As almas livres e corpos encarcerados da Palestina, Índia e Filipinas na literatura marxista.
- Viviane Carvalho

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A coletânea Almas Livres, Corpos Encarcerados, da N-1 Edições, com curadoria de Igor Mendes, se dedicou a relatar a experiência da prisão em vários países. Ela abrangeu desde relatos de prisioneiros em processos de libertação nacional, como o caso da Palestina, até aqueles que entraram no sistema carcerário por serem de uma camada social estratificada e marcada para ser presa ou morta desde o seu nascimento.
Esse profundo e delicado trabalho sobre cárcere rendeu 15 publicações, desde clássicos brasileiros como Marighella, até os confins da Guerra Popular na Índia e Filipinas. Hoje, focaremos na experiência de três dos seus autores. E, embora se desenvolvam em contextos nacionais distintos - Palestina, as Filipinas de Rodrigo Duterte e a Índia de Narendra Modi -, os relatos analisados emergem em momentos de intensificação da repressão estatal contra movimentos revolucionários, organizações populares e intelectuais dissidentes. Por isso, essa coletânea também exerce função de propaganda revolucionária.
Sob uma perspectiva da crítica literária marxista, esses relatos transformam a experiência individual do cárcere em expressão concreta das contradições históricas do capitalismo e da luta de classes. Mais do que testemunhos pessoais, os textos revelam de que modo a violência estatal atua como mecanismo de reprodução da ordem social, contendo mulheres e homens dissidentes com paredes objetivas e subjetivas. Ao tratar de experiências mundiais, a coletânea não interessa apenas pelo conteúdo político, mas também pela forma como transforma essa experiência em literatura.
Para os críticos marxistas como Terry Eagleton "[…] a crítica marxista analisa a literatura em termos de condições históricas que a produzem; e ela precisa, de maneira similar, estar ciente das suas próprias condições históricas”¹. É exatamente esse movimento que se observa nos relatos de Nasser Abu Srour, G.N. Saibaba e Andrea Rosal². Estes autores narram vivências profundamente pessoais em relação ao espaço e aos outros presos ou carcereiros, mas seu espírito - no sentido marxista, isto é, sua ideologia e sua cultura - ultrapassa o âmbito biográfico para evidenciar estruturas permanentes de dominação: a prisão política, a militarização do Estado, a criminalização da dissidência e a utilização do sofrimento físico e psíquico.
Nos seus testemunhos, todos representam em si um mar de gente encarcerada, e são deslocados, primeiro, como exemplo para os demais, e logo como porta-vozes de uma resistência a uma política de estado, seja do seu próprio como no caso da Índia e Filipinas, ou do estado invasor, no caso da Palestina. Aí, entra a maestria desses lutadores, os quais, ao refletiram sobre a existência política em condições de isolamento, falam coisas como Abu Srour "A geografia da prisão impõe aos seus detentos uma postura revolucionária que é extensão de uma longa luta, garantindo que a prisão não constitua uma ruptura ou descontinuidade no cenário político e de resistência nos territórios ocupados".³
E como não se romper? Como não descontinuar quando o processo de organização é forçadamente desorganizado? A extensão da luta de classes quando se está isolado vira outra, e o texto, ou seja, a escolha de palavras organizada - o que ainda não é literatura - pode e é constantemente uma arma poderosa de denúncia e comunicação entre o dentro e fora das paredes. Mas e sobre a literatura? Nos relatos, a prisão não constitui apenas um tema. Ela organiza a própria estrutura narrativa. O ritmo do texto, a memória fragmentada, a recorrência da espera, da vigilância e da violência não são simples descrições do cárcere, mas elementos formais produzidos pelas condições materiais da experiência prisional. Nesse sentido, como observa Antônio Candido, o elemento social deixa de ser apenas contexto e passa a integrar a estrutura da obra.
E é nessa fórmula que reside a importância dessa coletânea, porque "[…] as obras literárias não são misteriosamente inspiradas, nem explicáveis simplesmente em termos da psicologia dos autores. Elas são formas de percepção, formas específicas de se ver o mundo; e como tais, elas devem ter uma relação com a maneira dominante de ver o mundo, a ‘mentalidade social’ ou ideologia de uma época" (Eagleton, p 19). E se uma época produziu mais de uma ideologia, e se nesse contexto social duas ideologias combatem com armas na mão, então elas batalham no campo da literatura.
O relato biográfico desses 3 distintos autores, um literato, um professor e uma mulher que fala através de um outro movimento de mulheres (uma vez que Andrea Rosal não fala em primeira pessoa na maior parte da entrevista disponibilizada pela Conferência Mundial das Mulheres) mostra como a própria forma dos relatos é produzida pelas condições históricas do cárcere. E neste caso, o testemunho destrói uma visão individualista: trata-se de um sujeito que fala em uma só voz o que vários estão querendo dizer. Na sua melhor qualidade, eles combatem o individualismo subjetivista da vítima e o superam para o papel de ativista.
