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PRÉVIA "Cores da Jaula, uma memória da Prisão" por Arun Ferreira em português

 “Quem dormiu no chão deve lembrar-se disto, impor-se disciplina, sentar-se em cadeiras duras, escrever em tábuas estreitas. Escreverá talvez asperezas, mas é delas que a vida é feita: inútil negá-las, contorná-las, envolvê-las em gaze”. Graciliano Ramos, Memórias do Cárcere
Arun Ferreira, advogado de direitos humanos, ativista e cartunista lançou em 2014 seu livro
Arun Ferreira, advogado de direitos humanos, ativista e cartunista lançou em 2014 seu livro

"Colors of the Cage"* é um relato forte e cru como deve ser da prisão que conta como a tortura é presente desde o primeiro momento, quando o autor fica 11 horas sem registro sendo espancado e sofrendo ameaças de morte, o que os policiais utilizariam depois para categorizar no seu processo como falso confronto. O livro do advogado, cartunista e ativista Arun Ferreira conta a história da sua prisão em 2007, acusado de ser chefe de propaganda do Partido Comunista da Índia (Maoista) dentro da Lei de Atividades Ilícitas (Prevenção), que permitia a prisão - e consequente tortura - de qualquer cidadão sob o pretexto de ligação com o movimento naxalita. O estado indiano nunca conseguiu provar sua acusação. E sua escrita é mais do que um relato da aspereza que viveu, mas de como sobreviver a essa etapa real e, em alguns casos, inescapável da vida de um revolucionário. Após sete anos de sua prisão e de outras acusações, Ferreira se dedicou a escrever o livro.


O seu caso foi derrubado pela Suprema Corte Indiana em 2010 por considerar os "testes" (tortura com soro da verdade e mecanismos falhos como teste da mentira) que foram feitos contra ele como como inconstitucionais. Além da tortura física, Arun foi submetido a diversos testes - do tipo inventados nas masmorras - para retirar de si uma confissão, que não saiu nem sob drogas e choques. O máximo que conseguiram foi sua defesa da violência revolucionária, o que foi declarado como vínculo insuficiente. A acusação da polícia de Nagpur o declarou chefe da propaganda porque Arun tinha um pen drive consigo no momento da prisão, ele foi preso e solto diversas vezes desde então sob o mesmo pretexto e hoje atua como advogado de direitos humanos dos presos políticos.


Este primeiro capítulo estabelece um relato detalhado e brutal da detenção arbitrária, tortura sistemática, manipulação judicial e prisão desumana, criticando não apenas indivíduos, mas a estrutura do sistema policial, prisional e jurídico que permite e normaliza tais abusos sob o pretexto de combate ao terrorismo. O título "Hauladi n° 3479" reduz o autor a um número, destacando a desumanização do processo.


O seu detalhamento do que é o dia a dia da prisão é mais do que um relato da tragédia, mas de perseverança e lealdade mesmo diante das mais brutais tentativas de quebrar a relação do indivíduo com sua causa, no seu caso, a de uma nova Índia.


Este é o primeiro capítulo de um livro que será publicado integralmente na nossa Editora.


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Capítulo 1

Hauladi nº 3479


Segunda-feira, 13 de agosto de 2007

Oi, imagino que uma carta minha já fosse esperada há muito tempo. Tenho muitas coisas para escrever, mas ainda preciso me familiarizar com as regras e procedimentos daqui. Recebi seus cartões-postais e ordens de pagamento. Com o dinheiro que você envia, posso retirar um valor equivalente em “cupons”. Esses cupons, disponíveis nos valores de 1, 2, 5 e 10, são a moeda usada aqui, e eu os troco por itens essenciais como lanches e produtos de higiene na cantina. Sugiro que você não faça muitas viagens para me visitar. Isso seria desperdício de tempo e dinheiro.


Atualmente estou alojado em um recinto que possui duas seções contendo várias celas em cada uma. Eu e as pessoas que foram presas comigo somos os únicos detentos mantidos em uma das seções. Algumas celas foram esvaziadas, isto é, os presos foram transferidos para outros lugares, para garantir que apenas nós ficássemos nessa seção. Esse recinto é infamemente chamado de anda.


Os barracões anda¹são um conjunto de celas sem janelas encostadas em um alto muro oval de perímetro, uma zona de segurança máxima dentro das já rígidas instalações da Prisão Central de Nagpur. Para chegar à maioria das celas a partir da entrada do anda, é preciso atravessar cinco pesados portões de ferro, seguindo por um labirinto de corredores e passagens. Existem vários compartimentos distintos dentro do anda, cada um com algumas celas, e cada cela cuidadosamente isolada das demais. Pouca luz entra nas celas. Você não consegue ver nada do lado de fora: nem vegetação, nem céu. Há uma torre de vigilância no centro do anda e, vista de cima, a área realmente deve parecer um enorme ovo de concreto hermeticamente fechado. Mas existe uma diferença vital. É impossível escapar do anda. Na verdade, ele foi projetado para quebrar os presos.


O anda é o lugar onde os prisioneiros mais indisciplinados são confinados, como punição por violarem regras disciplinares. As outras partes da prisão de Nagpur não são tão severas. A maioria dos presos fica alojada em barracões com ventiladores e televisão. Nos barracões, as horas do dia podem ser relativamente tranquilas, até confortáveis. Mas no anda, a única ventilação vem do portão da cela e mesmo isso não oferece muito alívio, porque ele se abre para um corredor coberto, não para um pátio aberto.


Mas mais do que a arquitetura brutal e claustrofóbica do anda, é a ausência de contato humano que sufoca você. No anda, passa-se quinze horas ou mais sozinho na cela. As únicas pessoas que você vê regularmente são os guardas. Ocasionalmente, consegue vislumbrar outros detentos da sua seção. É uma situação criada para colocar até o indivíduo mais forte sob enorme tensão. Algumas semanas no anda podem causar um colapso psicológico. Os horrores do anda são bem conhecidos pelos presos da prisão de Nagpur, e eles prefeririam enfrentar as piores surras a serem banidos para esse pátio.


Mas eu não era um prisioneiro comum. Eu era um “temido naxalita”, um “líder maoísta”: descrições que apareceram nos jornais na manhã seguinte à minha prisão, em 8 de maio de 2007. Enquanto a maioria dos presos passa apenas algumas semanas no anda ou em seu equivalente, o pátio phasi — destinado aos condenados à morte —, esses seriam os lugares onde eu passaria todos os 4 anos e 8 meses da minha permanência na prisão de Nagpur.


