No último final de semana, nos dias 18 e 19 de julho, dezenas de militantes dos núcleos da Revista Revolução no Rio de Janeiro, São Paulo, Niterói, São Gonçalo e Itaperuna se reuniram para o primeiro Seminário da RRC. O evento, que foi organizado pela redação da revista, teve como principal objetivo a construção e aprovação do manifesto pelo boicote eleitoral que fora aprovado por unanimidade, e será publicado em breve. A campanha para divulgação do manifesto e da nossa posição pelo boicote foi alinhavada, neste processo também foi tirada uma nova estratégia e tática para desenvolvermos uma campanha eficiente e que possua uma clara alternativa a via eleitoral, com uma posição firme e coesa em torno do desenvolvimento de mudanças radicais e que realmente mudem a situação do país através de uma verdadeira revolução no Brasil.
Além disso, o seminário foi um espaço para o debate sobre a situação política nacional, internacional, a troca de experiência entre os núcleos, os seus devidos balanços da atuação até aqui e os caminhos da RRC nos próximos meses. Várias novidades estarão chegando em breve em nossos locais de atuação e nas plataformas digitais como o Instagram, YouTube e TikTok.
Houveram bastante discussões políticas e debates ideológicos de alto nível, o manifesto e as táticas foram discutidas como um ótimo rigor e critério em meio a lutas importantes.
No último domingo (19), enquanto Donald Trump posava pateticamente junto à Espanha na final da Copa do Mundo, as criminosas bombas ianques tornavam a cair sobre Teerã. Era o nono dia consecutivo de bombardeios. Estes, se intensificaram após pesados contra-ataques iranianos, que eliminaram pelo menos três soldados ianques e destruíram diversas instalações militares na região. Em resposta, o terrorista e pedófilo mandatário norte-americano (uma espécie de Johny, o Bravo, senil, flácido e covarde) ordenou o amplo ataque a instalações civis persas. Longe de se encaminhar para um acordo, o conflito parece escalar sem qualquer possibilidade de trégua duradoura à vista.
Trump está em uma encruzilhada, provocada, em grande medida, pela cilada sionista de que bastaria assassinar a liderança suprema da República Islâmica para liquidar o regime erigido após 1979. Netanyahu, neste episódio, agiu como o rabo que balança o cachorro, valendo-se dos meios de guerra ianque para avançar o seu plano de anexar o sul do Líbano e dar passos à frente no seu projeto colonialista de criar uma grande Israel. O que se passou foi o contrário: como temos dito desde o ano passado, a milenar civilização persa se unificou em torno da expulsão e revide ao invasor estrangeiro, arrastando-o para uma guerra de desgaste com um alto custo para a própria economia ianque. Comprova-se, neste conflito, uma vez mais, a primazia dos aspectos políticos e ideológicos sobre os meios de guerra, e de que a dita “guerra moderna” cara e robotizada dos imperialistas não é capaz de quebrar a guerra patriótica, se esta conta de fato com intensa mobilização das massas. Isto obrigou Trump, temendo a proximidade das eleições de meio de mandato, a aceitar os termos iranianos de cessar-fogo e tensionar a unidade, já precária, do seu eixo fascista com Israel. Trata-se de um dilema para o imperialismo ianque: preservar recursos financeiros e humanos em troca de reconhecer a derrota, ou insistir na agressão e arriscar levar a pique a credibilidade que lhe resta como potência hegemônica. Em síntese, são estas as contradições com as quais tem que lidar o imperialismo estadunidense:
1) Não há como vencer o Irã apenas pelo uso maciço dos bombardeios, que tendem a se tornar mais impopulares à medida que centram na população civil. Por outro lado, uma invasão terrestre seria uma catástrofe pelo custo envolvido, pela complexidade logística e sobretudo pelo desgaste para a opinião pública interna de ver seus soldados voltarem em número crescente dentro de sacos pretos;
2) A entidade sionista, Netanyhahu à cabeça, não tem como se sustentar sem guerra: a sua própria economia depende dos conflitos sem fim para operar e obter os recursos de que necessita para reproduzir sua existência artificial. Por outro lado, os Estados Unidos não podem abandonar Israel à própria sorte, pelo simples fato de que isto seria perder sua principal cabeça-de-ponte na região e o tacão com que provoca seus adversários. Admite as agressões sionistas no Líbano e a guerra só irá se encerrar se encerram-se os ataques ao Líbano.
