Irã: protestos populares ou provocação imperialista?
- Miguel Pereira
- há 15 horas
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Nas últimas semanas, o Irã tem sido palco de uma série de protestos, que os monopólios da imprensa pró-Estados Unidos logo tacharam de “em defesa da democracia”. Na verdade, o estopim das manifestações, segundo noticiado por diversos veículos, são o aumento do custo de vida e o desemprego que afligem a economia do país, medidas devidas em grande parte ao bloqueio e sabotagem implacáveis que lhe são impostos pelo imperialismo ianque e seus aliados. Trata-se de uma medida de guerra econômica, que visa desestabilizar o país no campo político e enfraquecer sua capacidade produtiva, antes que se produza uma agressão militar direta, a exemplo do que vimos no Iraque após a primeira guerra do Golfo e mais recentemente na Venezuela. Além disso, é imperioso destacar que estes protestos ocorrem apenas poucos meses após o bombardeamento do Irã pelo exército sionista de Israel e pelos ianques, ou seja, numa situação em que o país se encontra de fato em estado de guerra, contra a iminente renovação das hostilidades.
Portanto, neste contexto, não pode haver dúvidas de que as manifestações não são pró-direitos ou pró-democracia (categorias que o marxismo, ao contrário do liberalismo, não admite que sejam tratadas em abstrato) e sim pró-imperialistas, merecendo como tal a condenação mais enérgica dos verdadeiros patriotas e revolucionários iranianos e todos os consequentes internacionalistas. Basta mencionar que a assunção ao poder de um regime títere de Washington e Televiv em Teerã seria um golpe bastante duro para a resistência nacional palestina, libanesa e iemenita, ainda mais grave do que o que se verificou com a ascensão do HTS na Síria.
Entre cartazes escritos em inglês, como “Free Iran” (“Libertem o Irã”), e a prática sectária da queima de Hijabs, os protestos estão sendo marcados pela presença das bandeiras de Israel e dos EUA, mas, mais significante, muitos manifestantes têm usado a bandeira do Irã monárquico, pré-revolução islâmica de 1979 – na rede social X, a bandeira da república do Irã também foi substituída pela bandeira da Monarquia. O apoio e o surgimento da figura deplorável de Reza Palhavi, filho do Xá, chefe maior da antiga Dinastia Iraniana, que se posiciona como um porta-voz do movimento, reforça o caráter reacionário dos protestos e sua vinculação não com a extensão das liberdades democráticas iranianas mas com a restauração da monarquia corrupta e sanguinária. Além disso, a imprensa imperialista tem se valido de registros de protestos diante de embaixadas iranianas em países ocidentais, convocadas pela extrema-direita, para representar a “adesão popular” aos protestos.
Não é novidade que um dos grandes desejos de Donald Trump, desde o início de seu primeiro mandato, seja derrubar o regime iraniano, no intuito de ampliar a presença sionista-norte-americano na Ásia Ocidental. Em que pese suas limitações de classe, o regime nascido do levante popular de 1979 no Irã tem sido um obstáculo intransponível para a realização destes planos, como se viu na resposta digna e contundente das forças armadas deste país à agressão ao seu programa nuclear no ano de 2025, agressão que fracassou em seu intento fundamental, uma vez que avariou mas não destruiu a capacidade defensiva de Teerã.
É neste contexto, justamente após o fim das negociações sobre o programa nuclear iraniano, que os protestos começaram em várias cidades do Irã. Os protestos contam com participação ativa do serviço de inteligência sionista, o Mossad, que tem usado Inteligência artificial em robôs nas redes sociais para insuflar as manifestações, noticiado amplamente por monopólios de mídia como Al Jazeera e Spectador Index. Ontem (09), diversos vídeos circularam nas redes sociais mostrando homens fortemente armados, com treinamento muito semelhante ao do Mossad, nas ruas de Teerã, capital do Irã. Inclusive, a Starlink - empresa do neo-nazista Elon Musk – desde o começo dos eventos tem oferecido gratuitamente internet por satélite para a organização dos protestos. Além disso, tem impulsionado conteúdos falsos e as chamadas “DeepFakes” em várias redes sociais. Em resposta, segundo o Al Jazeera e a Reuters, o governo iraniano derrubou o sinal de Satélite em todo o país.
Desde o dia 29 de dezembro, data do início das manifestações, os EUA têm movimentado suprimentos e equipamentos militares para Israel, enquanto Trump tem ameaçado constantemente o país persa; ele afirmou, no dia 04 de janeiro: “Estamos observando bem a situação do Irã. Se houver mais assassinatos, iremos fazer Khamenei pagar caro”. O maior assassino do mundo, o bandido que para capturar ilegalmente a Maduro bombardeou áreas residenciais e ordenou a execução dos seus guarda-costas; o responsável por deportações em massa e prisões ilegais, além do assassinato de inúmeros ativistas no interior do seu próprio país, como Renee Nicole Good, brutalmente morta por agentes da polícia imigratória em Minessota. Apenas celerados ou ingênuos úteis podem repercutir que os seguidores de Hitler do século XXI possam defender os interesses populares!
É sempre possível que os serviços de informação imperialistas se utilizem de reivindicações das massas populares para mobilizá-las contra um governo que lhes seja desfavorável, o que também ocorre quando movimentos de massas seguem os políticos de extrema-direita. Isto prova, portanto, que a presença de base social num protesto não é razão suficiente para comprovar a sua justeza. Devemos caracterizar um movimento como popular, a rigor, pela natureza das suas reivindicações e o caráter das suas lideranças e não apenas pela adesão que ele possui. É preciso avaliar sempre a situação concreta e a situação concreta do Irã – ao contrário, por exemplo, do Nepal ou do Chile – é que ele se encontra em estado de guerra com o imperialismo ianque, que desatou desde a subida de Trump uma ofensiva militar (que não deixa de ser também ideológica, na medida em que visa pelo terror generalizar um sentimento de derrotismo e capitulação nas forças que se lhe opõe) para retardar o seu inevitável processo de crise hegemônica. Além disso, tudo indica que são também grandes as mobilizações no interior do país em repúdio às sanções dos Estados Unidos e à ingerência estrangeira, as duas pautas que neste momento devem unificar as massas populares iranianas e a solidariedade internacional a elas.