Era uma típica tarde quente de verão em Nagpur quando fui preso na estação ferroviária. Eu esperava encontrar alguns ativistas sociais quando cerca de quinze homens me cercaram. Alguns deles me empurraram para dentro de um carro que arrancou em alta velocidade. Fui chutado e socado durante todo o trajeto. Após cinco minutos, o carro parou e fui levado para uma sala no primeiro andar de um prédio que, mais tarde, meus sequestradores disseram ser o Gymkhana da Polícia de Nagpur. Pelas conversas deles, ficou evidente que eu havia sido detido pela Célula Anti-Naxal da polícia de Nagpur. Eles amarraram minhas mãos com meu cinto e vendaram meus olhos para que os oficiais envolvidos na operação permanecessem sem identificação.


“Maar dalo saale ko. Encounter mein usse khatam karo”, gritavam, ameaçando me matar em um “confronto”, ou execução extrajudicial, um blefe que a polícia usa rotineiramente para assustar pessoas detidas.


Eu podia ouvir gritos vindos da sala ao lado. Outra pessoa também estava sendo espancada. Os golpes eram intercalados por perguntas e promessas. “Sach sach bolo to chhoda jayega” (“Se disser a verdade, será libertado”). O homem nem sequer recebia a chance de responder antes que eu ouvisse outro grito.


Durante o dia inteiro fui açoitado com cintos, chutado e esbofeteado enquanto tentavam me amolecer para os interrogatórios que viriam depois. Eles estavam especialmente irritados porque ninguém atendia o telefone na minha casa em Mumbai e presumiram que eu havia fornecido um endereço falso. Na verdade, minha família estava viajando. Mas como eu poderia explicar isso a pessoas que apenas queriam me espancar brutalmente?


Eu tinha medo de que me matassem. Até aquele momento, não havia nada oficial na minha detenção. Eles não haviam mostrado mandado algum, nem eu tinha sido levado a uma delegacia. Temia que a polícia pudesse me assassinar e fingir que eu havia morrido em um confronto. Eu havia lido sobre muitos casos em que a polícia alegava não ter tido outra opção senão abrir fogo quando suspeitos resistiam à prisão. Sabia que a Comissão Nacional de Direitos Humanos havia registrado trinta e um casos de falsos confrontos fatais apenas em Maharashtra nos cinco anos anteriores. A tortura física, embora dolorosa, parecia relativamente leve diante dessa possibilidade.


À meia-noite, onze horas após minha detenção, fui levado a uma delegacia e informado de que havia sido preso sob a Lei de Atividades Ilícitas (Prevenção), de 2004, aplicada a pessoas que o Estado classifica como terroristas. Passei aquela noite em uma cela úmida na delegacia. Minha cama era um cobertor preto de cheiro nauseante, tão sujo que nem sua cor escura conseguia esconder a imundície. Um buraco no chão servia de mictório. Era identificado pela massa de manchas de paan ao redor e pelo odor acre.


Finalmente me serviram uma refeição: dal, rotis e insultos. Não era fácil comer de um saco plástico com a mandíbula dolorida pelas pancadas recebidas mais cedo naquele dia. A única solução, aprendi, era amolecer os rotis mergulhando-os no saco de dal. Mas depois dos horrores que eu havia enfrentado, essas tribulações eram relativamente insignificantes e me permitiram um breve momento para recuperar o controle. Consegui ignorar o colchão pútrido, o ar úmido e as dores no corpo e acabei cochilando.


Em poucas horas, fui acordado para mais uma rodada de interrogatórios. Os oficiais pareciam educados no início, mas rapidamente recorreram à violência numa tentativa de me fazer fornecer as respostas que procuravam. Queriam que eu revelasse a localização de um depósito de armas e explosivos ou informações sobre minhas supostas ligações com os maoístas. Para me tornar mais suscetível às suas exigências, esticaram completamente meu corpo usando uma versão atualizada da técnica medieval de tortura conhecida como esquartejamento por tração (embora sem o esquartejamento em si). Meus braços foram amarrados a uma grade de janela bem acima do chão enquanto dois policiais ficavam em pé sobre minhas coxas esticadas para me manter preso ao piso. Isso foi calculado para causar o máximo de dor sem deixar ferimentos visíveis. Apesar dessas precauções, meus ouvidos começaram a sangrar e minha mandíbula começou a inchar.


À noite, fui forçado a ficar agachado no chão com um capuz preto sobre a cabeça enquanto um grupo de oficiais posava atrás de mim para fotografias da imprensa. No dia seguinte, eu descobriria que aquelas imagens haviam estampado as capas dos jornais de todo o país. À imprensa foi dito que eu era o chefe de comunicações e propaganda do Partido Maoísta.


Em seguida, fui apresentado diante de um magistrado. Como todos os estudantes de direito sabem, essa medida foi introduzida no procedimento legal para dar aos detidos a oportunidade de denunciar tortura sob custódia — algo que eu poderia comprovar facilmente, já que meu rosto estava inchado, meus ouvidos sangravam e as solas dos meus pés estavam tão doloridas que era impossível caminhar. Mas, pelas deliberações no tribunal, percebi que a polícia já havia explicado meus ferimentos na história inventada sobre minha prisão. Na versão deles, eu havia lutado violentamente contra a polícia para evitar ser capturado. Alegavam que não tiveram outra escolha senão usar força para me dominar. Estranhamente, nenhum dos meus captores parecia ter se machucado durante a suposta luta.


Essa não foi a única surpresa. No tribunal, a polícia afirmou que eu havia sido preso na companhia de outras três pessoas — Dhanendra Bhurule, jornalista de um diário em marata chamado Deshonnati; Naresh Bansod, presidente distrital de Gondia da Maharashtra Andhashraddha Nirmulan Samiti (Comitê de Erradicação da Superstição de Maharashtra); e Ashok Reddy, ex-organizador sindical de Andhra Pradesh. A polícia alegou ter apreendido uma pistola e munições com Ashok Reddy e um pen drive contendo literatura sediciosa comigo. Disseram que estávamos reunidos para elaborar um plano de explodir o monumento de Deekshabhoomi, em Nagpur. Esse é o local onde o líder dalit Dr. Bhimrao Ambedkar e mais de 300 mil seguidores converteram-se ao budismo em outubro de 1956, buscando libertar-se do sistema opressor de castas do hinduísmo. Ao fabricar uma conspiração mostrando que esquerdistas planejavam atacar o sagrado memorial de Ambedkar, a polícia claramente tentava criar uma divisão entre dalits e naxalitas.


