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Caso Boaventura: Assédio Moral e Sexual na Universidade


Pichação no muro da Universidade de Coimbra, 2018.
Pichação no muro da Universidade de Coimbra, 2018.

“Um dia ele pediu para marcar uma reunião no apartamento dele. Colocou a mão na minha perna. Falou que as pessoas próximas dele tinham muita vantagem e sugeriu que a gente aprofundasse nossa relação.” Esta é uma fala da deputada brasileira Bella Gonçalves, em depoimento à Agência Pública em abril de 2023, referindo-se ao sociólogo Boaventura dos Santos, quando era sua doutoranda. A reunião em questão ocorreu em 2014. “Boaventura já era conhecido por condutas abusivas. Humilhava estudantes em público, xingava pesquisadoras, tinha posturas impróprias nas festas. Mas era diretor do centro. Eu sabia que nada aconteceria com ele”.


Sua denúncia foi a primeira a ser explícita com relação à vítima e ao assediador. Anteriormente, em março do mesmo ano, foi publicado o livro Má Condução Sexual na Academia (tradução livre), com 12 artigos [1]. No último, “As paredes falaram quando ninguém mais podia: Notas auto etnográficas sobre o poder sexual no controle de acesso dentro da academia de vanguarda” (tradução livre), são relatados casos de assédio na universidade, a partir de pichações em seus muros.


No relato, três ex-alunas da Universidade de Coimbra contam ter sofrido assédio de professores do mesmo Instituto. Sem citar nomes, denunciaram abusos de poder “contra jovens pesquisadoras que dependem de aprovação acadêmica para construir suas carreiras” e “extrativismo intelectual”, prática que consiste em explorar o trabalho intelectual de um pesquisador, publicando sua pesquisa sem lhe dar créditos de autoria. Junto a isso, é relatado assédio sexual por parte de um “professor estrela” e seu “aprendiz”. As pichações, que não tiveram seu conteúdo citado no artigo, diziam: “Fora Boaventura, todas sabemos!”


Bella relata que procurou ajuda de outros professores na época, inclusive professoras que pesquisavam feminismo. “Todos diziam que eu não era o primeiro caso. Lamentavam, mas não davam suporte ou saída”. Chegou a procurar ajuda com o professor auxiliar, Bruno Sena, sem saber àquela altura de sua cumplicidade, e foi orientada por ele a não denunciar. Sem encontrar nenhum canal de acolhimento na universidade, seja para realizar denúncia ou receber suporte psicológico, saiu do doutorado e voltou ao Brasil, abdicando de sua bolsa no exterior.


Posteriormente, conseguiu manter sua pesquisa vinculada à Universidade de Coimbra, mas com orientação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Sem obter suporte do Capes (Centro de Apoio a Pesquisa) para manter a bolsa, arcou do próprio bolso para restituir os valores recebidos como bolsista. Abandonar o doutorado no segundo ano significava não só perder a bolsa, mas devolver todo o valor recebido. “Ali identifiquei que você poderia ter vantagens por estabelecer relações afetivas e sexuais com professores. Mas, se você se nega, é punida por isso.”


Ainda em abril de 2023, novas denúncias se juntaram a de Bella. Uma carta intitulada: “Não é Difamação. Não é Vingança. Sempre foi Assédio.” foi publicada pelo Coletivo de Vítimas CES, da Universidade de Coimbra, composto por 10 pesquisadoras, que trabalharam com Boaventura. O uso de cartas abertas foi o método que o coletivo encontrou de se comunicar com a instituição e o público em geral ao mesmo tempo. Em trecho da carta diz: “reunimos testemunhos e provas que corroboram as práticas descritas no artigo ‘As paredes falaram quando mais ninguém podia’, nomeadamente exemplos de extrativismo intelectual; assédio sexual, com retaliação e assédio moral em decorrência da negativa ao avanço sexual; e reprodução e manutenção de ambiente tóxico nas equipes de trabalho, por parte de Boaventura de Sousa Santos.”


Em entrevista ao portal El Salto, de abril de 2023, a ativista mapuche Moira Millán relata uma tentativa de estupro feita por Boaventura. Na ocasião de uma palestra para seus alunos em Coimbra, Boaventura a convida para jantar, por meio de sua assessoria, que insistiu, mesmo com a recusa de Moira. Ao chegar ao restaurante, Moira diz serem os únicos clientes do estabelecimento e conforme bebia, Boaventura fazia comentários inapropriados, buscando flertar. Ao sugerir a entrega de livros, insistiu que os buscassem em sua casa naquela noite, recusando a proposta de Moira de lhe ser entregue no dia seguinte.


