André Mendonça x Alexandre de Moraes: Guerra no Campo Inimigo
- Redação
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Causou espécie nesta semana a exposição da relação de sociedade estabelecida entre Alexandre de Moraes, ministro do STF, e o estelionatário e quadrilheiro Daniel Vorcaro, protagonista de uma das maiores fraudes financeiras da história do Brasil. Sociedade não é aqui uma figura de linguagem: Moraes abocanhou pelo menos 131 milhões de reais oriundos dos ilícitos do Banco Master, pois o contrato que este mantinha com o escritório da esposa do ministro não era senão uma fachada para acobertar as suas relações espúrias. A menos que se acredite em história da carochinha, estes valores vultosos, além de outras benesses, como cartões de crédito para os filhos do casal Moraes e usufruto de jatinho particular, não foram doados pelo gângster-banqueiro. Sua expectativa era faturar muito mais com a blindagem contratada.
Na verdade, o que se vê mais uma vez comprovado é que a corrupção no Brasil é uma instituição pluripartidária. O próprio André Mendonça manteve contatos particulares com Daniel Vorcaro, e pertence a um grupo político que se fartou nos favores concedidos pelo financista. Ora, Flávio Bolsonaro foi flagrado negociando somas completamente irreais para o financiamento do filme de baixíssimo valor moral e artístico intitulado Dark Horse. Ciro Nogueira, prócer do governo Bolsonaro, submergiu após várias fotografias suas desfrutando de luxos pagos por Vorcaro virem à tona. Davi Alcolumbre, presidente do Senado, aparece amiúde envolvido no escândalo do Master, assim como Ibaneis Rocha, uma vez que o Banco Regional de Brasília (BRB) comprou papéis podres do Master por valores exorbitantes, tanto quanto o sistema previdenciário do governo do Rio de Janeiro de Cláudio Castro. Nikolas Ferreira também foi flagrado de joelhos para Vorcaro, que comenta a um assessor ter “bancado todos os voos dele”.
Se os golpistas se encorajarem a irem para as ruas no dia 7 de setembro, erguendo a bandeira da moralidade, seria o caso de lhes indagar: em qual latrina imunda a recolheram?
É claro que, do ponto de vista da luta popular, devemos afirmar o mais óbvio e cristalino: por detrás da pompa dos três poderes, o que governa absoluto, aqui e onde quer que exista o Estado dos capitalistas, é o saco de dinheiro. Enquanto milhões de trabalhadores morrem após décadas buscando receber um precatório, que aliviaria as penúrias da velhice, ou presos desgraçados esperam meses para terem um habeas corpus apreciado, qualquer desqualificado que tenha milhões na conta consegue acesso imediato e pessoal a uma alta “otoridade” desta república de bananas, na qual o Executivo é o caixa, o Parlamento é o balcão e o Supremo é a feira.
Seria um erro deixar de apontar a imoralidade destas figuras, como faz o oportunismo petista, em primeiro lugar, porque são todas representantes das classes dominantes; em segundo lugar, porque o repúdio das pessoas que se levantam ainda de madrugada e trabalham duro para viver com dignidade a estes figurões que levam vida de nababos sustentada pelo erário é absolutamente legítimo. O fato de que a grana, mesmo a mais suja, compre favores e privilégios, viola na essência a própria ideia da república democrática. É portanto um problema político relevante. Isto reforça a nossa afirmação de que não há solução para o povo dentro da institucionalidade burguesa.
Dito isto, é preciso compreender que o ataque de André Mendonça, valendo-se por sua vez de métodos ilegais, e o contra-ataque igualmente abaixo da linha da cintura de Alexandre de Moraes, se configuram como uma disputa acirrada pelo controle do aparelho de Estado. Quando esta disputa leva de roldão o aparato policial-judiciário, isto é, aquilo que em tese existe de mais estável na ordem estabelecida, isto indica uma gravidade inédita da crise política e uma completa ausência de legitimidade institucional. André Mendonça age de fato como um provocador à serviço do projeto eleitoral de Flávio Bolsonaro. Este, vendo sua candidatura ameaçada por todos os lados, inclusive pela sua relação com Vorcaro, e mesmo pela ascensão de um azarão como Augusto Cury (que tira mais votos seus que de Lula), aposta em criar uma comoção suficientemente forte para reagrupar a rachada aliança da extrema-direita com a direita considerada moderada, particularmente sensível ao discurso da moralidade. Caso perca a eleição, já fica fincada a pauta do impeachment de Alexandre de Moraes para a próxima legislatura, algo improvável de ocorrer neste cenário mas capaz de manter a tropa reunida.
É claro que, em situações normais, André Mendonça não poderia triunfar, pois ele atacou praticamente todas as frentes ao mesmo tempo. A sua aposta é que a exposição de Moraes produza o efeito da facada de 2018 e lote as ruas no 7 de setembro. Até aqui, embora o barulho nas redes sociais seja grande, este objetivo parece ter sido frustrado - até porque, embora os valores sejam chocantes, a consciência popular não se surpreende em ver qualquer uma destas figuras envolvidas em escândalos: surpreendente é que não estejam. Se os atos bolsonaristas de 7 de setembro devem ser maiores que o do último ano, nada indica que irão mobilizar novos setores além dos já convertidos.
Do nosso ponto de vista, é necessário elevar a defesa do boicote às eleições, que se torna ainda mais justificável perante os trabalhadores com os desdobramentos do escândalo Master. Também devemos apontar que, nesta luta fratricida, a única vítima fatal até agora foi o fim da escala 6x1, cuja votação foi adiada para após as eleições. É preciso igualmente ressaltar que, enquanto a opinião publicada dos jornais faz da corrupção a única pauta das eleições, avança a penetração imperialista sobre as terras raras brasileiras e outros recursos naturais. Divididos no exercício da exploração, os nossos inimigos de classe atuam em uníssono para manter seus privilégios. Não devemos escolher nenhum deles, mas marchar em defesa dos nossos próprios interesses.