Mas simples acusações não seriam suficientes. Eles precisavam criar provas para sustentar suas alegações. A polícia informou ao tribunal que precisava nos manter sob custódia por doze dias para nos interrogar. Enquanto Dhanendra Bhurule e eu fomos mantidos na delegacia de Sitabuldi, em Nagpur, os outros dois foram levados para a delegacia de Dhantoli. Dhantoli era a delegacia em Nagpur onde o caso havia sido oficialmente registrado. Duas ou três vezes por dia, um policial vinha até minha cela para preencher os registros oficiais:


“Naam? Baap ka naam? Pata? Dhanda?”(“Nome? Nome do pai? Endereço? Ocupação?”)

Enquanto ele seguia a rotina com o homem da cela ao lado, percebi que ela era ocupada por Bhurule, o jornalista de Gondia acusado no mesmo caso que eu. Começamos a trocar algumas palavras na hora das refeições.


“Você quer um roti? Para mim, um já é suficiente.”


“Theek hai. Aap mera chawal lijiye”, ofereci, pensando que as pessoas de Gondia eram mais acostumadas com arroz.


“Minha mandíbula está doendo”, disse ele gemendo.


Às escondidas, frequentemente fazíamos comentários sarcásticos sobre nossos captores, inventando apelidos para nos divertir. Pelas nossas conversas, percebi que Dhanendra Bhurule era o homem que eu ouvira sendo espancado na sala ao lado no dia em que fui detido. Era o homem a quem os interrogadores haviam prometido mandar para casa caso cooperasse.


Sob custódia policial, logo nos adaptamos a uma rotina. Todas as manhãs éramos levados ao Gymkhana da Polícia para sessões de interrogatório que duravam até tarde da noite. As técnicas de tortura variavam em intensidade. Eu era mantido acordado por quase 36 horas seguidas ou obrigado a permanecer em pé por longos períodos com os braços erguidos ao lado do corpo, paralelos ao chão. Se eu os abaixasse, um policial me batia com o lathi.


Às vezes, um grupo de policiais aparecia e me forçava a sentar no chão com as costas encostadas na parede. Minhas pernas eram então abertas à força e um policial ficava em pé sobre minhas coxas para impedir que eu as dobrasse. Meus braços eram puxados para cima e esticados usando a grade da janela como apoio. Tudo isso resultava em enorme pressão sobre meu tórax e virilha. Às vezes, meus interrogadores me beliscavam, puxavam meu cabelo ou perfuravam a pele sob minhas unhas com alfinetes.


As diferentes formas de dor física provocavam reações distintas. A dor das perfurações, dos puxões de cabelo e semelhantes era aguda e intensa, mas o corpo tentava — e até conseguia — esquecê-la rapidamente. Não acontecia o mesmo com as posições forçadas e os alongamentos. Eles produziam uma dor tão abrangente e duradoura que o corpo, por mais que tentasse, não conseguia simplesmente superá-la e acabava entrando em colapso.


Minha mente, porém, recusava-se a se render. Eu sentia minha raiva crescer.


“Vão para o inferno, vou continuar calado”, eu me pegava dizendo a mim mesmo. “Não vou cooperar.”


Mas então comecei a perceber que os homens encarregados de me torturar não estavam realmente motivados. Pareciam saber que eu não tinha nada a lhes contar. Apenas executavam as ordens de seus superiores para conseguir, de alguma forma, que eu confirmasse a história fantasiosa que haviam inventado. Quanto mais eu permanecia em silêncio, mais frustrados ficavam e mais violentos se tornavam. Em vez de eu desmoronar, eram meus torturadores que perdiam o controle ao fracassarem em corresponder às expectativas de seus superiores.


“Ele está frustrado e descarregando a raiva me batendo”, eu dizia a mim mesmo. “Sou eu quem está vencendo, e não vai demorar para que ele desista e simplesmente vá embora. Só preciso resistir até esse ponto.”


A cada quarenta e oito horas, éramos levados ao Hospital Civil Municipal para um exame médico. Em 1996, a Suprema Corte tornou esse procedimento obrigatório para garantir que os prisioneiros não fossem torturados. Mas o subinspetor de polícia (PSI) Bhagel, que nos acompanhava ao hospital, garantia que os médicos não registrassem nenhum ferimento nos relatórios. Bhagel insistia para que os médicos ignorassem os excessos do seu departamento porque éramos “terroristas perigosos”. (Usei pseudônimos para todos os funcionários do governo mencionados no meu relato porque quero chamar atenção não para indivíduos, mas para a brutalidade do sistema em que trabalham.)


De volta ao Gymkhana, tentavam repetidamente nos forçar a assinar uma declaração que haviam redigido confessando nosso envolvimento com os maoístas. Durante a maior parte das sessões de interrogatório, eu precisava permanecer agachado no chão com as mãos algemadas atrás das costas. Depois de algumas horas, meu corpo desabava para frente de tão cansado que eu estava. Mas nem essa nova posição trazia alívio, então eu tentava outra postura. Esse ciclo de torções e movimentos continuava por horas, até que eu acabava caindo de costas por exaustão.


Nos primeiros dias, não me permitiram tomar banho. O calor escaldante do verão em Vidarbha havia endurecido minhas roupas com o sal seco do suor. A sujeira de ficar agachado no chão não ajudava em nada na higiene pessoal. Finalmente, três dias depois da minha detenção, permitiram que eu tomasse banho — provavelmente porque meu odor corporal havia se tornado insuportável para os interrogadores. Dois policiais foram designados para me observar despejando canecas de água sobre o corpo, caso eu tentasse escapar nu. Isso não me incomodava. Naquele ponto, eu já havia me acostumado ao olhar constante deles. Eles até me observavam enquanto eu urinava.


O oficial da delegacia de Dhantoli, inspetor Kanwar, era o denunciante oficial do caso. No entanto, como tantos oficiais superiores haviam aparecido para me interrogar, o inspetor Kanwar havia sido reduzido à condição de espectador dentro do próprio território, encarregado apenas de cumprir ordens dos superiores. Sempre que um superior lhe dava uma ordem diante de seus policiais, seu ego ficava visivelmente ferido. Ele se recolhia emburrado em um canto, de expressão fechada, esperando o momento em que pudesse voltar a assumir o comando.