“Entramos no apartamento, ele se acomodou e começou a beber uísque. Eu queria ir embora, mas ele me pediu para sentar. Eu fiz isso, mas na frente dele. Ao fazê-lo, ele se lançou sobre mim e começou a me apalpar, querer me beijar e EU o empurrei e indignada lhe disse ‘Não!’ Eu me irritei, fiquei parada, mas ele se jogou em cima de mim de novo e ali eu, muito brava, o empurrei com mais força: EU tinha clareza de que não ia me deixar estuprar nem que fosse Boaventura.”


Após chegar a Lisboa, Moira relatou o que passou “(...) me disseram para não mexer com ele, que a direita ia explorar esse fato porque ele era o guru da esquerda num momento muito delicado de Portugal. Mas um estuprador de esquerda comete menos danos do que se for um estuprador de direita?”. Ao denunciar o caso para o Conselho Latino Americano de Ciências Sociais (Clacso), diz que ‘Têm me ligado individualmente e me dito que, por enquanto, não vão contrariá-lo. Penso que o que falta aqui é uma posição política categórica.” Não houve nenhum posicionamento público a respeito do caso por parte da Clacso, mesmo que intelectuais latino americanas tenham sido vítimas de assédio e abuso.


Coletivo de Vítimas


A partir da carta pública do Coletivo de Vítimas, uma Comissão Independente (CI) foi instaurada pelo CES para analisar as denúncias e em setembro de 2023, um dossiê de 213 páginas foi entregue pelo coletivo à CI contendo denúncias de 10 pesquisadoras, com 18 testemunhas disponíveis, com relatos pormenorizados de práticas de assédio e abuso sexual, assédio moral e extrativismo intelectual, alegando haver uma estrutura sistemática em torno destas práticas.


Boaventura se afastou de seu cargo de diretor do CES no final de 2023, alegando querer permitir que a CI tenha total liberdade para a investigação - mas também evitando ser afastado. A Comissão Independente torna público seu relatório no final de março de 2024, reconhecendo haver uma prática sistemática de abusos e assédios na instituição, algo saudado pelo coletivo de vítimas como uma vitória, no entanto, o coletivo faz ressalvas importantes. Apesar da CI reconhecer ter havido práticas de assédio e abuso sistemáticas, não indicou a direção do CES nenhuma punição ou sanção a nenhum dos denunciados. A partir disso, nenhum comprometimento concreto com o combate a essas práticas foi realizado.


O reconhecimento da estrutura de abuso e assédio é uma vitória contra a negação das denúncias e a tentativa de desmoralização das vítimas, no entanto mesmo isso não foi explicitamente alegado pelo relatório. É um reconhecimento importante para futuros desdobramentos jurídicos e de proteção às vítimas, porém do ponto de vista do CES, retrata a falta de comprometimento real com a defesa das vítimas, uma vez que o próprio Boaventura segue em uma campanha de difamação contra suas vítimas e em 2025 entrou com um processo contra elas por calúnia.


O Coletivo de Vítimas, em carta publicada no final de março de 2024, como resposta ao relatório do CI, reivindica que Boaventura seja oficialmente demitido pelo CES e que os demais denunciados sofram punições e sanções administrativas condizentes com a gravidade de seus atos, bem como que seus contratos não sejam renovados. Desde então, até a data da publicação desta matéria, nenhuma posição do CES a respeito.


A Resposta de Boaventura


Enquanto isso, Boaventura segue impulsionando sua campanha de difamação. Em carta publicada pelo mesmo portal que publicou a entrevista com Moira Millian, Boaventura usa seu direito de resposta. Sua resposta é negar categoricamente que Moira sequer esteve em seu apartamento e que não teve nenhum tipo de conduta inadequada no restaurante ou no dia seguinte. A mesma resposta dada a respeito de todas as denúncias feitas até então, apenas assumindo eventuais atitudes inadequadas, porém dizendo terem sido “inofensivas”.


Em entrevista, Boaventura se defendeu dizendo que “qualquer homem da minha idade que diga que nos anos 60 ou 70 não fez um piropo ou um galanteio a uma mulher ou é mentiroso e hipócrita” e ataca as vítimas: “São vendedoras de trauma”. Pois bem, acaso existe alguma honestidade em um intelectual que minimiza a violência que causou, a nega, ataca as vítimas e na medida que reconhece sua prática assediosa, o faz em abstrato e a justifica como cultural? Será que considera sua autoridade intelectual condição que lhe permita recorrer ao cinismo de uma negação simples, para obter razão sobre a denúncia de uma tentativa de estupro e sobre as denúncias de assédio de outras 11 pesquisadoras?


