Batizada de "Allah é mais forte em poder e mais severo em castigo", a operação varreu toda a costa ocidental. Mokha caiu após batalha decisiva, seguida por Hays, Al Khawkhah, as ilhas Hanish e, por fim, a ilha estratégica de Perim, no próprio estreito de Bab al-Mandab. Com isso, o Ansar Allah passou a controlar todo o litoral do Mar Vermelho iemenita, com posições a cerca de 130 quilômetros da base americana de Camp Lemonnier no Djibouti.
Em entrevista ao Al Mayadeen, o dirigente do Ansar Allah Ali al-Emad afirmou que as movimentações das Forças Armadas Iemenitas visam expulsar os ocupantes estrangeiros do território, sob um plano calculado com meticulosidade, destacando o papel da população local no fornecimento de inteligência e apoio logístico (assim como ocorreu na Argélia com a FLN em seu próprio processo de libertação colonial). O Ministério das Relações Exteriores em Sanaa foi ainda mais direto ao dizer que Riad precisa reconhecer que perdeu a hegemonia sobre o Yemen, sob pena de sofrer perdas ainda maiores.
A luta palestina permanece no centro do discurso do Ansar Allah. Em setembro, milhões se reuniram em Sanaa para o aniversário do nascimento do Profeta Mohammed, ocasião em que Abdul-Malik al-Houthi responsabilizou Riad pelas consequências de qualquer escalada contra o Yemen e reafirmou que Sanaa manteria a coordenação com os movimentos de resistência sob o princípio da "unidade das frentes". O bloqueio contra navios sauditas é apresentado como continuidade do bloqueio ao Mar Vermelho iniciado em outubro de 2023 em solidariedade a Gaza, e a retórica de al-Houthi durante a guerra contra o Irã seguiu o mesmo eixo, no qual a posição do Iêmen, tanto do Estado quanto do povo, é de solidariedade plena com a República Islâmica do Irã, numa confrontação que não diz respeito apenas a Teerã, mas a todo o mundo muçulmano.
Mohammed bin Salman, o príncipe da coroa saudita, telefonou duas vezes a Donald Trump em 10 de setembro pedindo ataques diretos contra o Ansar Allah. Trump recusou, e autoridades americanas afirmaram não pretender intervir diretamente. A recusa não impediu Washington de reforçar a inteligência saudita com mais de cem assessores militares americanos que, já destacados na Arábia Saudita, passaram a fornecer uma ferramenta de mira comparada ao Project Maven e inteligência geoespacial para os ataques contra o movimento iemenita. A entidade sionista, por sua vez, sinalizou disposição de se somar à campanha contra o Yemen, e o Paquistão avaliou se os ataques ativariam o pacto de defesa de Meca.
O cálculo econômico ajuda a explicar a urgência saudita. Com o bloqueio iraniano ao Estreito de Ormuz forçando Riad a depender mais da rota do Mar Vermelho, as exportações sauditas de petróleo bruto por Bab al-Mandab foram, entre março e meados de julho, oito vezes superiores às do mesmo período de 2025. Um bloqueio efetivo do estreito pelo Ansar Allah não afeta apenas o comércio internacional, mas ameaça diretamente a principal válvula de escape da economia do petróleo saudita. Em matéria divulgada no Telegram pelo portal Al Mayadeen, Zaid al-Gharsi, chefe do Departamento de Mídia do Gabinete da Presidência em Sanaa, declarou que as Forças Armadas Yemenitas trabalham para estabelecer uma nova equação de dissuasão, "Riade por Sanaa", advertindo que a Arábia Saudita precisa aceitar essa realidade.
Ao acusar Riad de expandir a guerra por meio de reforços militares e ataques aéreos sem sinalizar retorno ao roteiro político, al-Gharsi enfatizou que a Arábia Saudita deve arcar com total responsabilidade caso opte por nova escalada. Al-Gharsi observou que o ataque recente a Riade funciona como advertência avançada, demonstrando que as forças iemenitas podem atingir qualquer ponto do território saudita. Destacou que as capacidades iemenitas em mísseis, drones, precisão e poder destrutivo avançaram significativamente, com ataques deliberadamente voltados a bases militares sauditas e instalações da Aramco para pressionar a espinha dorsal da economia saudita. Acrescentou que medidas futuras podem chegar ao fechamento do espaço aéreo ou a novos ataques à infraestrutura petrolífera.
Sobre o bloqueio, al-Gharsi frisou que o conflito do Yemen é estritamente com a Arábia Saudita e totalmente independente do Irã, descartando como falsas as narrativas que ligam os dois países, criadas para evitar soluções reais. Afirmou que o bloqueio à Arábia Saudita não será suspenso até que o cerco ao Yemen seja totalmente levantado, independentemente da pressão internacional. Embora tenha reafirmado que Sanaa permanece aberta a qualquer iniciativa diplomática que respeite os direitos do povo iemenita, al-Gharsi também advertiu que o Yemen não ficará em silêncio caso sua trégua com os Estados Unidos seja violada.
O confronto atual é, antes de tudo, uma frente aberta da resistência anti-imperialista contra o cerco imposto ao Yemen desde 2015. O avanço do Ansar Allah pela costa oeste desloca o centro da guerra do território sitiado por Riad para o próprio coração da hegemonia saudita e, cada quilômetro reconquistado é também uma vitória do eixo formado por Irã, Hezbollah e forças da resistência palestina, iraquiana e iemenita contra o projeto de subordinação regional articulado por Washington, Tel Aviv e as monarquias do Golfo. Os mais de cem mil deslocados e as vítimas civis das últimas semanas, a começar pelos 23 mortos no bombardeio saudita à prisão de Al Hazm, representa o preço que o bloco imperialista impõe a um povo que se recusa a aceitar a tutela de Riad e seu governo títere como destino. O que o bloqueio de Bab al-Mandab nos demonstra é que a hegemonia ianque e sionista no Oriente Médio pode ser derrotada no Mar Vermelho.






