top of page

Pelo fim da escala 6x1 com redução de jornada!


Foto: Elineuda Meira
Foto: Elineuda Meira

O fim da escala seis por um tem sido assunto em diferentes veículos de mídia, e ganhando apoio massivo da população brasileira. Com a exploração cada vez mais maior da força de trabalho dos trabalhadores brasileiros, principalmente pelo avanço da chamada uberização e desmonte das legislações trabalhistas, não é de se estranhar que a pauta fosse aderida praticamente pela totalidade da população. Em O Capital, Marx diz que há um limite físico para a jornada de trabalho¹. Marx argumenta que o corpo humano possui uma barreira biológica intransponível. O trabalhador precisa de tempo para recuperar a capacidade de trabalhar — sono, alimentação e higiene —. Mais que isso, existe também um limite moral para se considerar no tempo da jornada de trabalho, pois o homem não é uma máquina de produzir valor. É preciso haver tempo para convivência familiar e comunitária, cuidado com a saúde, educação e desenvolvimento intelectual, participação da vida política, desenvolvimento de hobbies pessoais. Mas no momento em que o capitalismo torna-se inviável e se expressa em forma de inúmeras crises que demonstram a impossibilidade de sua valorização contínua, é o trabalhador quem sofre as maiores consequências, quando o grau de exploração nega até suas necessidades mais elementares.  


Segundo a PNAD Contínua realizada em 2025, o setor que mais emprega no Brasil é o de comércio, e o comércio varejista representa 72,7% das contratações, concentrando mais de 7,7 milhões de trabalhadores formais. Os hipermercados e supermercados representam o maior empregador individual do varejo, devido à necessidade de grandes equipes operacionais — caixas, repositores, logística —, seguidos da área de vestuário, artigos farmacêuticos e cosméticos. E nesse setor encontram-se os níveis mais altos de exploração, com salários baixíssimos, muito inferiores ao nível de produtividade dos trabalhadores. Além disso, as principais queixas de quem é do ramo são: saúde mental e esgotamento,  jornada exaustiva em tempo e intensidade de trabalho e alta rotatividade. É muito comum ver esses trabalhadores dizendo que sentem que "vivem para o comércio", sem tempo para lazer, família ou estudos. A cobrança agressiva por vendas, metas e o monitoramento rígido de pausas e produtividade também são apontados como a causa do estresse crônico e a deterioração da saúde mental dessas pessoas. O exemplo clássico é o das caixas de supermercado que encontram dificuldades até mesmo de serem rendidas para ir ao banheiro, para atender a uma urgência de natureza biológica.  


Atualmente no Brasil o limite legal de tempo de trabalho é de 44 horas semanais. Uma das propostas legislativas mais discutidas é a PEC das 36 horas, ou seja, da redução de 44 para 36 horas semanais de trabalho. A lei pretende alterar o Artigo 7º da Constituição Federal, fazendo com que a redução para 36 horas semanais torne inviável a escala 6x1, forçando os empregadores a adotar modelos como os da escala 5x2  — trabalhar cinco dias e folga dois —, e ainda determina a manutenção salarial, ou seja, fica proibido a redução de salários em consequência da redução de horas trabalhadas. Entretanto, na esfera institucional da luta de classes, o ministro do trabalho Luiz Marinho defendeu, ao lado dos empresários contratantes, os textos que elaboram um regime de transição para inicialmente 40 horas semanais e, a cada ano, durante quatro anos, a redução de uma hora de trabalho até chegar na proposta de 36 horas semanais.  Segundo o empresariado, o impacto da suposta transição brusca para 36 horas poderia resultar em pressão de custos e causar um malefício sistêmico dentro da economia. 


Além da escala de 44 horas semanais, ainda existe a faixa horária perdida nos constantes engarrafamentos, dentro do transporte público, a fim de chegar ao local de trabalho, segundo informações disponibilizadas no CENSO 2022, 1,3 milhão de brasileiros leva mais de duas horas no seu deslocamento, podendo chegar em 14 horas semanais perdidas no trânsito, 30 dias em um ano, outro ponto levantado é do trabalho invisível e não remunerado feito em casa, o único dia de descanso é dedicado para atividades de limpeza e alimentação. 


O argumento se desenvolve da seguinte forma: para manter o mesmo ritmo de funcionamento, as empresas precisarão contratar mais trabalhadores para cobrir as folgas adicionais, o que faria aumentar o custo unitário do trabalho e os encargos sociais sem um aumento correspondente na produtividade. Como o planejamento de custos dessas empresas não seriam flexíveis a curto prazo, haveria a necessidade de um tempo para que pudessem incorporar os custos adicionais de contratação sem que houvesse dano a empresa. Mas esse é claramente um argumento da burguesia, pois é sabido que na economia, nada opera de maneira isolada e sim sistêmica, incluindo diversos fatores. Um contra argumento é de que um aumento da contratação de trabalhadores para cobrir o efeito da mudança de escala pagaria mais salários, faria circular mais renda na economia e consequentemente aumentaria o consumo e a demanda desses próprios empresários, gerando um efeito de bem estar social global. Com mais tempo livre os trabalhadores poderiam se dedicar ao lazer, e consequentemente, consumiriam mais. E claro que nenhuma dessas medidas se sustenta de maneira isolada, dependem de um conjunto de políticas que as sustentem, mas servem de exemplo para demonstrar o viés em prol da classe dominante.  


