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Por Jorge Hannah



Em 8 de março de 2026, o monopólio de mídia Financial Times estampou uma longa reportagem sobre o crime organizado em Fortaleza. O texto descreve a violência das facções, o sofrimento de moradores, a extorsão de comerciantes, os deslocamentos forçados de famílias. A reportagem em si não mente nos fatos que apresenta, porém mente pelo que omite, pelo enquadramento que escolhe, pela pergunta que não faz. A pergunta que o Financial Times não faz é: de onde vêm as armas? Quem financia o mercado global de cocaína? Qual é a responsabilidade do consumo das classes médias e altas dos países ricos na demanda que sustenta o tráfico? Quais são as consequências de décadas de desindustrialização, corte de políticas sociais e concentração de renda que empurram jovens da periferia para dentro das facções? Nenhuma dessas perguntas aparece. O que aparece, em seu lugar, é um general bolsonarista comparando o Nordeste a um “enclave socialista mal administrado”. Tal absurdo é tratado pelo texto como fonte legítima de análise, sem qualquer questionamento. 


O resultado é uma narrativa completamente falsa em sua totalidade. Uma narrativa que apresenta o Brasil como território fora de controle, campo fértil para a intervenção externa. A imprensa financeira internacional age por interesse de classe quando prepara o terreno ideológico para a política de segurança norte-americana. 


Em 5 de março de 2026, no quartel-general do Comando Sul dos Estados Unidos, em Miami, o assessor da Casa Branca Stephen Miller declarou, diante de militares latino-americanos, que os cartéis “só podem ser derrotados com poder militar” e deveriam ser tratados “com a mesma brutalidade” empregada contra Al Qaeda e o Estado Islâmico. No mesmo evento, o secretário de Defesa Pete Hegseth defendeu “maior cooperação operacional” e celebrou a retomada da Doutrina Monroe. Dois dias depois, em 7 de março, Trump anunciou a criação da Americas Counter Cartel Coalition, reunindo dezessete países. Brasil, México e Colômbia não enviaram delegações. 


Mas o que isso significa? Que a transformação semântica do crime organizado em terrorismo não é mera distinção trivial. PCC e Comando Vermelho são organizações criminosas que possuem diferenças essenciais e praticas, combinam em serem empresas com fins econômicos e territoriais claros, e operam por meios distintos para manter sua influência e precisam ser encarados como tal. Ao forçar essa reclassificação, os EUA não estão propondo uma cooperação policial mais eficaz, estão criando o instrumento jurídico que lhes permite, segundo sua própria legislação, tratar as bases dessas organizações como alvos militares legítimos — em solo brasileiro, sem autorização do Estado brasileiro. 


A professora Rashmi Singh, da PUC Minas, especialista em terrorismo e crime transnacional, aponta que esse mecanismo já legitimou a invasão ilegal do Iraque em 2003, criou Guantánamo e seus detentos sem julgamento e tem sido progressivamente normalizado há 25 anos. Classificar PCC e CV como organizações terroristas estrangeiras permitiria o congelamento de ativos de indivíduos e instituições brasileiras sob jurisdição norte-americana; a proibição de qualquer “apoio material” por cidadãos ou empresas dos EUA (um instrumento de sanções amplo o suficiente para ser usado como alavanca de pressão política) e, no limite, a autorização de operações militares dos EUA contra essas organizações fora de seu território. 


A comparação com a Venezuela está na boca de todo diplomata brasileiro em Brasília. Foi exatamente este o roteiro — classificação como terroristas, escalada retórica — que levou ao sequestro do presidente venezuelano Nicolás Maduro pelas forças ianques em janeiro de 2026. 