No fim do dia, quando todos iam embora, ele entrava na sala para conversar comigo. Aparecia de jeans, bêbado, e se acomodava lentamente numa cadeira como se estivesse saboreando o prazer de recuperar seu trono. Descarregando a frustração das humilhações sofridas ao longo do dia, fazia questão de mostrar diante dos subordinados que ele era o chefe e que também sabia tudo o que era necessário saber sobre maoísmo.


“O maoísmo fracassou na China, nunca funcionará aqui. Nós temos o governo do povo!” dizia ele com um sorriso irônico ao pronunciar a palavra “governo”. “Vocês, bastardos, não percebem o poder do Estado? Ele vai esmagar vocês facilmente. Por que vocês, naxalitas, matam policiais? Por que não matam os políticos corruptos?”


Uma vez tive a ousadia de responder:


“Então você quer que os naxalitas matem políticos?”


Aprendi imediatamente que esse tipo de conversa fazia mal à minha saúde.


No começo, quando ele iniciava seus discursos, eu imaginava que mais uma sessão violenta de interrogatório estava por vir e instintivamente me fechava em mim mesmo. Mas, depois de alguns dias, percebi que aquilo era, na verdade, uma espécie de terapia para seu ego ferido. Aos poucos aprendi a entrar no jogo para que ele pudesse recuperar a autoestima. Essa foi uma das minhas primeiras experiências compreendendo o papel que hierarquia e prestígio desempenham no funcionamento da polícia.


(Alguns anos depois, li que o inspetor Kanwar havia sido suspenso do serviço. Aparentemente, espancara algumas pessoas que haviam ido à delegacia registrar uma queixa. Não fiquei surpreso. Alguém tão autoritário quanto ele jamais toleraria um cidadão comum expressando suas reclamações.)


Durante os interrogatórios, os oficiais estavam à paisana ou sem suas identificações. Não queriam correr o risco de serem identificados ou de que fizéssemos denúncias específicas contra eles ao tribunal. Reclamações gerais de tortura são facilmente contornadas, mas acusações dirigidas a oficiais específicos poderiam causar problemas. Esse anonimato violava a decisão D.K. Basu da Suprema Corte de 1996, relativa a mortes sob custódia. Apesar da ausência de distintivos e insígnias, bastavam alguns minutos observando-os conversar para entender quem mandava ali. A presença de um oficial superior obrigava os subordinados a se levantarem, endireitarem as costas e chamá-lo de “Sir”.


Nos primeiros dias sob custódia policial, comecei a entender o que significavam “interrogatório”, taaba (custódia) e “pee-cee-aar”. Na terminologia legal, Police Custodial Remand ou PCR refere-se à situação em que a polícia tem autoridade sobre o acusado, diferente da custódia judicial, em que o acusado permanece preso em nome do tribunal aguardando julgamento. Mas, no uso policial, o termo transformava-se em verbo para designar o interrogatório brutal ao qual os detidos eram submetidos: “Uska pee-cee-aar kiya”, diziam os policiais, ou “Hum tera pee-cee-aar kara denge.” Durante o pee-cee-aar, quando alguém fica numa cela policial, seus direitos constitucionais estão sempre ameaçados. O direito ao silêncio, por exemplo, é garantido pela Constituição Indiana no Artigo 20(3). No entanto, toda vez que eu — talvez ingenuamente — tentava me refugiar nesse direito fundamental, isso apenas resultava em mais tortura.


Entre meus interrogadores mais sádicos estava Abhishek Kapur, vice-comissário de polícia responsável pela divisão de crimes em Nagpur. Era um jovem e robusto oficial do IPS, sempre buscando agradar seus superiores. Espancar “terroristas” certamente lhe renderia alguns pontos extras. Durante os interrogatórios, fazia questão de me obrigar a ficar agachado no chão, algemado, enquanto ele permanecia sentado numa cadeira diante de mim. Seu ego parecia inflar cada vez que olhava para baixo e afirmava ter estudado no prestigioso St. Stephen’s College, em Delhi — declaração destinada a demonstrar que ele era de uma classe superior aos demais oficiais. Mas, se eu optasse por permanecer em silêncio diante de suas perguntas, ele chutava minha mandíbula com as botas. Percebi que eu havia sido estrategicamente colocado numa posição que lhe permitia fazer isso com o mínimo de esforço.


Pelas conversas dos policiais, descobri que, em 2006, Abhishek Kapur havia sido responsável pela zona de Nagpur onde começaram os protestos contra os assassinatos de Khairlanji. Indora Basti é o maior assentamento dalit de Nagpur, famoso por sua política militante. Quando se espalhou a notícia de que quatro membros da família Bhotmange, de casta inferior, haviam sido desfilados nus e depois linchados por uma multidão de aldeões de castas superiores em Khairlanji, distrito de Bhandara, Indora foi a primeira comunidade a explodir de indignação. Jovens dalits reuniram-se em Indora Chowk queimando pneus. A polícia respondeu com uma carga de cassetetes e prendeu alguns ativistas. Policiais de escalão inferior acreditavam que a condução incompetente desses protestos havia feito a agitação se espalhar por Nagpur e depois por Maharashtra. Já os oficiais superiores culpavam os maoístas por organizar os protestos. Fui apanhado nessa teoria absurda. Abhishek Kapur tinha um motivo forte para afirmar que havia prendido quatro maoístas na cidade menos de um ano após os protestos.


Mas não eram apenas oficiais da polícia de Nagpur que me interrogavam. Percebi que estava sendo questionado, entre outros, por agentes da Célula Anti-Naxal, da Esquadrão Antiterrorismo, do Escritório de Inteligência e até do Escritório Especial de Inteligência de Andhra Pradesh. Eles vinham em grupos de dois ou três. Seus superiores permaneciam ao fundo, delegando o trabalho de interrogatório aos subordinados. A rotina do “policial bom e policial mau” era um dos truques habituais. Também tentaram outra tática: diziam que as pessoas presas comigo já haviam confessado envolvimento com os maoístas, então seria inútil eu continuar resistindo. Quando isso não funcionava, voltavam à rotina de espancamentos e alongamentos forçados.


Isso continuou por dez dias. Quando todas as táticas fracassaram, a polícia conseguiu autorização judicial para submeter Ashok Reddy e eu às práticas cientificamente duvidosas de narcoanálise, detector de mentiras e mapeamento cerebral. Esperavam usar os resultados desses testes para fabricar provas que sustentassem suas acusações.