Em agosto de 2025, Boaventura lançou um site chamado “Support Boaventura dos Santos”, onde publica uma carta em sua defesa, assinada por 200 figuras públicas, intelectuais e pesquisadores, denunciando ter sofrido “cancelamento” de maneira injusta e divulga um dossiê das 10 signatárias da carta de denúncia, Bella e Moira, contendo informações pessoais, alegando com isso provar ser mentira suas denúncias. Na verdade, reúne provas inúteis sobre elementos secundários nos testemunhos. Apenas expõe suas vítimas, parecendo mais como uma retaliação, enquanto com relação aos atos de assédio e tentativa de estupro, não apresenta prova alguma, senão repetir sua negação.


Até a data desta publicação, Boaventura já havia aberto um processo de difamação contra as 4 pesquisadoras do Coletivo que estão em solo português. Em sua carta, reclama ser uma irresponsabilidade reproduzir falas sem evidências, configurando calúnia. Nesta tribuna, Sr. Boaventura, optamos por dar razão às alegações substanciais de 12 mulheres contra a palavra de um homem - testemunho também é evidência. Pode ser que não seja um método condizente com o direito burguês, mas isso também não é nenhuma surpresa e atesta mais contra o direito burguês, do que contra o juízo daqueles que tomam 12 depoimentos de assédio como verdadeiros. Ainda mais considerando que nem com todos os esforços do acusado, produzindo um site com dossiês de cada denunciante, se conseguiu gerar qualquer incoerência nas denúncias.


Oportunismo e a Falsa Defesa dos Oprimidos


Um questionamento está presente nos relatos das vítimas de Boaventura: como um militante de esquerda, defensor dos povos oprimidos, pode ter uma prática tão avessa a seu próprio discurso? Nenhuma pessoa está precavida de cometer erros ou crimes por conta de uma base ideológica que se oponha a essas práticas, justamente por não ser suficiente dizer: é necessário praticar. Aos que defendem as ideias e não as praticam, é necessário as mais duras críticas.


Mas há aqueles, que não à toa, não praticam o que defendem. Nunca foram, na verdade, defensores do que dizem, ou o que dizem não corresponde a nenhuma defesa de fato. Seus erros são sistemáticos e reiterados. A esses chamamos de oportunistas. Desde Lênin, se falava destes. Vestem-se de vermelho, mas não passam de aproveitadores. Em Estado e Revolução, Lênin fala: “Quando se fala da luta contra o oportunismo é preciso não esquecer nunca um traço característico de todo o oportunismo contemporâneo em todos os domínios: o seu carácter vago, dissimulado, a sua falta de frontalidade".


Se qualquer denúncia a Boaventura servir para municiar a direita, isso é de inteira responsabilidade do próprio, traidor que é do que diz defender e do campo popular que se diz participar. Para aqueles que lamentam a conduta de alguém que foi considerado aliado, é importante ressaltar os próprios limites teóricos e políticos da trajetória de Boaventura. Enquanto defensor da pós-modernidade, pôs sempre no centro das contradições de nosso tempo questões epistemológicas, desvinculadas de qualquer prática transformadora.


Resume o conhecimento socialmente produzido no mundo à divisão norte e sul, ocidente e oriente, reivindicando ser necessário dar voz às epistemologias marginalizadas, particularmente às do sul. Ainda que existam distinções no conhecimento socialmente produzido sob estes referenciais geográficos, estas não são a régua definitiva para diferenciar um conhecimento progressista de um conservador, emancipador ou opressor. Ao fazer isso, negligencia-se a divisão de classes e ignora-se que, seja no sul ou no oriente, existe uma classe dominante burguesa, com uma intelectualidade que a serve ou que não é capaz de combatê-la. Em resumo, o critério para se atestar que um discurso serve à emancipação dos povos oprimidos é a medida que sua teoria se converte em ação transformadora real. Boaventura reconhece o capitalismo como estrutura econômica opressiva, mas nunca propôs nenhuma transformação objetiva factível, não à toa nega a necessidade de uma prática revolucionária.


Assim, uma vez que sua teoria nunca se relacionou com um compromisso político e prático real de luta contra a opressão, não é de se surpreender que sua prática social seja tão contraditória com seu discurso teórico. Resta perguntar a Boaventura e seus apoiadores, por que afinal estas mulheres mentiriam, abrindo mão de carreiras, salários e proteção institucional?


