Canudos não se rendeu!
- Viviane Carvalho

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"Canudos não se rendeu. Exemplo único em toda a história, resistiu até o esgotamento completo. Vencido palmo a palmo, na precisão integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando caíram os seus últimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma criança, na frente dos quais rugiam raivosamente cinco mil soldados”. (Euclides da Cunha, Os Sertões, 1902)
Esta célebre citação de Euclides da Cunha marcou profundamente o imaginário popular sobre a heroicidade dos integrantes da revolta do Arraial de Canudos, na Bahia. Frequentemente apontada pela historiografia burguesa como um movimento de fanatismo “típico de países pobres”, há tempos os comunistas rejeitam tal interpretação, classificando-a como uma das mais importantes revoltas populares brasileiras.
O povoado de Belo Monte, fundado em 1893 por Antônio Conselheiro, ergueu-se como uma cidade com poder próprio até o início dos ataques do Exército nacional, em 1896.
Ainda que represente formas avançadas de organização, seria anacrônico utilizar conceitos como Bases de Apoio ou Guerra Popular para caracterizá-lo — embora a organização do arraial e sua defesa armada integrem a experiência histórica de luta das classes exploradas no Brasil na construção de formas de poder paralelo ao dominante. Ainda assim, permanece a questão: como categorizar tal fenômeno e como assimilá-lo?
Para isso, é necessário retomar o que os próprios comunistas brasileiros disseram sobre Canudos, sobretudo Nelson Werneck Sodré e Rui Facó, com contribuições importantes de Clóvis Moura.
Na sua obra sobre a história da imprensa no Brasil, Nelson Werneck Sodré questiona a forma como a imprensa foi mobilizada para convencer a população de que Canudos se tratava de uma conspiração monarquista, elevando o fervor popular em defesa da República recém-nascida. Ele analisa o episódio como uma crise interna dessa República, que já nascera comprometida com a manutenção do poder dos grandes proprietários de terra:
"Euclides da Cunha acompanha a marcha das operações, com a expedição militar destinada a liquidar Canudos, tido como reduto monarquista. Repórter de talento, como o Kipling que acompanhou a expedição de Roberts contra os boers, no dizer de Agripino Grieco, Euclides envia telegramas com relatórios coloridos, que constituirão livro póstumo e servirão de rascunho para o monumental painel de Os Sertões. Algo de profundo estava por trás da exaltação que transfigurara o arraial do Conselheiro em base monarquista: a desilusão com o poder, de que as oligarquias se haviam apossado, destruindo as esperanças reformistas dos que acreditavam, com Floriano, que era necessário submeter o país a mudanças profundas. Assim como não se viu, sob o severo disfarce do fanatismo religioso, a rebelião camponesa — protesto trágico contra a multisecular servidão com o atraso do campo — não se viu, também, que o novo regime, sob o tênue disfarce republicano, continuava a manter as velhas estruturas, anquilosadas pelo largo período colonial e pelo artificialismo da estagnação monárquica. Mas o povo teve a intuição do perigo, embora lhe avultasse as dimensões e errasse o alvo. Sentiu, na suspeição que levantou contra as próprias autoridades, a federal como a estadual, que estava sendo traído. O latifúndio não tinha necessidade de restauração monárquica; aquele modelo de República servia perfeitamente aos seus interesses c até os disfarçava com a fachada e o formalismo democrático. No fundo, os senhores de terras continuavam a dominar o poder: o café, agora, fazia os presidentes. As inquietações perduravam, por isso, pontilhadas, aqui e ali, de episódios tristes: ao assistir o regresso da tropa que combatera em Canudos"¹ (grifos nossos)
As contradições dessa República, incapaz de resolver o problema da concentração de terras, geraram diversos movimentos camponeses, mais ou menos organizados. No caso específico de Canudos, o historiador Marco Antônio Villa reconstruiu a organização política, econômica e social do arraial.
