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Trump declara guerra contra o povo norte-americano


Minneapolis sangra, Minneapolis chora, Minneapolis luta. Neste sábado, 24, os agentes do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) dos Estados Unidos, a Gestapo de Trump, fizeram mais uma vítima fatal: Alex Pretti, cidadão norte-americano e enfermeiro, foi executado a sangue frio quando já se encontrava detido em uma abordagem. Este crime bárbaro ocorre no contexto do recrudescimento dos protestos na capital de Minnesota após a execução, também pelo ICE, de Renee Good, nos primeiros dias de janeiro, e a repercussão da detenção de crianças pela famigerada instituição. Antes de qualquer investigação, Donald Trump já saiu em defesa dos assassinos do ICE, assim como seu vice J.D. Vance após a execução de Good, invocando a imunidade dos agentes federais, ou seja, na prática, a sua licença para matar. Cumpre-se aqui uma lei de ferro: invocado inicialmente contra as populações mais vulneráveis –no caso, os imigrantes ilegais, sem os quais a economia norte-americana colapsaria –, o dispositivo do fascismo adquire vida própria e termina por engolfar toda a sociedade. 


Marx dizia que um povo que oprime outros povos não pode ser livre. É claro que não podemos confundir as ações do imperialismo norte-americano e do seu Estado belicista –seja sob a fachada Democrata, seja sob a fachada Republicana –, dentro e fora do país, com a do povo dos Estados Unidos, constituído, em grande medida, por descendentes de escravizados e milhões de imigrantes pobres dos quatro cantos do mundo. Mas a imagem de Marx é bastante potente na medida em que destaca, por um lado, que a espoliação dos povos no terceiro mundo é crucial para comprar a paz social no seio dos países desenvolvidos do ponto de vista capitalista (e o declínio da hegemonia ianque a nível mundial não deixa de repercutir na degradação das condições de vida das massas dentro do país) e, por outro, que o projeto de opressão para além das fronteiras de um país implica a militarização da sua vida social interna. 


Com efeito, o mesmo Trump que apenas no seu primeiro ano de novo mandato agrediu militarmente sete países (Venezuela, Síria, Iraque, Irã, Iêmen, Somália e Nigéria), além de diversas guerras por procuração ou operações híbridas mantidas em outros pontos, também elevou a níveis inéditos a repressão interna dentro dos Estados Unidos. Desrespeitando o consagrado princípio federativo norte-americano, tem usado sistematicamente as tropas federais contra manifestações populares em seu próprio território, como na Califórnia, em Washington e agora em Minnesota. Para coibir a imensa onda de manifestações em todo o país contra as ações criminosas do ICE –erigido em sua guarda pretoriana –, ele ameaça usar a lei contra insurreição de 1807, que permite ao presidente da república lançar as forças armadas para a defesa da ordem interna. Algo banal no Brasil, o uso de tal dispositivo nos Estados Unidos equivaleria praticamente à consumação de um golpe de Estado. 


De fato, o ICE age como uma força paramilitar formidável, tendo dobrado de tamanho em pouco mais de um ano. Seu orçamento gira na casa de dezenas de milhões de dólares e conta com a cumplicidade de lideranças do Partido Democrata no Congresso, muitas das quais votaram pela concessão de orçamento suplementar à agência. Enquanto as ruas gritam “Fora Ice!”, os principais congressistas de oposição a Trump se limitaram a celebrar a previsão de recursos para a aquisição de compra de câmeras corporais para os agentes do ICE, no bojo do projeto de lei do Departamento de Segurança Interna aprovado na última quinta, 22, com votos decisivos do Partido Democrata. Enquanto isso, os desmandos e brutalidades policiais prosseguem, e vão em sincronia com a decadência geral da sociedade norte-americana, de que ser presidida por um pedófilo mitomaníaco narcisista é apenas sintoma e não uma causa. 


Na verdade, é bastante claro que Trump tem um projeto belicista-militarista de longo prazo, de reverter o declínio da hegemonia norte-americana. Para isso, não basta atacar os inimigos externos, é preciso, igualmente, agrupar sua base social (e constranger os setores da burguesia liberal que lhe sejam hostis) na luta contra o inimigo interno. É bastante sintomático que o epíteto “terrorista”, usado no princípio do século para designar os guerrilheiros árabes, seja cada vez mais utilizado pela administração para designar qualquer cidadão que lute nas ruas contra as suas políticas. Trump não cogita transmitir a faixa presidencial ao final do seu segundo mandato, como não pretendia fazê-lo ao final do primeiro. Para isso, apenas o estado de exceção lhe serve, seja uma escalada da conflagração contra Rússia ou China na arena externa, seja a eclosão da guerra civil, real ou suposta, no interior das suas fronteiras. Ao povo norte-americano, particularmente, às suas populações atacadas pelo racismo infame das classes dominantes daquele país, cabe se organizarem em uma poderosa frente única (nesse momento, mais do que nunca, devemos rechaçar um identitarismo estéril que secciona esta frente) e exercer seu direito sagrado à autodefesa e à rebelião, que é inclusive consagrado na constituição de 1789. Lutando nas entranhas da besta, as ações do proletariado e das massas dos Estados Unidos interessam e repercutem para a ação anti-imperialista e revolucionária em todo o mundo.


  

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