Nós não consentimos com esses testes. Então o PSI Bhagel usou repetidamente ameaças e truques para tentar me fazer assinar um documento declarando que “como eu estava dizendo a verdade, consentia com os testes”. Hoje, uma carta de consentimento é ética e medicamente obrigatória, mas em 2007 ela ainda podia ser dispensada por ordem judicial.

Antes mesmo que os detidos fossem submetidos à narcoanálise, eram realizados diversos exames médicos, supostamente para verificar se estavam aptos a suportar os procedimentos. Na realidade, os testes determinavam os níveis de resistência do prisioneiro e ajudavam as autoridades a calcular quanta droga — pentotal de sódio — poderia ser administrada sem provocar colapso. Esses exames preliminares foram realizados no hospital civil da cidade. Em seguida, começaram os preparativos para nos transportar ao Laboratório Estatal de Ciências Forenses em Mumbai.


Mas antes disso fomos apresentados ao magistrado. Como a Seção 167 do Código de Processo Penal permite ao magistrado autorizar a detenção do acusado sob custódia policial por no máximo quinze dias no total, a polícia não podia obter custódia adicional no mesmo caso. (Após 2008, uma emenda na Lei de Prevenção de Atividades Ilícitas aumentou esse prazo para trinta dias.) Assim, a polícia registrou novos casos: fui acusado de participar de uma assembleia ilegal, cometer ato ilícito, conspirar para realizar um ato terrorista e integrar uma organização responsável por ato terrorista. Tudo isso relacionado à acusação de que nos reuníramos em Deekshabhoomi para elaborar uma conspiração criminosa como membros do Partido Comunista da Índia (Maoísta), proibido desde 2009.


O PCI (Maoísta) representa a corrente mais radical dentro do movimento comunista indiano de noventa anos. O Partido Comunista da Índia foi fundado em 1925, inspirado pelo sucesso da Revolução Bolchevique Russa. Durante o domínio britânico, o PCI organizou milhões de trabalhadores industriais e, naturalmente, enfrentou forte repressão. Centenas de membros do partido foram presos e muitos acusados em casos de conspiração. Após o domínio britânico, porém, o partido passou a seguir o caminho parlamentar e chegou até a formar um governo estadual em Kerala, em 1957. Divergências internas sobre relações com a China e outros temas levaram a uma divisão. Isso resultou na formação do Partido Comunista da Índia (Marxista), em 1964. O novo partido também continuou atuando na política parlamentar. Entretanto, os radicais acreditavam que essa participação parlamentar representava uma colaboração inaceitável com um Estado opressor e um abandono da luta revolucionária. Após uma revolta camponesa na aldeia de Naxalbari, em Bengala Ocidental, em 1967, esses grupos se unificaram. O PCI (Maoísta), formado em 2004, representa uma consolidação ideológica e organizacional posterior dessa tendência revolucionária. Por causa do local do conflito que marcou sua origem, os maoístas indianos também são chamados de Naxalbadis ou Naxalitas.


Mais de quarenta anos após a revolta de Naxalbari, o movimento naxalita tornou-se uma poderosa força sociopolítica armada, mobilizando os indianos mais oprimidos, deixados de fora do desenvolvimento econômico. Os maoístas buscam derrubar o Estado e substituí-lo por outro mais democrático. Como resultado, o governo proibiu o PCI (Maoísta) como organização terrorista sob a Lei de Atividades Ilícitas (Prevenção) e tentou criminalizar qualquer simpatia pelo movimento.


No meu caso, bastava sugerir que eu possuía crenças radicais para que o Estado apresentasse acusações criminais. Se condenado, eu passaria o resto da vida na prisão. Naquele dia, após a audiência, fomos transferidos para custódia judicial.


Em 20 de maio de 2007, abaixei-me para entrar pela porta baixa e estreita da Prisão Central de Nagpur, que seria meu lar pelos cinquenta e quatro meses seguintes. Fazia doze dias desde minha prisão. Conforme o procedimento, presos de primeira viagem são apresentados ao oficial do portão. A tradição — e talvez o treinamento — exige que até o oficial mais pacato demonstre máxima agressividade ao lidar com recém-chegados, chamados na gíria prisional de naya aamad. Essa é uma das muitas palavras em urdu ainda usadas nas prisões, remanescentes da era britânica. Como toda comunidade isolada, a prisão parece congelada no tempo. Percebi que o trabalho do oficial do portão era dar ao recém-chegado um curso intensivo de submissão cega e obediência absoluta. O lathi ao lado servia como ferramenta pedagógica.


O oficial do portão é condicionado a insultar verbalmente o novo preso ao menor sinal de que ele esteja se desviando da submissão total. Ficar muito perto ou muito longe da mesa do oficial, ereto demais ou curvado demais, mãos atrás ou à frente do corpo — tudo podia ser considerado comportamento inaceitável.


O oficial deveria perguntar se o novo preso havia sofrido ferimentos devido à tortura policial e, em caso afirmativo, registrar sua declaração. No meu caso, eu tinha um ouvido sangrando, mandíbula inchada e pés doloridos. (Na realidade, o oficial ameaçava qualquer um que tentasse denunciar abusos. Por costume, todos os ferimentos eram registrados como anteriores à prisão.) Em seguida veio a revista corporal, protocolo padrão para novos detentos. Fui despido até ficar de cueca e ordenado a me agachar em fila com os demais recém-chegados, aguardando minha vez com o responsável pelas revistas, conhecido como jhadati-amaldar. Cada cavidade do nosso corpo era examinada e todos os nossos pertences minuciosamente revistados antes de serem jogados na estrada suja para que os recolhêssemos. Perigos gravíssimos como pacotes de biscoito e beedis eram convenientemente confiscados pelos funcionários.


Se a espera do prisioneiro no portão coincidisse com a entrada ou saída de algum alto funcionário da prisão, ele tinha o privilégio de testemunhar uma cerimônia digna dos tempos coloniais. Superintendentes e carcereiros importantes não podiam ser obrigados a se curvar para passar pela pequena porta, então o portão principal era aberto para permitir que os sahibs atravessassem de cabeça erguida. Quando os dignitários eram avistados à distância, o guarda do portão soltava um grito de alerta: “ALL HUP!”. Todos os funcionários imediatamente ficavam em posição de sentido e todas as formas inferiores de vida eram empurradas para os cantos, fora de vista, ou forçadas a se agachar no chão.


