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Cláudio Castro e o banqueiro Daniel Vorcaro: retrato de um sistema carcomido.


O banqueiro, o governador e o bife de ouro

O monopólio de mídia Globo News, da família Marinho, divulgou na última  semana documentos da investigação da Polícia Federal sobre o conluio entre o ex-governador do estado do Rio de Janeiro, Cláudio Castro e o banqueiro Daniel Vorcaro. As maracutaias entre os dois foram tramadas em reuniões que ocorreram em Nova Iorque no Estados Unidos, Palácio das  Laranjeiras no Rio e na mansão do banqueiro em São Paulo. Em jantares regados à garrafas de vinho, whisky escocês, champanhe e bifes folheados a ouro de 24 quilates ao custo de R$ 60 mil, negociava-se a aplicação do dinheiro de fundos de previdência dos servidores públicos do estado (Rioprevidência) e de empresas como a Companhia Estadual de Água e Esgotos (CEDAE/RJ).

De acordo com as investigações o total de investimentos do Rioprevidência no Banco Master somam R$ 3,69 bilhões. Esse dinheiro das contribuições suadas dos servidores públicos do estado do Rio de Janeiro foi usado pelo escroque Daniel Vorcaro no famigerado golpe da pirâmide financeira que afetou mais de 1,6 milhão de pessoas. Além do Rioprevidência, R$ 218 milhões da CEDAE foram aplicados no maior golpe financeiro da história do país.


Cláudio Castro: carreirismo, arrivismo e oportunismo

Igual a tantos outros membros da casta política, a trajetória de Cláudio Castro é baseada no carreirismo, arrivismo e oportunismo. O primeiro passo nesta escada é, na maioria das vezes, uma assessoria parlamentar. Ele foi durante mais de uma década chefe de gabinete do então deputado estadual Márcio Pacheco (que em 2022 foi nomeado conselheiro do TCE-RJ [1]). Em 2016, Castro foi eleito vereador no Rio de Janeiro pela legenda Partido Social Cristão (PSC). Em 2018 foi eleito vice-governador na chapa de Wilson Witzel. Com a cassação de Witzel, assumiu o governo do estado em maio de 2021. Foi reeleito governador do Rio em 2022, pela legenda Partido Liberal (PL) de Bolsonaro. Tem forte atuação religiosa como membro da seita neopentecostal denominada renovação carismática católica, atuando como cantor de “música gospel”.


Santo do pau oco

Em 2021, ainda como vice-governador, Cláudio Castro foi acusado de receber propina no valor de R$ 100 mil de uma empresa que tinha contratos com a Fundação Leão XIII. O rombo aos cofres públicos com o esquema de corrupção foi estimado em R$ 32 milhões à época [2]. Ainda em 2021, em plena crise da COVID-19, o Ministério Público abriu investigação contra Castro por fraude na compra de mais de um milhão de cestas básicas em contratos envolvendo, mais uma vez, a Fundação Leão XIII. O prejuízo no dinheiro que deveria servir ao povo chegou à R$ 3,4 milhões [3].

Em 2022 estourou o escândalo da folha de pagamento secreta no CEPERJ [4] e na UERJ [5]. De acordo com as denúncias um total de 45 mil pessoas foram contratadas em cargos temporários nas duas instituições, mas na prática atuaram como cabos eleitorais durante a farsa das eleições daquele ano. Mais de R$ 200 milhões foram sacados das contas do estado do Rio de Janeiro para viabilizar a reeleição de Cláudio Castro naquele ano [6, 7]. Devido a esse processo que poderia resultar em sua cassação, Castro renunciou ao cargo de governador do Rio de Janeiro no dia 23 de março de 2026. Não podendo ser cassado, no dia seguinte o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) o tornou inelegível por oito anos por abuso de poder político e econômico durante a farsa eleitoral de 2022 [8].

Em janeiro de 2024, a Polícia Federal identificou que entre os anos de 2017 e 2019, Cláudio Castro recebeu cerca de R$ 330 mil em propinas, incluindo 20 mil dólares que bancou uma viagem sua à Disney [9].

No dia 15 de maio de 2026, foi alvo da Operação Sem Refino da Polícia Federal que investiga um esquema de fraudes fiscais, evasão de recursos públicos e favorecimento ao grupo Refit (antiga refinaria de Manguinhos). Já no dia 26 de maio, a oitava fase da Operação Compliance Zero cumpriu 10 mandados de busca e apreensão na cobertura do condomínio de luxo onde vive na Barra da Tijuca. A partir dos celulares apreendidos é que veio à tona o conchavo entre Cláudio Castro e o banqueiro Daniel Vorcaro para transferir do fundo de previdência dos servidores públicos fluminenses.