Toda intervenção imperialista se move por interesses materiais concretos. No caso do Brasil em 2026, eles são múltiplos, entrelaçados e extraordinariamente reveladores. Comecemos pelo Pix: em julho de 2025, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) abriu formalmente uma investigação sobre as práticas comerciais do Brasil — e incluiu o sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central entre as “práticas desleais” brasileiras. A acusação é que o Pix, por ser gratuito e estatal, “prejudica empresas norte-americanas de tecnologia”. Traduzindo: o Pix ameaça a Visa, a Mastercard, a PayPal e a Meta. Em 2024, o Pix respondeu por 47% de todas as transações eletrônicas no Brasil, com crescimento de 52% em relação ao ano anterior. No primeiro trimestre de 2025, já era a forma de pagamento mais usada pelos brasileiros, com 49% das transações. A Mastercard reconheceu explicitamente, em seu último relatório anual, que sistemas como o Pix “poderão perturbar nossa atual participação de mercado em transações cross-border”. A Visa fez o mesmo, citando o Pix como “impulsionado por forte patrocínio governamental”. Em outras palavras: as duas maiores empresas de cartão do mundo admitiram, em documentos oficiais, que o Pix ameaça seus negócios. E o governo Trump abriu uma investigação. 


Para que não haja confusão: o Estado brasileiro é um Estado burguês, e o Pix é uma inovação do Banco Central a serviço da reprodução do capital nacional (que está por si só a serviço de interesses estrangeiros). O BRICS, por sua vez, não é uma Internacional dos Oprimidos, mas um fórum de potências emergentes — algumas delas, como já demonstramos nesta revista, com seu próprio projeto imperialista em curso — que disputam espaço na ordem capitalista global sem questionar suas fundações. A Índia de Modi massacra o povo indiano em sua tentativa de consagrar um verdadeiro genocídio contra os advasias e contra o PCI (M), além dos criminosos acordos militares com Washington e com a entidade sionista de Israel. A China social-imperialista financia juntas assassinas. O BRICS não rompe com o imperialismo, apenas tenta renegociar sua posição dentro dele. Dito isso, um país que constrói infraestrutura financeira soberana, fora do alcance do dólar e do SWIFT, que serve de modelo para o BRICS Pay e para sistemas de pagamento de outros países em desenvolvimento, que discute moeda comum no âmbito dos BRICS — esse país é, para Washington, uma “variável incômoda”. E variáveis incômodas recebem investigações comerciais, pressões tarifárias, e, quando nada mais funciona, a rotulagem de “narcoestado”.  


Mas o interesse material mais estratégico está no subsolo. O Brasil detém 23% das reservas mundiais conhecidas de terras raras — minerais essenciais para a fabricação de turbinas eólicas, baterias de veículos elétricos, semicondutores, radares, mísseis teleguiados, caças supersônicos e toda a parafernália do complexo industrial-militar ianque. A China, por sua vez, domina 60% da mineração global desses elementos e 90% do processamento. Um monopólio estratégico que Washington tenta desesperadamente quebrar. Em outubro de 2025, a China restringiu exportações de terras raras para fins militares, e Trump respondeu com tarifas de 100% sobre produtos chineses. As bolsas caíram, o dólar disparou e o descontrole ficou visível. Como resposta, Washington escolheu capturar o subsolo brasileiro. 


Em fevereiro de 2026, a U.S. International Development Finance Corporation — o braço financeiro do governo norteamericano — anunciou um pacote de 565 milhões de dólares para a mineradora Serra Verde em Goiás, única mina de terras raras em operação comercial no Brasil. O contrato da Serra Verde com a China para exportação de seu concentrado estava prestes a vencer. O capital ianque chegou na hora certa para substituí-lo. Trump convocou dezenas de países para uma reunião em Washington em fevereiro de 2026 com objetivo explícito de “reduzir a dependência global em relação à China no setor de minerais críticos”. O Brasil ocupa, nessa estratégia, o mesmo papel que a Groenlândia e que a Venezuela — territórios ricos em recursos estratégicos que o imperialismo quer controlar, com ou sem o consentimento de seus povos. 


A estratégia imperialista para o Brasil não se executa apenas sobre o território brasileiro, ela se constrói no cerco continental e base avançada do imperialismo no Cone Sul, se deslocou para a Argentina de Javier Milei. 


Em 7 de março de 2026, Trump reuniu em Miami, na chamada Cúpula Escudo das Américas, onze presidentes de direita e extrema direita da América Latina. Argentina, Bolívia, Chile, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá e Paraguai estiveram presentes com o objetivo declarado de “travar a ingerência estrangeira no hemisfério” — eufemismo para travar a influência da China — e militarizar o combate ao narcotráfico. Brasil, México e Colômbia brilharam pela ausência.  