A maioria dos naya aamads é então levada ao “after barrack”, onde passam uma ou duas noites antes de serem designados para um barracão permanente, ou “fixed barrack”. Esse período de espera permite que os funcionários da prisão, guardas condenados, gangues de extorsão internas e outros predadores avaliem que vantagens financeiras ou de outro tipo podem extrair de suas novas presas. Recém-chegados de classe média e detentos mais ricos são alvos fáceis. Eles são amolecidos com histórias sobre os horrores da vida prisional e ameaças veladas. Homens mais jovens são escolhidos para trabalho gratuito e exploração sexual. Contatos são feitos e acordos firmados para garantir melhor tratamento quando os novos presos forem transferidos para os barracões fixos.


Em seguida vem a mulaiza, o processo de admissão. Um guarda condenado ou carcereiro faz um discurso aos novos presos sobre o valor da disciplina prisional. As marcas identificadoras de cada novo detento são registradas, e ele é pesado, medido e examinado por um médico e um psicólogo antes de ser apresentado a uma falange de divindades prisionais lideradas pelo superintendente. Um Body Ticket é entregue a cada prisioneiro, listando seu número de preso e as acusações registradas contra ele. Essas acusações formam a base de sua classificação e, até certo ponto, determinam como será tratado na prisão. Condenados (kaidis) e presos provisórios (havalathis, comumente pronunciado hauladi) são contados separadamente. Eu agora era o hauladi número 3479 de 2007.


Embora a lei determine que um acusado é inocente até que se prove sua culpa, essas sutilezas perdem significado atrás dos muros da prisão. As alegações da polícia bastam para que as autoridades prisionais punam até mesmo aqueles que ainda aguardam julgamento. Acusados de estupro são rotineiramente atacados pelos oficiais já no momento da entrada. Um tipo particularmente machista obrigava acusados de estupro a rastejar sob o sol da tarde desde o portão até os barracões — exercício que rapidamente provocava bolhas grossas nos braços e joelhos. Nos barracões, eram violentamente atacados por outros presos com incentivo dos funcionários. Os mais “justos” nos ataques frequentemente eram eles próprios acusados ou condenados por estupro. Essas eram algumas das ironias do sistema de “justiça” prisional.


Os implicados em casos de homicídio são obrigados a usar o uniforme de preso condenado e enviados para barracões especiais de “assassinos”. Pessoas acusadas de terrorismo são invariavelmente enviadas para lugares como o barracão anda, e muitos superintendentes de prisão supervisionam pessoalmente suas sessões de espancamento como demonstração de patriotismo.


Antes da mulaiza, o procedimento exige que o recém-chegado tome banho. No entanto, a falta de sabão e água frequentemente impede o cumprimento rigoroso dessas regras. Em vez disso, a maioria dos naya aamads é empurrada rapidamente pelas mãos grosseiras do nai kamaan (“Comando dos Barbeiros”), um dos grupos de trabalho aos quais os presos poderiam ser designados posteriormente. Algum burocrata prisional da era colonial, com desejo obsessivo por disciplina militar ou um perverso senso de humor, provavelmente criou a tradição de chamar cada equipe de trabalho de kamaan (“comando”).


A próxima parada do naya aamad é o Badi Gol, área da prisão de Nagpur destinada aos presos provisórios. Em teoria, era para lá que eu deveria ter sido levado. Mas, no meu caso, os procedimentos foram encurtados. O relatório policial foi suficiente para justificar exceções às elaboradas formalidades. Fui rapidamente enviado ao barracão anda, recebi um grosso uniforme branco de algodão da prisão e, após uma refeição rápida de besan e rotis borrachudos às 16h, fui colocado num trem rumo a Mumbai junto com Ashok Reddy para realizar os testes de narcoanálise.


Pouco antes de embarcarmos no trem, Ashok e eu recebemos roupas novas — nossa primeira troca de roupa em doze dias. Mais tarde descobrimos que nossos advogados haviam pedido ajuda a um policial simpático. Também recebi um velho par de chinelos de borracha. Os policiais haviam perdido minhas sandálias logo após minha prisão e, durante os dias sob custódia e as viagens ao tribunal, ao gymkhana ou ao hospital, eu caminhava descalço. O calor escaldante do verão em Nagpur fazia o asfalto fumegar, então eu precisava correr da estação até a van.


Cerca de uma dúzia de policiais corpulentos armados com Kalashnikovs foram designados para nos acompanhar na viagem. Para garantir ainda mais que nada desse errado, fomos mantidos algemados às nossas camas durante toda a viagem de quinze horas até Mumbai.

Até aquele momento, eu não havia sido autorizado a falar com Ashok, embora ele tivesse sido implicado no mesmo caso que eu. Às vezes trocávamos olhares solidários quando estávamos juntos no tribunal ou no hospital civil durante os exames obrigatórios. Esse silêncio também foi imposto durante a viagem de trem para Mumbai, provavelmente para impedir que discutíssemos formas de enfrentar os interrogadores. A primeira vez que tive chance de conversar com Ashok foi quando chegamos à delegacia de Azad Maidan, perto do terminal Chhatrapati Shivaji, em Mumbai. Passaríamos uma noite ali antes do interrogatório. A polícia de Nagpur, liderada por Kanwar, conseguiu garantir uma cela separada para nós dois. Isso exigiu discussões intensas com os policiais de Mumbai e o uso da influência de seus superiores. Contudo, ao perceberem que estávamos conversando na cela, rapidamente notaram o erro e fomos separados em menos de uma hora. Depois disso, fomos mantidos numa sala da própria equipe policial da delegacia de Azad Maidan, sob supervisão direta de Kanwar. Eles temiam que nossas conversas influenciassem os resultados dos testes de narcoanálise que ocorreriam no dia seguinte.


No dia seguinte à nossa chegada, fomos transferidos para a Prisão Arthur Road, em Jacob Circle. Ao saber que eu havia sido levado para Mumbai, minha mãe, meu irmão e minha irmã tentaram me visitar na prisão. A permissão lhes foi negada, então ficaram horas do lado de fora do portão esperando me ver de relance durante alguma transferência. Não conseguiram. Mas nossa passagem pela Arthur Road teve suas vantagens. Muitos presos dali nos explicaram como funcionavam os procedimentos da narcoanálise e gentilmente deram sugestões sobre como confundir os resultados, embora nenhuma das estratégias parecesse realmente lógica ou útil. Ainda assim, aquilo demonstrava o respeito com que presos comuns normalmente tratam detentos acusados de terrorismo, considerando a natureza política e supostamente altruísta de seus crimes.