A privatização da CEDAE

Dentro do saco de maldades de Cláudio Castro está a privatização da Companhia Estadual de Água e Esgotos (CEDAE/RJ), empresa pública que na época em que foi entregue ao capital estrangeiro era superavitária. A privatização da  CEDAE ocorreu em dois leilões em abril e dezembro de 2021, os blocos da empresa pública de água e esgoto foram arrematados por mais de R$ 27 bilhões. Com esse dinheiro Castro comprou 80 dos 92 prefeitos dos municípios fluminenses garantindo sua reeleição no 1º turno da farsa eleitoral de 2022 com quase 60% dos votos. Após Castro torrar o dinheiro da privatização da CEDAE, em 2024 o estado do Rio de Janeiro estava mergulhado em um déficit de quase R$ 9 bilhões e o governador de pires na mão implorava repactuar a dívida com a União no âmbito do Regime de Recuperação Fiscal. Na época se saiu com declarações como essa “se não avançarmos em um novo acordo (com o governo federal), o problema financeiro do Rio vai causar atraso de salário e fome no estado.”, chantagem que contrastava com o discurso que fazia em agosto de 2023 quando dizia estar “conseguindo pagar as parcelas da dívida com a União sem comprometer a prestação de serviços e o pagamento dos servidores” [10]. Falta óleo de peroba para tanta cara de pau!

O povo fluminense é quem vem pagando a conta da privatização da CEDAE com o comprometimento do acesso à água potável e ao saneamento básico, direito humano fundamental.


Mãos sujas de sangue

A gerência de Cláudio Castro foi marcada por chacinas policiais, dentre elas os massacres do Jacarezinho ocorrido em maio de 2021 com pelo menos 29 mortos, o da Vila Cruzeiro em maio de 2022 com pelo menos 26 mortos e o dos complexos da Penha e do Alemão com mais de 130 mortos em outubro de 2025, considerada a mais letal da história do estado.

Durante o período em que Castro esteve à frente do governo do Rio foram registradas 1.846 mortes nas chamadas “operações” policiais [11].


A farsa eleitoral de 2026

Mesmo após todo o histórico de falcatruas e crimes cometidos contra o povo, Cláudio Castro pleiteava disputar uma vaga no covil de canalhas do senado federal. A divulgação de suas conversas com o banqueiro Vorcaro fez com que ele desistisse de seu “projeto” eleitoral. Estão cotados, pela legenda PL, para ocuparem o lugar de Castro os deputados federais Sóstenes Cavalcante ou Carlos Jordy, duas escórias humanas tão empesteadas como Castro [12, 13]. 

A primeira resposta do povo à toda essa canalha é deixar bem clara sua indignação e revolta com a casta política votando nulo, branco ou não comparecendo  na farsa eleitoral de outubro próximo. Reunir as favelas, cortiços, comunidades, enfim a grande massa de trabalhadores para fazer o que o samba do Trio Calafrio [14] preconiza na obra-prima “Comunidade Carente” [15] eternizada na voz de Zeca Pagodinho:


“Eu moro numa comunidade carente

Lá ninguém liga prá gente

Nós vivemos muito mal

Mas esse ano nós estamos reunidos

Se algum candidato atrevido

For fazer promessas vai levar um pau


Vai levar um pau prá deixar de caô

E ser mais solidário

Nós somos carentes, não somos otários

Prá ouvir blá, blá, blá em cada eleição


Nós já preparamos vara de marmelo e arame farpado

cipó-camarão para dar no safado que for pedir voto na jurisdição

É que a galera já não tem mais saco prá aturar pilantra

Estamos com eles até a garganta

aguarde prá ver a nossa reação”


REFERÊNCIAS

[1] Tribunal de Contas do estado do Rio de Janeiro.

[4] Fundação Centro Estadual de Estatísticas, Pesquisas e Formação de Servidores Públicos do Rio de Janeiro

[5] Universdidade do Estado do Rio de Janeiro

[14] O Trio Calafrio formado por Barbeirinho do Jacarezinho, Luiz Grande e Marquinhos Diniz á pura tradução da essência do samba dos morros cariocas. Para saber um pouco mais: https://dicionariompb.com.br/grupo/trio-calafrio/

[15] JACAREZINHO, Barbeirinho do; GRANDE, Luiz; DINIZ, Marcos. Comunidade Carente. Intérprete: Zeca Pagodinho. In: PAGODINHO, Zeca. Deixa a vida me levar. Rio de Janeiro: Universal Music, 2002. Faixa 4.

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