A disputa pelos espólios de Bolsonaro e o rumo das eleições
- Redação
- há 2 horas
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A combalida candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro ganhou mais uma fissura com o vídeo em que a esposa de seu pai, Michele, expõe seu enteado por tê-la “desrespeitado” e “apunhalado”. Embora não tenha havido nenhuma espécie de derretimento da candidatura de Flávio, o fato é que a disputa pública se configura como mais uma barreira para que ele consiga vender a imagem de “moderado” e atrair para sua campanha os eleitores considerados indecisos, decisivos agora como em 2022.
Para além da superfície, é preciso olharmos o jogo de forças por trás desta disputa, que se trava em última instância pelos espólios do legado de Bolsonaro: a defesa do golpe militar, os 700 mil mortos da Covid e alguns milhões de votos. Como todo e qualquer caudilhismo, também aquele reunido em torno do capitão do mato tende à divisão com o desaparecimento (neste caso, um sui generis desaparecimento em vida) do seu chefe. Na verdade, a candidatura de Flávio representa uma mal costurada frente reacionária, composta por diversos setores da direita civil e extrema-direita que não depositam no “01” uma confiança estrita ou ponto de unificação.
O que se comprova com a atual crise interna deste movimento – que se manifesta praticamente desde o dia em que ele chegou ao governo federal – é que ele não possui uma unidade ideológica unificada, pelo contrário: ao ecletismo ideológico comum a diferentes manifestações do fascismo (eclético na medida em que vocaliza um discurso “antissistema” e que diz representar o “homem comum”, mas age em defesa dos interesses dos setores mais rapaces do capital financeiro e do latifúndio) se soma o arrivismo do velho capitalismo cartorial brasileiro, pois toda uma plêiade de figuras saídas dos estratos mais imundos da sociedade se agarraram ao vagão bolsonarista com o único intuito de abocanhar um mandato ou um quinhão das verbas públicas. Ocorre que este ecletismo, se permitiu ao Bolsonaro e aos seus galvanizarem amplo apoio entre diferentes classes sociais, também limitou a sua ação unificada e a criação de um verdadeiro partido político.
Michele Bolsonaro parece ser, neste sentido, mais sagaz que os seus inimigos correligionários, pois estruturou um movimento de massas evangélico e feminino em torno da sua figura. Movimento, aliás, pavorosamente reacionário, pois assentado em uma visão protestante fundamentalista, que buscará estender a toda a sociedade. Seja como for, cabe perguntar: este movimento consegue sobreviver sem a infraestrutura e o aval dado pela liderança do PL? De todo modo, como velha raposa corrupta e pragmática, Valdemar da Costa Neto aposta uma no cravo e outra na ferradura e, se é obrigado a prestar declarações públicas de solidariedade a Flávio, não se pode descartar que a ousadia de Michele não tenha nele um incentivador oculto. Com as eleições presidenciais de 2026 correndo sério risco para este grupo político, ele parece apostar suas fichas em eleger uma grande bancada para o Congresso e construir um nome para 2030 que seja capaz de escapar do tacão de Bolsonaro e seus filhos.
Sem o trabalho de embelezamento que seria feito por Michele, Flávio parece ser dirigido cada vez mais pelo “grupo dos Estados Unidos”, leia-se, Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo, que são o núcleo duro da extrema-direita. Até mesmo o voto feminino, conquistado há pouco tempo na maior parte dos países capitalistas, mediante muita luta popular, foi contestado pelo neto desocupado do general Figueiredo. O paradoxo da candidatura de Flávio é que são estes 20%-30% de votos do bolsonarismo raiz os que não deixam sua candidatura derreter, apesar de todos os revezes e escândalos, mas com eles somente ele não ganha. Sem mandato, tanto ele como os irmãos serão presa fácil do séquito de humilhados e dissidentes que eles próprios produziram com a arrogância imperial como tratam os assuntos políticos.
Do outro lado do páreo, Lula assiste à disputa com a prudência de quem se beneficia mais do sangramento do adversário que da sua liquidação a curto prazo. Por isso, suas declarações têm sido econômicas a respeito, mesmo porque, o escândalo Master, já colheu um dos seus mais antigos e próximos aliados, o sionista-petista Jaques Wagner. A possibilidade da eclosão de um escândalo nas suas proximidades, a esperada tentativa de ingerência de Trump e sua própria verborragia nem sempre calibrada não permitem ao PT e nem a ninguém dar essa eleição por resolvida. Até porque, a extrema-direita tem raízes orgânicas na sociedade brasileira, que poderiam ser preenchidas até mesmo por algum aventureiro improvisado caso Flávio sucumba antes de outubro.
Aos trabalhadores da cidade e do campo, aos estudantes, à juventude das favelas e aos intelectuais progressistas, cabe organizar a luta pelos seus próprios interesses. O fato é que nenhum direito do povo está em jogo nessa disputa, pois ela repete uma suposta polarização entre correntes políticas que nos governam e governaram na última década, sem nenhuma melhoria substancial na vida dos trabalhadores. O PT prometeu revogar a reforma trabalhista em 2022 e chegará em outubro sem nem sequer entregar o fim da escala 6x1, pauta que surgiu nas ruas e foi mantida em segundo plano até a véspera das eleições. A única maneira de fazer valer os nossos interesses é a mobilização, organização e luta desde a base, até que o poder esteja em nossas mãos.






