Rechaçar os “Três C”: o capitulacionismo, o colaboracionismo e o conspiracionismo!
- Igor Mendes

- há 2 dias
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Atualizado: há 18 horas

Diante de situações de grande complexidade, ou no curso de comoções da luta de classes, é natural que os fatos se sucedam com incrível velocidade, exigindo uma interpretação tão dinâmica quanto a marcha dos acontecimentos. Sem isso, estaríamos condenados a nos perder na “névoa da guerra”, ou, pior, tomar como verdade as cortinas de fumaça propositadamente criadas pelo imperialismo estadunidense – no que ele é mestre – e fazer o seu jogo de choque, confusão e desorientação.
No caso da Venezuela, quando, mesmo dentro do país, ainda não se sabem todas as circunstâncias que propiciaram o rapto de Nicolás Maduro e Cília Flores, a primeira e fundamental questão a se fazer é uma nítida demarcação quanto aos princípios.
Abrir “senões” sobre o caráter do regime chavista, neste momento, serviria apenas a enfraquecer o necessário esforço de unidade nacional para enfrentar o maior desafio à integridade do país de Bolívar desde a sua independência. A única exigência no calor da hora de uma agressão bárbara, que resultou no assassinato covarde de militares e civis, é que o governo mobilize todas as suas capacidades para defender o território do país. Se o faz, toda a nação deve se unir em torno dele. Tomar partido de modo decidido na luta patriótica e lutar contra as tendências capituladoras da burguesia nacional, no curso mesmo da resistência, é a melhor forma, na verdade, a única, de o proletariado ganhar as massas populares e criar condições para disputar a hegemonia. Foi o que predicou e aplicou com mestria o Presidente Mao quando da guerra sino-japonesa:
“Quando o imperialismo lança uma guerra de agressão contra um tal país, as diversas classes desse país, excetuado o pequeno número de traidores à nação, podem se unir temporariamente numa guerra nacional contra o imperialismo. A contradição entre o imperialismo e o país considerado passa então a ser a contradição principal e todas as contradições entre as diversas classes no interior do país (incluída a que era a contradição principal, a contradição entre o regime feudal e as massas populares) passam temporariamente para um plano secundário, para uma posição subordinada.”
Por isto, neste momento, desde que o governo da Venezuela se pronuncie e aja pela resistência, é dever mobilizar as massas e apoiá-lo. Mais do que isso, empurrá-lo neste sentido. Isto, em primeiro lugar.
Mas, afinal, o governo venezuelano dá indícios de capitulação? Pode ter havido algum acordo entre setores da administração e o imperialismo ianque, como sugerem hoje os veículos da burguesia? Ou teria havido um grande acordo de bastidores entre o imperialismo ianque de um lado, Rússia e China de outro?
Naturalmente, traições e defecções sempre podem ocorrer, e o imperialismo sempre age em duas frentes: a militar, para golpear sobretudo as forças mais determinadas do campo oposto; e a política, para dividir e quebrantar o movimento revolucionário. Mas, para não nos perdermos no campo das hipóteses e do mero conspiracionismo, devemos nos ater à observação de Lênin de que “em política deve-se partir não do possível, mas do real”. O real é que, em primeiro lugar, o exército venezuelano não tem condições –como, de resto, nenhum exército profissional sulamericano – de prevenir ou contrarrestar simetricamente um ataque militar de grande intensidade norte-americano. É claro que a ausência de defesa antiaérea chama a atenção, bem como a vulnerabilidade do sistema de comunicação do país. Mas este não é o fato principal.
Concretamente, após o rapto de Maduro, todas as autoridades do país se pronunciaram pela resistência e as massas populares foram mobilizadas. O cargo de presidente não foi declarado vago, mas ocupado pela única pessoa que a Constituição autoriza a fazê-lo: a vice-presidente Delcy Rodrigues, que nas primeiras horas condenou o ataque ianque como “brutal e selvagem”. Dizer que ela foi “escolhida” por Trump, como fazem os monopólios de imprensa e não poucos veículos ditos de esquerda, é zombar da realidade e colocar-se de joelhos frente ao agressor.
É claro que os Estados Unidos trabalham para levar o governo à capitulação ou, quando menos, dividi-lo. Mas isto também revela que, embora vocifere sobre a escalada da agressão, a opção de invadir com botas no terreno o território venezuelano lhes seria extremamente custosa. Na verdade, a tentativa de forçar uma rendição sem luta ou um “acordo” leonino aos interesses venezuelanos indica mais um limite do que a plenipotência das forças agressoras. De outro lado, é presumível que haja nesse momento uma luta interna no governo venezuelano sobre qual linha adotar perante este acosso e ameaça implacáveis: luta de vida e de morte ou acumular forças por meio de negociações? Também há no país, certamente, forças pró-norte-americanas, associadas aos setores monopolistas, e elas não podem deixar de repercutir em maior ou menor escala no seio da administração. Seria ingênuo e contrário à própria história e à lógica política supor que não haja contradições internas nas forças chavistas, no momento em que elas perderam seu líder supremo. Há, portanto, neste momento, um impasse, tanto do lado agressor como do lado agredido, impasse este não arbitrariamente tramado por uma mente perversa, mas que expressa a correlação de forças real.
Por isso, o pronunciamento de Delcy Rodrigues, na tarde de domingo, 4, foi mais matizado do que o seu primeiro e duro discurso na manhã do dia 3: agora, ela sinalizou disposição em negociar com Donald Trump, mas reafirmou a soberania venezuelana. Tomar esta ambiguidade – justificável, na medida em que visa ganhar um tempo indispensável para reorganizar as próprias forças perante uma ameaça existencial e polarizar a opinião pública norte-americana contra a guerra – como um discurso de capitulação é indicativo de capitulacionismo dos que o apontam nos outros. De resto, colocar tal análise em circulação serve a impulsionar ou a enfraquecer as mobilizações internas e internacionais contra a agressão imperialista? Qualquer militante e intelectual sério, engajado, deve se fazer tais perguntas em momentos como estes. Se, no futuro, uma linha de capitulação se impuser, caberá aos verdadeiros patriotas venezuelanos e internacionalistas de todo o mundo denunciá-la e lutar contra ela.
Por fim, sobre a suposta “conspiração” ou “concerto” entre Estados Unidos, Rússia e China para dividir o mundo em esferas de influência, ela nada mais é do que requentar a velha teoria de “ultra-imperialismo”, já desmoralizada no seu tempo por Lênin. A suposição de uma troca Ucrânia por Venezuela não faz sentido sob nenhum ponto de vista, mesmo porque a questão ucraniana é vital para a Rússia de uma maneira que a Venezuela não é, ao menos ainda, para os Estados Unidos. Essa suposição também erra ao pressupor uma igualdade de condições entre as potências, igualdade que não corresponde aos fatos. Como sublinhava o mestre marxista Lênin, “a desigualdade do desenvolvimento econômico e político é uma lei absoluta do capitalismo”. Ou seja, nós vivemos uma época de transição, caracterizada pela crise de hegemonia norte-americana, que não é ainda o seu próprio fim. Esta crise não será superada através de um acordo de cavalheiros, embora acordos táticos sempre sejam possíveis e até inevitáveis: é pela guerra, no fim das contas, que o imperialismo redivide as suas esferas de influência e é somente pela guerra revolucionária que as massas populares podem suplantar o imperialismo.
É precisamente neste ponto em que nos encontramos.






