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Sobre o torto-aradismo cultural

há 6 horas
7 min de leitura

Por: Alexandre T.

 

Ainda que pesem bons aspectos formais no livro de Itamar Vieira Junior, Torto Arado, e sem dúvida seja relevante a discussão sobre os méritos de um livro capaz de alcançar um público tão amplo no atual cenário editorial brasileiro, ele não pode escapar de certa limitação fundamental — uma limitação, aliás, que hoje parece ser vista como uma fórmula para o mercado editorial, e que ocupa o centro de nossa crítica.

As operações narrativas de Torto Arado, quando dissecadas, podem ser facilmente identificadas em muitos outros livros contemporâneos. Primeiro, as contradições internas — a lógica patriarcal de organização da vida; as dificuldades sociais e psicológicas que aprisionam os personagens em repetirem as mesmas vidas de seus antepassados — e externas — a opressão do latifúndio — das comunidades camponesas são gradativamente desencarnadas até o nível do símbolo. Ou seja, a submissão e o silenciamento literalizam-se na perda da língua de Belonísia; as contradições entre as possibilidades de vida camponesa se sintetizam nos rumos diferentes que as irmãs tomam; a faca, em especial, adquire uma significação múltipla para abarcar as violências e culpas, mas também as justiças feitas pelo próprio povo e a possibilidade de reflexão (espelho). Esta é a operação fundamental do romance, sintetizar processos sociais complexos em alguns objetos e símbolos.

A partir disso, o romance se torna uma realidade autônoma de símbolos, as lógicas que passam a operar entre as representações não são transposições dos movimentos da realidade para a ficção, mas são lógicas simbólicas — a faca, por excelência, é o objeto agregador, pois é ao mesmo tempo faca e espelho, objeto de separação, de violência, mas ao mesmo tempo de reflexão e um lembrete de um passado vivo. É nesse jogo de desaparecimento e reaparição da faca que eventos importantes do livro adquirem causalidades, que dinâmicas humanas complexas são sintetizadas pelo deslocamento físico de um objeto. Esse mecanismo mantém-se até o final do livro, em que a entidade de Santa Rita Pescadeira torna-se literal, sai do âmbito de uma prática religiosa que organiza uma comunidade e suas necessidades e é elevada ao ponto de efetivamente resolver sobrenaturalmente a exploração do latifúndio.

Esses dois movimentos, a saber, 1) a transfiguração da realidade em símbolos e 2) a operação sobrenatural que neutraliza o conflito dessa realidade simbólica, sintetizam o que aqui chamaremos de torto-aradismo cultural, uma troça, é claro, dos inúmeros livros que repetem esta fórmula. Primeiro, deve-se dizer que não há nada de errado nesses mecanismos, todo o problema incide no que se objetiva com eles.

Brecht, ao opor seu teatro ao teatro burguês, argumenta que a tragédia burguesa baseia-se na identificação, ou seja, o público identifica-se com um ou mais personagens da tragédia e é guiado por eles em uma odisseia emocional — ou, emprestando o termo pelo qual Martin Scorsese uma vez se referiu aos filmes da Marvel, é como se o público entrasse em um “parque temático” para ser conduzido em uma montanha russa de emoções, ora sentindo dor, ora pena, ora justiça, para enfim repousar em segurança no ponto de partida. Em contrapartida, Brecht apresenta uma concepção de teatro em que o público está ciente do seu próprio distanciamento em relação ao que é encenado e, assim, o público vê-se na obrigação de se questionar quem ele é e qual seu próprio papel no meio de toda a situação representada. Assim, a reflexão crítica substitui a identificação passiva.

Bom, a que nos leva o desenrolar de Torto Arado senão a uma montanha russa sentimental? De que serve toda a hábil engenharia de simbolismos senão para descaracterizar a realidade camponesa e servi-la em um menu de degustação para o grande público — leia-se, a pequena burguesia — da literatura brasileira contemporânea? De que serve a metaforização e o encapsulamento de uma realidade complexa em três ou quatro símbolos-chave (a faca, a língua, os orixás, etc) senão para que o leitor possa identificar-se facilmente com ela — leia-se, preencher esses símbolos guarda-chuva com as suas próprias experiências prévias — e tentar simular em seu âmago uma fração da experiência alheia?

Pode-se rebater, e com razão, que a identificação pode ser uma maneira de se abrir à experiência alheia e que depende do leitor o trabalho de refletir sobre os efeitos sentimentais de uma obra artística. Este é um debate mais profundo. Nosso objetivo aqui, porém, não é privilegiar certa forma estética em detrimento da outra, mas de expor que este é o mecanismo chave de Torto Arado e questionar: onde termina esta montanha russa? Bom, a resposta é evidente, termina no início.

A corrente de emoções suscitada pelo livro é de um horror de uma realidade violenta que se descortina aos poucos, sob os olhos de uma criança, passando pela elaboração, análise e ação sobre essa realidade — a vida adulta de Bibiana e Belonísia —, o que inclui a descoberta do passado e de certas raízes históricas da luta camponesa, até o seu problemático desfecho. O movimento do livro é como o abrir da ferida camponesa, ele traz a tona uma série de violências sintetizadas nas vidas de alguns personagens, mas ao invés de usar dos símbolos como forma de abertura a uma realidade mais complexa — que é o caso, falaremos posteriormente, de Viva o Povo Brasileiro —, o romance realiza uma sutura simbólica dessas feridas. Ou seja, através da descarnação da realidade em símbolos, cria-se uma realidade apenas de símbolos cujas contradições textuais emulam contradições reais, e através de um fio e agulha simbólicos — o recurso fantástico do orixá literalizado — apazigua o incômodo que o próprio livro produziu. Assim, objetiva-se solucionar na ficção um problema real, o que funciona muito bem para a consciência do leitor.