3) Na medida em que as derrotas militares e as perdas econômicas com o Estreito de Ormuz fechado se acumulam, a popularidade de Trump cai. Porém, para o conflito se encerrar, ele teria que aceitar os acordos totalmente favoráveis ao Irã, o que tornaria ainda mais injustificáveis os custos dispendidos na guerra até aqui e deixaria explícito o limite histórico do “poder americano”.
Estes fatores, embora contraditórios, indicam a tendência a que a guerra continue e escale intensidade no próximo período. Isto terá um custo humano enorme para o bravo povo iraniano, mas acelerará igualmente o fim da hegemonia estadunidense. Caso este, no seu estertor, apele para uma medida extrema como o bombardeamento nuclear do país persa, desataria uma crise sem precedentes históricos e que nos levaria para o umbral da terceira guerra mundial. Do ponto de vista de Rússia e China, interesse alimentar a resistência iraniana de modo indireto, tanto para evitar um choque aberto com os Estados Unidos, quanto porque é melhor vê-lo às voltas com um atoleiro, enquanto avançam suas pautas na frente ucraniana ou no Pacífico. Deve-se ainda agregar que, à medida que fique claro para Donald Trump que ele caminha para o ocaso político no fim do seu mandato, levar os Estados Unidos a uma guerra de maior intensidade seria um recurso para justificar o adiamento das eleições e mesmo um autogolpe. De modo que o prosseguimento da guerra é do interesse de todos os atores envolvidos, inclusive do Irã, mas neste caso por um motivo justo: a defesa da honra dos seus mártires – inclusive as crianças assassinadas em Minab, e também naturalmente seu líder supremo – e da sua integridade territorial, incluído a soberania sobre o Estreito de Hormuz.
Tudo indica que aquilo que a agressão ao Afeganistão representou para o social-imperialismo soviético no final dos anos de 1980 – ou seja, o dobre de finados da sua expansão militarista para o Oriente Médio, assim como a desmoralização da sua forma de conduzir a guerra – o Irã representará para os Estados Unidos nesta quadra do século XXI. O papel de todos os anti-imperialistas é apoiar todos os esforços feitos no sentido de chutar para as latas de lixo da História este agressor putrefato, a começar por elevar a luta revolucionária consequente dentro do seu próprio país.
A sobretaxa de 25% sobre uma vasta gama de produtos brasileiros, somada a outras sanções que já vinham sangrando a economia nacional, não é mero "desajuste comercial”. Trata-se da manifestação mais crua da rapina imperialista e do beco sem saída do capitalismo burocrático no Brasil. Para além do atrito diplomático entre os governos, é necessário examinar a estrutura concreta das trocas comerciais, os impactos quantitativos por setor e a natureza das políticas públicas acionadas como resposta.
O comércio entre Brasil e Estados Unidos movimentou dezenas de bilhões de dólares nos últimos anos, mas com uma composição profundamente assimétrica. Enquanto a pauta de exportações dos EUA para o Brasil é concentrada em bens de capital, insumos de alta tecnologia e combustíveis refinados, o fluxo inverso é composto predominantemente por bens primários, semi-industrializados e commodities de baixo valor agregado. Com a aplicação da alíquota de 25%, os setores mais diretamente expostos são:
· Siderurgia e Semiacabados de Aço, Agronegócio e Alimentos (Café e Carne Bovina), Bens Manufaturados e Máquinas.
O Brasil é um dos principais fornecedores de placas de aço para os laminadores estadunidenses. Em anos recentes, as exportações de semiacabados superaram a casa dos US$ 2 bilhões anuais. Uma tarifa de 25% encarece diretamente a matéria-prima nas usinas do destino ou força os produtores nacionais a reduzirem margens de lucro e custos operacionais, transferência que recai sobre a massa salarial e o nível de emprego nas plantas industriais brasileiras. Embora os EUA apliquem isenções pontuais para insumos dos quais seu mercado interno é dependente (como o petróleo bruto e itens tecnológicos específicos), o setor alimentício sofre impacto direto. O café cru e a carne bovina in natura enfrentam barreiras que visam proteger o produtor doméstico estadunidense, desorganizando cadeias produtivas locais no Brasil que já operam com margens estreitas. Setores de maior valor agregado, como o aeronáutico e de compressores, operam sob contratos de longo prazo. A incerteza tarifária desestimula novos investimentos e enfraquece a posição do país frente a outros concorrentes globais.