Antônio Conselheiro era o chefe do povo e dispunha de uma força própria de segurança, a Guarda Católica, comandada por João Abade. Organizou-se também uma escola com a chegada da professora Maria Francisca de Vasconcelos, de 26 anos, formada na Escola Normal de Salvador — a rua onde morava passou a ser conhecida como “rua da professora”.
A moeda republicana não circulava no arraial, tampouco qualquer resquício monárquico:
“(...) o dinheiro não circulava em Canudos, e o existente era mantido em um cofre sob a responsabilidade de Antônio Vilanova que, para intercâmbio interno, emitia um vale. Com o passar dos anos, esse vale era também aceito nas cidades vizinhas, revelando não só a carência do meio circulante como também a importância da economia local para a região circunvizinha. É uma falácia afirmar que em Canudos só circulava dinheiro monárquico e que Antônio Conselheiro não tocava em dinheiro republicano: ele não pegava em dinheiro de nenhuma espécie"²
O fenômeno expandiu-se para cidades vizinhas, que passaram a aceitar os vales emitidos em Canudos, especialmente nas trocas ligadas à produção de carne e couro. Apesar disso, não há registros de formas assembleares de autogoverno; ao contrário, havia uma estrutura fortemente centralizada, vinculada à liderança religiosa de Antônio Conselheiro.
Ainda assim, o relativo desinteresse inicial das autoridades permitiu o crescimento do arraial como um poder paralelo. Com o tempo, porém, esse crescimento passou a ser visto como ameaça. Não pelo suposto fanatismo, mas pelo risco de expor as contradições da ordem republicana recém-estabelecida.
Nesse ponto, Clóvis Moura critica a ideia de que apenas movimentos com programas formais podem ser considerados políticos. Para ele, Canudos foi excluído da história justamente por não se encaixar nos modelos europeus. Moura sustenta que todo movimento que busca transformação social é, necessariamente, político — ainda que seus participantes não formulem essa consciência teoricamente. Como afirma Karl Marx:
“(...) não haverá jamais movimento político que não seja social ao mesmo tempo. Não será senão numa ordem de coisas na qual não haja mais classes e antagonismo de classes, que as evoluções sociais deixarão de ser revoluções políticas”³
Ou seja, os chamados “fanáticos” de Canudos desafiaram o poder estabelecido — neste caso, o Estado republicano militar, que preservava os interesses dos grandes latifundiários. Como destaca Rui Facó:
"Ante o fenômeno Canudos, os senhores das classes dominantes e seus porta-vozes recusavam-se a acreditar na realidade: milhares de párias do campo armados em defesa da própria sobrevivência, em luta, ainda que espontânea, não consciente, contra a monstruosa e secular opressão latifundiária e semifeudal, violando abertamente o mais sagrado da todos os privilégios secularmente estabelecidos desde os começos da colonização européia no Brasil — o monopólio da terra nas mãos de uma minoria a explorar a imensa maioria. Era este o mais nefando dos crimes contra a ordem dominante..."
Crime que, como demonstra a história, não foi perdoado. O Exército empreendeu quatro expedições militares entre 1896 e 1897 contra cerca de 25 mil habitantes de Belo Monte. A primeira foi derrotada, desmoralizando as tropas e espalhando a fama da resistência sertaneja. Ainda assim, novas expedições foram organizadas, totalizando milhares de soldados e o uso de artilharia pesada contra a população.
A cena final do arraial, descrita por Euclides da Cunha, eternizou na mente a coragem do povo sertanejo, camponês, baiano e brasileiro!
Canudos nunca se rendeu!
Notas:
1 - SODRÉ, Nelson Werneck, História da Imprensa no Brasil, pág 265. Acessado em 14/03 - https://www.marxists.org/portugues/sodre/1966/mes/or404270.pdf
2- VILLA, Marco Antônio. Canudos — o campo em chamas, Ed. Brasiliense, SP, 1992,32.
3- MARX, K. Miséria da Filosofia, Ed. Rama, SP, 1946, pags. 156/57.