Torto Arado traz ao público certa faceta da realidade camponesa, uma inquietação já presente no imaginário popular, apenas para remover essa inquietação com uma cirurgia simbólica; o leitor do romance tem em suas mãos nada menos que um ritual, um procedimento em que abre-se temporariamente para uma dor que permeia sua realidade e, em seguida, neutraliza a dor. Não é a toa que o livro vende como água, ele é um analgésico moral para a pequena burguesia.

Para uma classe desligada da realidade brasileira, a luta camponesa e as contradições coloniais ocupam a periferia do campo de visão do tradicional consumidor de literatura contemporânea, a classe média radicada nos polos urbanos. O que Torto Arado permite é que o leitor finalmente solucione essa pulga que está atrás de sua orelha, que dê uma forma a essa contradição que a desconhece e logo em seguida tire-a em definitivo de sua visão, postulando uma solução fantástica — afinal, por que motivo o enredo se situa em um passado irrastreável, um passado mítico cujo problema que o assombra é subitamente resolvido pelo sindicalismo, presenteando o leitor com esta visão de essa contradição já está superada e é apenas uma questão de tempo até que o sindicalismo encerre o problema da terra no Brasil? Trata-se de uma montanha russa, de uma oração, da introdução de uma pequena angústia para que o leitor sinta-se moralmente satisfeito, quite com sua culpa de desconhecer o país e a história que pisa.

Este problema, é claro, esbarra em todo o problema do realismo mágico na América Latina e na ideia de que a literatura é o campo do possível onde na realidade repousa o impossível, o sonho? De que serve o desencarnamento da realidade senão para vendê-la de forma palatável?

É válido e comum o pensamento de que, ao menos, “o livro trata de questões importantes”. Sem dúvida, ele as coloca em cena, mas não são as próprias contradições brasileiras, a realidade, que pulsam e se exigem colocar em cena? Não é a operação dessa suposta literatura que se clama “necessária” falar sobre as questões que entram no debate público por si mesmas apenas para tratá-las da maneira mais inofensiva possível, em uma tentativa de neutralização? A onda editorial da literatura “social” não é apenas uma tentativa de controlar o modo como se fala da ferida social, transubstanciar a revolta popular em um campo de apaziguamento de consciência moral?

Um bom paralelo pode ser encontrado, para dar profundidade histórica ao problema, no livro O Demônio Familiar, de José de Alencar. Peça de teatro de 1857 que também “trata de um assunto importante”, a iminência dos movimentos abolicionistas. Alencar foi um conhecido abolicionista, mas não por motivos nobres, e sim porque compreendia que a escravidão era um entrave ao desenvolvimento capitalista assalariado. Na peça, Alencar produz um microcosmo familiar do Brasil, em que Pedro, um jovem escravizado, causa muitas confusões dentro da família que o comanda porque é a única maneira que encontra de aproximar-se de suas precárias aspirações pessoais, seu pequeno horizonte de futuro: ser cocheiro e usar roupas bonitas (e, é digno de nota, segurar ele mesmo um chicote). A peça leva à conclusão de que a condição de escravizado é prejudicial tanto aos escravizados quanto aos senhores, pois a revolta causada pelos primeiros é tamanha que frustra a ordem aristocrática mas não rompe com a condição de escravização. Ao fim, Pedro é alforriado, mas isso é representado, literalmente, como um “castigo”, para que ele assuma as responsabilidades pelos seus atos, para que possa ser imputado por seus crimes. Pedro, inclusive, escolhe trabalhar para os mesmos patrões, mesmo alforriado, pois essa é a vida que ele conhece. Ora, que peça importante, realmente deve ter neutralizado muitas das angústias aristocráticas sobre a escravidão, afinal, a questão não é tão complicada assim, é só manter tudo do jeito que está, mas com salário.

Sejamos justos, Torto Arado não é igual ao Demônio Familiar. Inclusive, Torto Arado é bem mais sutil, complexo, e dá mais margem à ambiguidade do que os incontáveis subprodutos que tentam emular seu sucesso, as incontáveis narrativas de reconciliação simbólica de uma realidade fendida e para as quais listar nomes seria inútil, elas são facilmente reconhecíveis e volta e meia ocupam os topos das prateleiras. Torto Arado ainda permite vislumbrar algo de realidade no meio dos seus arroubos de romantismo e, sem dúvida, muitos de seus leitores fizeram mais do que apaziguar suas angústias morais, verdadeiramente se interessaram pelo objeto retratado, mas, novamente, isto não é tanto um mérito do livro quanto da realidade, pois o que o romance faz é tentar capturar a realidade e colocá-la em uma gaiola. Torto Arado é um ótimo lembrete para qualquer um que escreve literatura no Brasil hoje de que tratar de temas importantes não significa fazer boa literatura e, tampouco, falar qualquer coisa de relevante sobre tais temas — pelo contrário, corre-se o risco de apaziguar os movimentos de mudança que já estão em curso.

Recomenda-se, para a ampliação de perspectivas sobre o que é possível criar a partir da ficcionalização da realidade, o romance Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro. Neste livro, há operações simbólicas parecidas com as utilizadas por Itamar, porém, vê-se facilmente como os efeitos produzidos são radicalmente diferentes, pois ao invés de capturar a realidade em uma gaiola, o símbolo se torna forma de expressão de algo que dificilmente encontra representação em outro lugar: a continuidade histórica da luta de classes no Brasil.

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