Andrea Rosal, mesmo em situação extrema, evita qualquer sentimentalismo excessivo. Sua força literária decorre justamente da contenção da linguagem. O sofrimento não aparece como espetáculo, mas como evidência material das formas pelas quais o Estado administra esses humanos considerados excedentes ou perigosos.
No testemunho de G. N. Saibaba, por sua vez, a violência assume contornos ainda mais sofisticados. Intelectual, professor universitário e pessoa com deficiência física, Saibaba demonstra que a tortura não se limita à agressão corporal direta, pois "cada ato que fizeram comigo envolveu tortura física e mental". A destruição da cadeira de rodas, a negação sistemática de atendimento médico, o confinamento prolongado, o controle da linguagem durante as visitas dos familiares e a privação de medicamentos configuram uma política permanente de desumanização.
Do cárcere, em uma sala confinada e em países diferentes, a cultura marxista, sua atuação prática e a militância organizada permitem que indivíduos encarem a prisão como continuidade da luta e a literatura como arma política. Porque essa literatura não só informa e cria registro, mas ela forma politicamente seus leitores para os desafios da vida revolucionária.
1- Terry Eagleton, Marxismo e Crítica Literária, página 8
2- Nasser Abu Srour - "Abu Srour, filho de uma família de refugiados da aldeia ocupada de Beit Nattif, nascido no campo de Aida, em Belém, em 1969, foi preso em 1993 e condenado à prisão perpétua. Ele conseguiu obter um mestrado em Estudos Regionais enquanto cumpria pena na prisão de Hadarim. Enquanto estava preso, publicou seu primeiro livro, “Um Conto do Muro de 2022”, pelo qual ganhou o Prêmio de Literatura Árabe do Instituto do Mundo Árabe, em Paris. O livro foi traduzido para o francês com o título “Eu Sou Minha Liberdade” e, em novembro de 2025, ele concluiu seu segundo livro, “No Caminho da Escrita”." Ficou 31 anos preso nas masmorras israelenses e foi liberado nas negociações de 2023.; G.N. Saibaba "Gokarakonda Naga Saibaba foi um estudioso e ativista de direitos humanos que lecionou literatura inglesa na Universidade de Delhi. A poliomielite contraída na infância deixou Saibaba com deficiência abaixo da cintura. Em 2014, ele foi preso e acusado de ter ligações com grupos maoístas ilegais. Foi condenado à prisão perpétua ao abrigo da Lei de Prevenção a Atividades Ilegais (UAPA) em março de 2017. Em confinamento solitário na Cadeia Central de Nagpur, seus pedidos de fiança ou liberdade condicional para se submeter a tratamento médico foram repetidamente negados. O Tribunal Superior de Bombaim o absolveu dessas acusações em outubro de 2022, mas o Supremo Tribunal suspendeu a decisão no dia seguinte, determinando que ele fosse submetido a um novo julgamento perante uma vara diferente. Em 5 de março de 2024, Saibaba foi absolvido pela segunda vez. O tribunal superior declarou que o julgamento do tribunal de primeira instância foi uma “falha da justiça”, baseado em evidências frágeis e procedimentos falhos."
e Andrea Rosal "Esta é a história de Andrea Rosal, presa em 27 de março, quando estava grávida de sete meses. Em 17 de maio, ela deu à luz uma menina, Diona, que tragicamente faleceu um dia depois devido a problemas respiratórios. Tive a oportunidade de entrevistá-la menos de 24 horas depois, e este artigo é o resultado dessa entrevista. Também incluí uma pequena entrevista com a Dra. Beng Rivera-Reyes, uma das médicas que a acompanharam durante seu encarceramento.
Acho importante dar um pouco de contexto aos leitores não filipinos sobre quem é Andrea Rosal, de 31 anos. Ela é conhecida por ser filha de Gregorio “Ka Roger” Rosal, falecido porta-voz do Novo Exército do Povo (NPA, da sigla em inglês), que evitou ser capturado pelo governo até sua morte. Quando criança, aos cinco anos de idade, foi sequestrada por forças governamentais para pressionar seu pai a abandonar a luta armada. Apesar disso, jamais foi comprovado que ela própria fosse integrante do NPA ou do Partido Comunista das Filipinas (CPP, da sigla em inglês)."
3-“A geografia da prisão impõe aos seus detentos uma postura revolucionária” Entrevista de Nasser Abu Srour a Dr. Mahmoud Baraka, Coletânea Almas livres, corpos encarcerados, N-1 Edições.