Em 22 de maio, fui levado para uma sala cirúrgica do Hospital J.J., uma instituição pública equipada com recursos de emergência para cirurgia. Isso era essencial porque o pentotal de sódio, a droga usada na narcoanálise, pode desacelerar o coração — fatalmente. A psicóloga pediu que eu assinasse alguns documentos, o que fiz apenas depois de registrar em cada página meu protesto e a compulsão da ordem judicial.


A droga foi administrada como um soro intravenoso, em ritmo controlado, para que eu permanecesse em transe por um longo período. Embora a polícia não tivesse permissão para entrar na sala, os especialistas forenses usavam a droga com eficiência policial, ignorando completamente a ética médica e minha saúde. A polícia havia preparado uma lista de perguntas para a psicóloga fazer. À medida que o chamado “soro da verdade” entrava em meu corpo, a psicóloga iniciou perguntas introdutórias. A conversa foi gravada em vídeo e, anos depois, eu me vi naquela maca:


“Qual é o seu nome?”“Quantos anos você tem?”“Qual sua data de nascimento?”“Onde você mora?”


Logo a droga começou a fazer efeito. Fiquei sonolento e minha fala começou a ficar arrastada.


“Estou com sono”, eu respondia repetidamente.


Então as perguntas começaram a ficar mais sérias:


“Você conhece o PCI (Maoísta)?”


“Sim.”


“Onde eles guardam suas armas?”


“Não sei.”


“Você já usou algum tipo de arma, ao menos para autodefesa?”


“Não.”


“Você sabe de médicos ou hospitais que prestem serviços ao grupo maoísta?”


“Não.”


“Você conhece casas seguras em Nagpur onde os líderes deles se hospedam?”


“Não… eu não conheço muito Nagpur.”


“Então você conhece casas seguras deles em Mumbai?”


“Não.”


O interrogatório continuou por pouco menos de uma hora. Conforme minha língua ficava cada vez mais pesada, minha fala incoerente e nenhum resultado concreto aparecia, a psicóloga começou a ficar desesperada. Das perguntas sobre meu suposto envolvimento com os maoístas, ela passou a questionar minhas crenças.


“Em todas essas lutas das quais você participou, qual foi a atitude mais extrema que tomou?”


“Eu participei de… (fala arrastada)… marchas e manifestações…”


“Você e sua organização estiveram envolvidos em violência?”


“(fala arrastada)… não… não muito.”


“Não muito?!”


“… Não houve necessidade… (fala arrastada)… de fazer isso…”


“Mas, se surgisse a necessidade, você faria?”


“… (fala arrastada)… Sim.”


“Então você não tem problema em usar violência para lutar pelos direitos das pessoas?”


“(fala arrastada)… Sim.”


“Você já utilizou violência?”


“Não… (fala arrastada)…”


“Absolutamente não?”


“Não…”


Ali estava. Finalmente conseguiram a prova de que precisavam. Pela minha própria “confissão”, minhas intenções eram criminosas e violentas. A narcoanálise havia sido um sucesso e ela concluiu:


“Arun, você pode dormir agora.”


Depois que acordei, consegui lembrar de algumas das perguntas que haviam me feito. Era como recordar um sonho: eu não me lembrava de todos os detalhes, mas não havia esquecido os pontos principais.


Um dia depois, fui levado ao Laboratório de Ciências Forenses em Kalina para um teste de polígrafo — popularmente conhecido como detector de mentiras — que registrava diversos parâmetros fisiológicos, como pressão arterial, pulso e respiração, enquanto eu respondia a uma série de perguntas. Esses índices fisiológicos eram medidos por sensores colocados nas pontas dos meus dedos, nas palmas das mãos e presos ao meu peito. A tecnologia parte da suposição de que respostas enganosas produzem reações fisiológicas mais intensas. Mas as perguntas que fizeram eram ridículas.


“Você conhece Javed, Sachin e Jyoti?”


Responder afirmativamente significaria que eu conhecia alguém chamado Javed, Sachin ou Jyoti que fosse maoísta.


Os testes de mapeamento cerebral eram semelhantes. Fui levado a uma sala à prova de som, parecida com um estúdio de gravação. Trinta e dois eletrodos foram presos ao meu couro cabeludo e me fizeram ouvir, através de fones de ouvido, uma série de declarações, muitas relacionadas ao meu suposto envolvimento nos crimes alegados. Os eletrodos registravam minhas respostas a essas proposições, mapeavam as alterações elétricas no meu cérebro e supostamente determinavam se eu possuía algum “conhecimento experiencial” do evento para calcular a veracidade das minhas declarações.


Quando finalmente recebi o relatório meses depois, descobri que esse teste supostamente científico concluíra que eu havia mentido repetidamente, até mesmo sobre meu nome e meu estado civil:


Proposição: Meu nome é Arun Ferreira — Nenhum conhecimento experiencial. Proposição: Sou casado — Nenhum conhecimento experiencial.


Esses testes foram realizados em mim numa época em que os tribunais ainda não ousavam questionar sua validade científica. Apenas três anos depois, em maio de 2010, uma bancada de três juízes da Suprema Corte, liderada pelo Chefe de Justiça, decidiu que o uso de narcoanálise, mapeamento cerebral e testes de polígrafo sem o consentimento do indivíduo era inconstitucional e violava o direito à privacidade.


Depois de quase uma semana na minha cidade natal, fui levado de volta à prisão de Nagpur por estrada. Enquanto isso, a polícia preparava novas acusações para continuar me mantendo sob custódia e em pee-cee-aar por mais algum tempo.


De 28 de maio a 14 de junho de 2007, fui acusado em mais cinco casos relacionados à violência naxalita em Gondia, distrito localizado a cerca de 150 quilômetros de Nagpur. Gondia e especialmente Gadchiroli, outro distrito situado no extremo de Maharashtra, são áreas de intensa atividade maoísta. Em quase toda Gadchiroli e em partes de Gondia, esquadrões armados naxalitas enfrentaram a polícia e forças paramilitares com apoio dos tribais e camponeses locais. Isso está de acordo com a estratégia maoísta de estabelecer centros revolucionários em áreas rurais, na esperança de eventualmente expandirem-se e tomar o poder em todo o país. Não é coincidência que esses distritos também estejam entre as regiões mais pobres de Maharashtra. Em 2011, Gadchiroli ocupava a posição mais baixa no Índice de Desenvolvimento Humano do estado.