A Argentina de Milei é o caso mais avançado de subordinação. Além de ser o principal aliado ideológico de Trump na região, Buenos Aires tem sido o palco de uma militarização crescente da presença norte-americana. O Paraguai assinou em dezembro de 2025 um acordo SOFA — Status of Forces Agreement — que regulamenta a presença permanente de militares norteamericanos no país. O Equador participou de “operações cinéticas letais” conjuntas com o SOUTHCOM em 2026 contra redes de tráfico. A Argentina avança em direção similar. A nova realidade construída pelo Comando Sul das forças armadas ianques é a de militares norteamericanos a menos de 200 quilômetros da fronteira brasileira. 


O Paraguai, com base militar estadunidense formalizada, a Argentina com Milei vendendo soberania a preço de liquidação, O Chile prestes a ser governado por Kast (outro lacaio de Washington) e assim o cerco ao Brasil se fecha metodicamente, com as ferramentas costumeiras do imperialismo: bases, acordos de “cooperação”, governos clientes e, quando necessário, a ameaça da rotulagem de terrorista. 

Nenhum processo intervencionista externo avança sem seus agentes internos. No Brasil esses agentes têm nome e sobrenome. 


Em 2025, o senador Flávio Bolsonaro entregou pessoalmente a representantes do governo Trump um dossiê associando PCC e Comando Vermelho a “atividades terroristas”. O deputado federal licenciado e traidor da pátria, Eduardo Bolsonaro, residindo nos Estados Unidos, agradeceu publicamente a Trump pelas medidas econômicas contra o Brasil e anunciou que uma “bomba atômica econômica” estava sendo preparada contra o país.  


Em fevereiro de 2026, o governo Trump nomeou Darren Beattie — figura próxima da extrema direita americana — para uma posição estratégica relacionada à política para o Brasil. Sua nomeação foi lida por analistas como sinal de que Washington pretende acompanhar de perto o cenário político brasileiro no período que antecede as eleições de outubro de 2026. Washington quer influenciar as eleições e conta com uma rede interna de colaboradores para isso. 


O governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, usou a megaoperação que resultou em 122 mortos em outubro de 2025 — a mais letal da história brasileira — para defender sanções internacionais contra as facções e alinhamento ao discurso de “narcoterrorismo” de Trump. Trata-se de uma posição política lesa-pátria, entreguista e criminosa que abre a soberania nacional à intervenção estrangeira em troca de dividendos eleitorais domésticos. 


Nesta seara, ainda há Lula. Que desesperado para mostrar ao imperialismo ianque que pode ser ele o porta voz estadunidense no Brasil, tem desde o ano passado tentado retomar os contatos com Trump, até mesmo dando afagos no pedófilo laranja. Suas últimas declarações, apontando que não tem nenhuma ambição de desenvolver as capacidades de defesa militar brasileira, demonstra o descaso com os brasileiros e consequentemente sua subserviência aos EUA. 


Nossa tarefa é clara: denunciar o narcoterrorismo como farsa jurídica a serviço da intervenção; exigir que o Estado brasileiro preserve o Pix e a soberania financeira contra as pressões de Washington e do lobby de Visa e Mastercard; defender a soberania sobre as terras raras, exigindo processamento industrial no país ao invés de exportação de minério bruto para abastecer o complexo industrial-militar norte-americano; combater a lei de patentes e o tripé macroeconômico de FHC que proíbem o investimento e a criação de tecnologia nacional; denunciar e isolar politicamente a quinta-coluna bolsonarista que entrega dossiês e agradece sanções contra o próprio povo e construir a unidade dos povos da América Latina contra a nova Doutrina Monroe. 

 Tehran, Irã, 8 de Março 2026 Foto: Majid Asgaripour/WANA via Reuters
Tehran, Irã, 8 de Março 2026 Foto: Majid Asgaripour/WANA via Reuters

No último dia 7 de março, o exército israelense lançou uma série de ataques aéreos mirando refinarias de petróleo e depósitos de combustível na capital do Irã.


Um dos alvos foi a Refinaria de Shahr-e Rey, principal infraestrutura energética do país que foi atingida e mergulhou a capital em um verdadeiro caos, o governo chegou a interromper o fornecimento de combustível na cidade o que gerou diversas filas em postos de combustíveis e paralisação de diversos serviços na região.