Aqui, a lógica serve apenas para esclarecer o que um juízo consciente de como o patriarcado funciona, já responde. Estruturado sobre uma base econômica, que permite o exercício do poder de homens sobre mulheres, protege abusadores e exploradores, fiéis escudeiros dos demais, conseguindo ainda submeter algumas mulheres à sua rede de legitimação da violência. Diante deste caso é explícito, com diversas evidências, o que se passa não só na academia, mas em todos os outros ambientes na sociedade: a subjugação feminina, onde direitos são convertidos em privilégios, mediados por submissão sexual.


A Luta Contra o Patriarcado é Parte Essencial da Luta de Classes


A universidade pública tem a potência de ser um espaço de produção científica, onde a presença de intelectuais progressistas e das classes trabalhadoras, em especial o proletariado, torna possível mobilizar a ciência junto a uma prática transformadora e revolucionária. Por isso a universidade tem também em sua estrutura a exclusão, fruto da luta de classes que está inserida. Para as classes dominantes, é preciso limitar esta potência, onde o assédio moral compõe os muros que expulsam a população em geral da academia, assim como o assédio sexual em particular expulsa as mulheres.


A isso corresponde a cumplicidade e ineficiência deliberada da Comissão Independente do CES, para combater as práticas de assédio de Boaventura, Bruno Sena e outros. Ainda que os desdobramentos desta luta ainda possam trazer novas vitórias para este caso, isto se dará principalmente pela persistência do coletivo de vítimas e do apoio recebido. Assim, caso comum e sistematizado nas universidades é a prática de assédio moral, exploração intelectual, constrangimento em caso de divergência e abuso de poder, o que permite um espaço fértil também para práticas de assédio e abuso sexual. Estes são sintomas da luta de classes e do uso da universidade para controle social e formação ideológica conservadora, luta que também se manifesta na hegemonia de escolas de pensamento e bases teóricas nas graduações e pós-graduações.


Por parte das classes populares, grupos sociais oprimidos e daqueles que os defendem, é preciso lutar pela sua permanência na universidade e pela produção de ideias que sirvam à luta contra a opressão racial e de gênero, como parte essencial da luta revolucionária pela emancipação de toda sociedade do capitalismo. A universidade é um lugar de disputa com um potencial enorme para as classes oprimidas, pois é um espaço onde se pode dedicar-se a refletir sobre a realidade social e ao mesmo tempo intervir. Não pode ser completamente destruída pelas classes dominantes, pois para a burguesia também é necessário formar ideologicamente sua casta burocrática e intelectual, porém lhe é perigosa na medida que este espaço promove pensamentos democráticos, populares, uma ideologia proletária e revolucionária. Não à toa fazem ser um espaço tão opressivo intelectualmente, com um peso financeiro para os mais pobres e excludente social e geograficamente.


Saudamos a coragem destas pesquisadoras e da ativista mapuche Moira Miller, em levar adiante suas denúncias tão persistentemente e sobretudo, de forma coletiva. Apoiamos as reivindicações do Coletivo de Vítimas - Academia sem Assédio. A mobilização destas mulheres deve ser tomada como exemplo. Quantas vítimas de assédio, abuso ou agressão, não já se sentiram desamparadas pelas instituições que as deveriam proteger? Uma autoridade ou mesmo um homem com uma rede de legitimação, pode ter poder e a curto prazo, pode assustar, mas contra pessoas (principalmente as próprias mulheres) bem organizadas e mobilizadas, tem tudo a perder.


Defender o direito de se estar em um espaço com segurança, é defender o próprio espaço. Para um estudante universitário, questionador e indignado como um cientista deve ser, combater autoridades abusivas é também parte de seu dever social e de sua honestidade intelectual. Ter conseguido entrar em um espaço potente, porém excludente, como esse, já é uma afronta a um sistema opressor, onde meramente existir é razão para ser atacado - e por isso também é uma responsabilidade. A auto defesa dos oprimidos, também contém a luta por roubar o fogo do conhecimento do Olimpo, entregá-lo a toda humanidade e com ele ajudar a queimar nossas correntes - assim como defender o direito das mulheres de fazê-lo sem serem violadas.



[1] Link para o artigo “As paredes falaram quando ninguém mais podia: Notas auto etnográficas sobre o poder sexual no controle de acesso dentro da academia de vanguarda”: https://apublica.org/wp-content/uploads/2023/04/Artigo_Deputada-brasileira-denuncia-assedio-sexual-de-Boaventura-durante-doutorado.pdf


Vaquinha para a defesa jurídica do Coletivo de Vítimas CES - Academia Sem Assédio: https://www.academiasemassedio.com/financiamento-funding


Site do Coletivo de Vítimas CES - Academia sem Assédio:


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