A seletividade das isenções concedidas por Washington demonstra que o protecionismo estadunidense fecha as portas aos produtos que concorrem com sua indústria interna, mas mantém o acesso livre às matérias-primas energéticas e minerais estratégicos de que necessita.
Para além dos atritos tarifários, a verdadeira motivação política por trás da imposição das taxas de 25% reside na tentativa dos Estados Unidos de reforçar seu controle sobre a América Latina sob uma nova versão da Doutrina Monroe. As negociações de bastidores revelam que a exigência central de Washington não se restringe ao intercâmbio de bens primários, mas incluí a imposição de restrições aos investimentos estrangeiros na cadeia de minerais críticos e terras-raras no Brasil.
Com o Brasil detendo cerca de 21% a 23% das reservas globais de terras-raras (a segunda maior do mundo, atrás apenas da China), além de reservas estratégicas de nióbio, lítio, cobalto e níquel, a Casa Branca enxerga a riqueza mineral brasileira como um ativo indispensável na disputa geopolítica e de novas cadeias tecnológicas. Em um momento em que a China domina mais de 80% do processamento e refino global desses elementos fundamentais para microchips, turbinas eólicas, baterias e ligas militares, a retórica protecionista de Washington opera como chantagem política para pressionar o país a fechar suas portas ao capital do bloco concorrente e subordinar seu patrimônio mineral ao complexo industrial e militar norte-americano.
Frente à ofensiva comercial, a resposta imediata do governo petista centrou-se na ampliação de linhas de crédito subsidiado e garantias estatais para as empresas exportadoras afetadas. Sob o ponto de vista da economia política, esse mecanismo de concessão de crédito público via bancos oficiais (como o BNDES) funciona como um amortecedor contra a perda de rentabilidade do grande capital exportador. Quando a receita de exportação é comprimida por barreira externa, o Estado intervém injetando liquidez para cobrir o passivo das empresas. Essa dinâmica faz com que o dinheiro utilizado para subsidiar juros ou garantir financiamentos seja extraído da arrecadação tributária geral cuja carga, no Brasil, incide desproporcionalmente sobre o consumo das classes trabalhadoras. Ao mesmo tempo, os lucros das operações de exportação em momentos de alta do dólar permaneceram privados, enquanto as perdas decorrentes do protecionismo imperialista são socializadas com a coletividade por meio do orçamento público.
Quanto às propostas de "diversificação de mercados" para o Leste Europeu, Ásia ou os países do BRICS, a transição enfrenta entraves logísticos e contratuais de longo prazo. A substituição do mercado estadunidense por outros polos econômicos tende a reproduzir o mesmo padrão primário-exportador, mantendo o país no papel de fornecedor de matérias-primas e comprador de manufatura avançada.
Já o debate em torno da aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica e o tom das declarações entre o Ministério das Relações Exteriores e o Departamento de Estado dos EUA revelam os limites da diplomacia institucional. As retaliações comerciais por parte de países semicoloniais enfrenta uma barreira material de difícil transposição. Se o Brasil aplicar tarifas de retaliação proporcionais sobre os bens importados dos EUA (fertilizantes, diesel refinado, querosene de aviação e máquinas industriais), o efeito imediato será a elevação dos custos de produção internos e a pressão inflacionária sobre a economia doméstica. A dependência tecnológica e de insumos básicos faz com que a "reciprocidade" tarifária tenha um custo econômico assimétrico, onde o impacto de uma tarifa brasileira sobre produtos de alta tecnologia dos EUA é absorvido mais facilmente pela economia estadunidense.
A crise gerada pelo novo tarifaço põe em xeque as ilusões do social-liberalismo petista conciliador. A crença de que é possível harmonizar a soberania nacional com a integração subordinada ao mercado financeiro global e às cadeias de valor dominadas pelo grande capital internacional choca-se, mais uma vez, contra a realidade dos fatos. Os dados demonstram que as medidas paliativas adotadas pelo Estado, sejam elas os pacotes de crédito ou a diplomacia das notas oficiais, não alteram a vulnerabilidade estrutural da economia brasileira. A verdadeira superação dessa condição não virá da barganha por margens tarifárias ou do socorro estatal às grandes corporações exportadoras. A história e os dados econômicos mostram que a soberania real de uma nação só se constrói quando a gestão das riquezas, dos meios de produção e do comércio exterior deixa de servir à reprodução do capital e passa a responder diretamente às necessidades de quem produz a riqueza nacional.