top of page

Os portões já estavam abertos


No dia 3 de agosto, o Clube Militar do Rio de Janeiro, formado pela Marinha, Exército e Aeronáutica, associação que reúne oficiais da reserva e mais de mil oficiais da ativa, divulgou nota intitulada "Os riscos à Nação", convocando os brasileiros à "reação cívica" diante do que descrevem como falência moral, institucional e econômica do país. No dia seguinte, o ministro da Defesa, José Múcio, resumiu numa única frase o conteúdo desta nota. Questionado sobre uma hipotética invasão dos Estados Unidos, respondeu que o mais sensato seria “abrir o portão”, já que o Brasil não tem equipamento para enfrentar o invasor nem dinheiro para consertar o estrago.


Os grandes monopólios de mídia nem sequer comentaram sobre a nota e, ao noticiarem a declaração criminosa e lesa-pátria do ministro, trataram-na como mera fala infeliz, "dita em tom de brincadeira", sobre a insuficiência orçamentária das Forças Armadas. Essa leitura é a que permite às duas declarações circular sem que se entenda sua complementaridade. A mesma corporação que se dá o direito de tutelar a política interna em nome da soberania nacional é, ao mesmo tempo, a que institucionaliza, através de seu ministro civil, a resignação e a covardia diante da soberania externa. O que os clubes chamam de "risco à Nação" nunca inclui a incapacidade estrutural e deliberada de defender o território contra a potência que, nesse mesmo ano, impôs tarifas punitivas ao país e patrocinou abertamente a família Bolsonaro - miliciana, criminosa, golpista e entreguista que disputa o governo de turno nas eleições deste ano.


Em 2021, a mesma entidade lançou a campanha pelo "voto auditável", emprestando peso institucional às alegações de fraude eleitoral do então presidente Jair Bolsonaro. Falava-se em "leniência com a corrupção", "tolerância com o crime", "descaso com a gestão da coisa pública", categorias suficientemente vagas para caber qualquer governo que não seja do agrado da caserna. Não é a primeira vez que oficiais da reserva usam a fachada de clube recreativo para produzir efeito político sobre uma tropa da ativa proibida – pelo menos na teoria - de se manifestar.


O clube afirma que "críticas personalistas" e "desalinhamentos políticos com importantes países" comprometeram relações bilaterais construídas ao longo de dois séculos, e que as retaliações comerciais "poderiam ter sido evitadas por meio de uma condução mais técnica e pragmática". Sem nomear os Estados Unidos, o texto atribui a origem das tarifas não à potência que as impôs – com o apoio declarado dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro -, mas ao governo brasileiro que ousou reagir a elas com algum desconforto verbal. Veja só a inversão dos fatos: a agressão econômica de uma potência imperialista sobre uma semicolônia é apresentada como consequência do mau comportamento diplomático da vítima, e a solução proposta — "condução técnica e pragmática" — é o alinhamento incondicional, subserviência, silêncio diante da chantagem tarifária, tratamento da soberania como obstáculo à normalidade dos negócios.


Não existe coincidência na política e a frase de Múcio é a grande representação disso. Um dia após a nota do clube militar, o ministro da Defesa do país proclamou aos quatro ventos suas intenções de entregar à Nação à tutela ianque, sem maiores cerimônias. O problema não está na frase, que é sincera até o constrangimento, mas no fato de que essa sinceridade nunca é convertida em política de defesa. Um membro do alto escalão do governo reconhece publicamente a incapacidade do Estado de defender o território e, na mesma semana, assiste às tarifas impostas por Washington. Esta declaração abjeta, junto ao fato do ministro não ter sido imediatamente demitido e investigado por colaboração com uma potência estrangeira, reforça o papel do Brasil na divisão internacional do trabalho: fornecedor de matéria-prima, terras raras, excedente agrícola e voto favorável nos fóruns multilaterais, sem jamais reivindicar para si os instrumentos de uma soberania efetiva, concreta. A Escola Superior de Guerra nasceu em 1949 sob inspiração direta da doutrina de guerra estadunidense, o gesto de Múcio atualiza esta genealogia. Por isso soa cínico o apelo dos clubes ao "diálogo" e à "convergência de esforços" como resposta aos riscos que eles próprios descrevem. A postura do clube e do ministro se complementam. À caserna cabe vigiar e, se necessário, disciplinar o campo político interno. Ao ministério cabe administrar a subordinação externa como fato consumado, sem sequer a pretensão de negociá-la a partir de alguma correlação de forças.