Os cinco novos casos permitiram que a polícia me colocasse novamente sob custódia por mais vinte e três dias, até 19 de junho. Fui transferido para Amgaon, uma delegacia no interior de Gondia, onde fui submetido a mais privação de sono, assédio e interrogatórios. Dessa vez, porém, tive a sorte de escapar relativamente ileso. Mas meus coacusados não tiveram a mesma sorte. A polícia, sob supervisão direta do subcomissário Korate, injetou gasolina no reto de dois deles. Alguns funcionários seguravam suas pernas enquanto um inspetor introduzia 20 ml de gasolina em seus corpos. Os vapores queimavam o revestimento intestinal, provocando dias agonizantes de sangramento anal, coágulos de sangue e arrotos contínuos. Pergunto-me como Korate sabia exatamente que 20 ml de gasolina causariam tamanha dor sem matar a vítima. Esse conhecimento só poderia ter sido adquirido por algum tipo de treinamento. Ashok Reddy conseguiu denunciar isso ao tribunal. Contudo, o médico indicado pelo Estado, obviamente amigo de Korate, diagnosticou sua condição como hemorroidas e absolveu o oficial e seus cúmplices.


Eu, por razões conhecidas apenas por eles, fui poupado desse tratamento. A polícia aparecia para me interrogar a cada dois dias — sempre que recebiam uma lista de perguntas de algum superior. Quando eu não respondia à primeira pergunta, nunca avançavam além dela, e era aí que começava a tortura.


“Arre, chamem o Bajirao”, ordenava o inspetor.


Um policial então trazia um cinto estreito preso a um cabo de madeira — instrumento que policiais de Maharashtra chamam carinhosamente de “Bajirao”. O nome vem de Peshwa Baji Rao, tenente de Shahu Maharaj, governante creditado pela expansão do Império Marata. Os policiais de Maharashtra, em sua maioria pertencentes à casta marata, consideram esse instrumento igualmente confiável.


O cinturão Bajirao era usado cuidadosamente, apenas nas palmas das mãos ou nas solas dos pés. Quando aplicado, atingia o conjunto de nervos do calcanhar, causando dor extrema sem deixar marcas externas, de modo que eu não teria provas caso tentasse reclamar a um magistrado. No entanto, médicos sabem que chicotadas nos pés podem provocar danos permanentes nos nervos. Elas reduzem a elasticidade do calcanhar e causam dores agonizantes, especialmente nas noites frias, por muitos anos depois. Esse tipo de tortura, embora menos visível aos olhos, provoca danos irreversíveis ao corpo.


De vez em quando, muitas vezes por inexperiência ou excesso de entusiasmo do torturador, esses danos permanentes terminam em morte. Não é surpresa que Maharashtra continue ocupando a posição privilegiada de estado com o maior número de mortes sob custódia da Índia. Em 2011 registrou 22 mortes, muito à frente de Gujarat, o segundo colocado, com 7 mortes. Invariavelmente, o Departamento Nacional de Registros Criminais (NCRB) atribui essas mortes a causas naturais ou suicídio. Pessoas como Korate e seus superiores jamais são responsabilizadas.


Após vinte e três dias e noites na cela de Gondia, fomos levados de volta à prisão de Nagpur. Pela primeira vez em um mês e meio desde minha prisão, minha família teve permissão para me visitar. Meu pai e meu irmão, em Mumbai, haviam contatado meu advogado, que organizou o encontro no tribunal. Foi então que ouvi o lado deles daquele inferno.


Contaram-me do choque ao ver meu nome e fotografia nos jornais e de ler as descrições policiais sobre as violências das quais eu supostamente participara. No início, meu irmão e minha irmã tentaram desesperadamente esconder a notícia de meus pais idosos, mas não conseguiram por muito tempo. Disseram-me que, logo após saber da minha prisão, minha esposa, professora universitária em Mumbai, caiu de uma motocicleta e machucou gravemente o rosto. Soube que a polícia havia revistado nossa casa, confiscando livros e desmontando nosso computador. Também apreenderam os livros de sociologia da minha esposa e os CDs de cantigas infantis do meu filho de dois anos como “provas incriminadoras”. Às escondidas, os policiais também embolsaram relógios digitais e canetas.


Quase todo o tempo que passei com meu pai e meu irmão naquele dia no tribunal foi gasto tentando convencê-los de que eu não havia cometido as explosões, assassinatos e outros crimes violentos dos quais era acusado e que eles haviam lido nos jornais. As reportagens apenas repetiam a versão policial, com pouca preocupação com a verdade. Por exemplo, o Mumbai Mirror publicou em 11 de maio:


“…a polícia de Nagpur, que realizou buscas na residência de Ferreira na quarta-feira… sustenta que ele é um líder de alto escalão da organização proibida Partido Comunista da Índia (Maoísta) e que, na condição de chefe de propaganda do grupo extremista de esquerda, era responsável pela disseminação da violência.”


O pouco tempo que tive com minha família no tribunal foi insuficiente para dissipar todas as dúvidas deles. Os quatro anos e oito meses seguintes também se mostrariam insuficientes.

Meu irmão contou que um grupo de amigos da faculdade e simpatizantes em Mumbai havia se unido para fazer campanha pela minha libertação. Reuniões muito frequentadas estavam sendo organizadas, usando meu caso para demonstrar que a narcoanálise era apenas outra forma de tortura. Mas os esforços foram esmagados quando o comissário de polícia de Nagpur ameaçou prender meus amigos caso tentassem me visitar na prisão. Minha família procurou vários órgãos governamentais, como a Comissão Estadual das Minorias, o Departamento Estadual do Interior e altos oficiais da polícia. Porém, além de promessas vazias de analisar o caso, nada tinham a oferecer.


Logo minha vida adquiriu um padrão previsível. A polícia me implicava em novos casos, obtinha custódia para me interrogar, submetia-me a terríveis torturas, fracassava em arrancar uma confissão, devolvia-me à prisão e então me envolvia em outro caso. Após dois meses, eu já respondia a seis processos. Só quando a polícia finalmente apresentou as denúncias formais, detalhando as supostas provas para minha acusação, minha rotina mudou. Passei a fazer viagens semanais — às vezes diárias — ao tribunal para aguardar audiências. O choque inicial se dissipou e comecei a me acostumar ao luxo de contemplar os inúmeros ritmos da vida prisional.


Traduzido por Viviane Carvalho


*traduzido de Colours of the Cage, a Prison Memoir by Arun Ferreira

ALEPH BOOK COMPANY Uma editora independente promovida pela Rupa Publications India.

Publicado pela primeira vez na Índia em 2014 pela Aleph Book Company

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