Após os ataques realizados, o combustível escorreu para os dutos de esgoto da cidade gerando incêndios em todos os quatros cantos da capital, durante o dia o sol foi impedido de penetrar a densa fumaça preta que se instalou sobre a capital de 10 milhões de habitantes, transformando o dia em noite na região, além disso foi relatado uma chuva tóxica de resíduo de petróleo com graves consequências no âmbito ambiental e de saúde com diversos relatos já apresentados de animais e plantas mortas devida a chuva tóxica.


Resíduo de chuva tóxica
Resíduo de chuva tóxica

O crime cometido por Israel foi tão grave que seus próprios lacaios imperialistas americanos ficaram chocados e mostraram preocupação diante das consequências, imagens de satélite na região foram tiradas do ar em toda a internet para ocultar o tamanho da destruição e o rastro de fumaça negra que ainda no dia de hoje, 8 de março, cobre a capital do país e lança resíduo tóxicos sob o lugar.


Satélite fora do ar
Satélite fora do ar

Mapa dos territórios do Maranhão atingidos por pulverização aérea de agrotóxicos. Fonte: LEPENG
Mapa dos territórios do Maranhão atingidos por pulverização aérea de agrotóxicos. Fonte: LEPENG

A utilização de agrotóxico como arma não é algo novo, existem relatos datados de 2015 com o uso de aeronaves porém nos últimos 5 anos a situação se tornou alarmante; em 2024 cerca de 85% dos casos desse tipo de ataque se concentraram no Maranhão.


Em 2021, foi estabelecida uma lei no estado para tentar frear essa prática, nomeada de Lei Zé de Doca, liderança camponesa assassinada em disputas de terras, porém de nada adiantou e é um exemplo de como funciona e a quem serve o judiciário brasileiro.


O termo “guerra química” se popularizou justamente pela forma que os latifundiários adotaram para realizar os ataques, utilizando da tecnologia de drones para despejar os venenos propositalmente sob casas, roças de subsistência e fontes d'água.


As comunidades nos municípios de Tuntum, Buriti e Acari já registraram sintomas recorrentes devido ao uso de químico como arma, são eles; 


  • Coceiras e queimaduras por todo o corpo.

  • Problemas respiratórios e tontura.

  • Contaminação de igarapés e redes de sustentos, matando peixes e contaminando lençois freáticos.


Essa prática comumente leva à morte ou sequelas graves de crianças e idosos, algo que dificilmente é retratado na grande mídia burguesa ou investigado pelas autoridades, alguns casos conhecidos são de duas crianças.


  • Em 2023, uma criança de 2 anos da comunidade quilombola de Cocalinho, lideranças locais e a comissão pastoral da terra atribuíram a morte a problemas respiratórios agudos após uma “chuva de veneno” atingir a comunidade.


  • Em 2021 na região de Buriti um caso ganhou repercussão nacional, André um menino de 7 anos teve o corpo coberto de feridas e queimaduras químicas após ser banhado por drone de pulverização, embora tenha sobrevivido carrega marcas e sequelas para a vida toda.


Além das mortes imediatas, o uso dessa prática deixa um rastro de destruição e morte, há diversos relatos de abortos espontâneos, malformação fetal e câncer, esses dados foram levantados em comunidades “ilhadas” do Baixo Parnaíba.


Existem nomes por trás desses crimes que muitas vezes não são citados em denúncias, a maioria são latifundiários da região com uma extensa lista de crimes, iremos citar alguns deles.


Gabriel Introvini da região de Buriti, já foi identificado e multado no valor supérfluo de R$ 273 mil após o caso do André, criança que teve o corpo queimado.


Grupo Maratá; um império alimentício que controla a região e já foi alvo até de jornais renomados como o The Intercept, que investigou e denunciou o grupo por uso de métodos violentos na região de Timbira, além do uso de venenos o grupo mantinha uma “milícia rural” para expulsar e confrontar famílias.


Danilo Abdala foi denunciado em 2024 também na região de Timbira, camponeses denunciam o despejo de veneno por parte do empresário enquanto colhiam roças de arroz para a subsistência. 










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