Por fim, a redução da jornada de trabalho não pode estar atrelada a efeitos econômicos como seu principal determinante, mas pela luta por vida com construção de sentido, que considere as múltiplas dimensões humanas como criar, amar, ter direito ao descanso, ao ócio, se dedicar à espiritualidade. Em países onde a redução tem sido implementada, os efeitos positivos na saúde dos trabalhadores são visíveis. Na  Islândia, onde a jornada foi reduzida de 40 para 35 horas semanais, a produtividade se manteve estável ou aumentou. O bem-estar dos funcionários disparou, com redução drástica de burnout e estresse. Hoje, cerca de 86% da força de trabalho islandesa tem direito a jornadas reduzidas. Na experiência do Reino Unido, um estudo que definiu uma semana de “quatro dias”, notou como resultado uma queda de 65% nos dias de licença médica e a receita das empresas cresceu, em média, 1,4% durante o período. O Japão, exemplo histórico da cultura do trabalho excessivo e das consequências psicológicas disso, resolveu fazer um experimento pontual de uma semana com quatro dias trabalhados e relatou um aumento de 40% na produtividade. No entanto, a adesão cultural ainda é lenta. muitos funcionários sentem culpa por trabalhar menos que os colegas ou temem a desaprovação da chefia. 


Desejando que tenha ficado claro com o texto a caracterização dos lados, e que toda luta de classes é uma luta política, pode se concluir que a luta pela redução da jornada não é apenas por descanso, mas uma luta pelo controle do tempo de vida e contra a essência da exploração capitalista, apropriação de trabalho não pago. Em O capital, ao falar da  Lei das dez horas — ten hours act —², aprovada em 1847 na Inglaterra, que limitou o trabalho de mulheres e jovens entre treze e dezoito anos a 10 horas por dia em fábricas têxteis, Marx identificou uma das maiores vitórias da da classe trabalhadora sobre a burguesia no período. A luta pelo reconhecimento dos interesses operários  — a jornada de 10 horas — foi um passo crucial para a organização do proletariado, e uma oportunidade de utilizar os conflitos e divisões internas da burguesia e tensiona-los ainda mais, visando a conquista mais ampla da emancipação. As vitórias não são efêmeras quando conseguem organizar a classe trabalhadora, e fica clara a potência de organização no sentido comum que a pauta sobre o fim da escala 6x1 produz na sociedade brasileira! 

 

Notas: 

1 -  "Por outro lado, o limite máximo da jornada de trabalho é determinado de modo duplo. Primeiro, pelo limite físico da força de trabalho. Um homem só pode despender, durante o dia natural de 24 horas, uma determinada quantidade de força vital. (...) Durante uma parte do dia, a força tem de descansar, dormir; durante outra parte do dia, o homem tem de satisfazer outras necessidades físicas, de se alimentar, de se limpar, de se vestir etc."  - Marx, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013, p. 306. 


2 - "De tempos em tempos os operários triunfam, mas é um triunfo efêmero. O verdadeiro resultado de suas lutas não é o êxito imediato, mas a união cada vez mais ampla dos operários. [...] Essa organização dos proletários em classe e, desse modo, em partido político, é rompida a cada momento pela concorrência entre os próprios operários. Mas renasce sempre, mais forte, mais sólida, mais poderosa. Ela obriga o reconhecimento de interesses particulares dos operários em forma de lei, aproveitando-se das divisões internas da burguesia. É assim que surge a lei da jornada de dez horas na Inglaterra." - Marx, Karl; Engels, Friedrich. Manifesto Comunista. São Paulo: Boitempo, 1998, p. 

48. 


Referências: 


Marx, Karl. O Capital: crítica da economia política. Livro I: o processo de produção do capital. São Paulo: Boitempo, 2013, p. 306. 


MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do Partido Comunista. Tradução de Álvaro Pina. 1. ed. rev. São Paulo: Boitempo, 1998. (Coleção Marx-Engels). 

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Tabela 5434: Pessoas de 14 anos ou mais de idade, ocupadas na semana de referência, por grupos de atividade e posição na ocupação no trabalho principal (PNAD Contínua). Rio de Janeiro: SIDRA, 2026. Disponível em: https://sidra.ibge.gov.br/tabela/5434. Acesso: 3 fevereiro. 2026. 

 

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA (IBGE). Censo 2022: Como a população se desloca para estudar e trabalhar?. 

https://educa.ibge.gov.br/jovens/materias-especiais/23064-censo-2022-como-a-popu lacao-se-desloca-para-estudar-e-trabalhar.html#subtitulo-2 

Assine nossa newsletter

Receba em primeira mão as notícias em seu e-mail

Seu e-mail
Assinar
bottom of page