O atrito verbal com Washington que o clube classifica como "ruído diplomático desnecessário" nasceu do desconforto de uma fração da burguesia brasileira com os termos específicos da tarifa, não com a subordinação em si. O atrito mais tímido e mais eleitoreiro com o imperialismo, já é suficiente para acionar, do outro lado, a ameaça de tutela militar disfarçada de zelo cívico. Se tal desconforto verbal tão modesto já produz essa reação, fica claro que o sistema político-econômico brasileiro não tolera qualquer tipo de autonomia para si mesmo.


Os riscos à Nação existem, mas não são os que a nota descreve. O risco não está na "polarização", não está na "antecipação do debate eleitoral" e não está no suposto amadorismo diplomático de um governo que, na prática, jamais rompeu com os fundamentos da inserção subalterna do país na economia mundial. O risco está registrado, de um lado, em uma corporação armada que trata a soberania – por menor que seja - como problema a ser corrigido e, do outro, em um Estado que já anunciou publicamente que abrirá os portões. Entre a ameaça externa e a capitulação interna não sobra espaço para a construção de um programa concreto de defesa nacional, sobra apenas a pergunta sobre quem teria interesse real em construí-la.


O Vietnã enfrentou, com fuzis, túneis e uma população mobilizada, o exército mais poderoso do século XX, e expulsou-o do território depois de forçá-lo a um dos recuos mais humilhantes da história militar estadunidense. Não tinha porta-aviões, destroyers, nem equipamento de ponta, tinha uma linha política capaz de transformar cada camponês em combatente e cada aldeia em obstáculo. A Palestina, sob bloqueio, genocídio, limpeza étnica, bombardeio contínuo e com uma disparidade de meios que nenhuma outra resistência do mundo atual enfrenta em grau comparável, segue impondo à entidade sionista e ao seu patrono estadunidense um custo político e diplomático que anos de normalização forçada não conseguiram apagar. As forças de ocupação não venceram, apenas prolongaram um confronto que pretendia encerrar em semanas. Os Houthis, partindo de um dos países mais pobres do mundo, sustentaram por meses o bloqueio de uma das rotas marítimas mais vigiadas do planeta contra a marinha de guerra mais equipada da história, sem que bombardeios repetidos dos Estados Unidos e do Reino Unido conseguissem restabelecer o trânsito nos termos exigidos por Washington. O Irã, sob sanções há décadas e sem paridade tecnológica com seus adversários, respondeu a ataques diretos de Israel com mísseis balísticos e enxames de drones em território israelense e em bases ianque em toda Ásia Ocidental, obrigando os EUA à transferir quantidades exorbitantes de fundos e recursos para a máquina de guerra sionista, custando popularidade e legitimidade ao seu próprio governo. O que essas experiências têm em comum é a recusa a tratar a inferioridade de meios como sentença, Múcio transforma esta lição em um dado técnico. O baixo investimento em Defesa é o veredito político, a resignação antecipada.


A tradição que pensou a soberania nacional como projeto de ruptura, e não como gestão de crise, chegou a conclusões opostas às do clube militar brasileiro. Para Amílcar Cabral, a libertação nacional não era compatível com a permanência das estruturas que produziam a subserviência ao império. Para Thomas Sankara, a dívida e o alinhamento automático ao capital estrangeiro eram a antessala da re-colonização. Para Ho Chi Minh, a defesa do território era inseparável da mobilização popular contra a própria classe dominante interna que se beneficiava da subordinação. Nenhum desses processos tratou a defesa nacional como assunto de gabinete entre generais e ministros, porque nenhum deles via na farda o instrumento de uma soberania popular. A farda que ameaça os direitos do povo em nome da "reação cívica" e a farda que abriria o portão à primeira tropa estrangeira são a mesma farda.

Assine nossa newsletter

Receba em primeira mão as notícias em seu e-mail

Seu e-mail
Assinar
bottom of page