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Rio 'cidade da IA'. Quem pediu e quem vai pagar por isso?

há 9 horas
15 min de leitura
Data Center da OpenIA nos EUA. Foto: Portal Click Petróleo
Data Center da OpenIA nos EUA. Foto: Portal Click Petróleo

A promessa é sedutora. E não é difícil entender por quê. A ideia é transformar uma área marcada pelo legado olímpico do Rio de Janeiro em um dos maiores polos de inteligência artificial e processamento de dados do mundo. Fala-se em bilhões de dólares, empregos qualificados, energia limpa, gigantes da tecnologia e uma nova vocação econômica para a cidade. No discurso oficial, o Rio AI City aparece quase como uma oportunidade irrecusável (RIO DE JANEIRO, 2025a; RIO DE JANEIRO, 2026a). A princípio, o plano parece simples: aproveitar a Cidade Olímpica para abrigar uma infraestrutura digital de escala internacional. Só que os números rapidamente tiram o projeto do campo das ideias simples. Quanto custará preparar a cidade para receber um empreendimento desse tamanho? E, talvez mais importante, quem pagará por essa preparação? O complexo foi inicialmente anunciado com capacidade de 1,8 GW até 2027 e 3 GW até 2032. Apresentações posteriores já passaram a trabalhar com uma capacidade inicial de 1,5 GW e possibilidade de expansão para até 3,2 GW (RIO DE JANEIRO, 2025a; INVEST.RIO, 2026). Não é pouca coisa.


A decisão começou na Prefeitura O Rio AI City foi lançado oficialmente em 27 de abril de 2025, durante o Web Summit Rio, pelo então prefeito Eduardo Paes. A proposta apresentada naquele momento previa um grande campus de inteligência artificial na região do Parque Olímpico, inicialmente com 1,8 GW e, alguns anos depois, chegando aos 3 GW (RIO DE JANEIRO, 2025a). É importante registrar essa origem porque ela ajuda a entender o que o Rio AI City é. O projeto não nasceu simplesmente de uma empresa que enxergou uma oportunidade imobiliária na Barra da Tijuca e decidiu construir ali seus data centers. Também não começou como uma iniciativa do Governo Federal. A estratégia territorial partiu da Prefeitura do Rio, que assumiu para si o objetivo de transformar a região em um polo dessa nova indústria.


No dia seguinte ao lançamento, o então vice-prefeito Eduardo Cavaliere reconheceu que ainda havia bastante coisa a ser definida. A área precisava ser delimitada, os espaços reorganizados e o modelo de ocupação estruturado. Enquanto isso, a Invest.Rio começava a conversar com investidores brasileiros e estrangeiros. Desde aquele momento, a própria administração municipal já mencionava a utilização de parcerias público-privadas (RIO DE JANEIRO, 2025b).

Esse detalhe é importante. Não estamos falando simplesmente de uma companhia privada que comprou um lote, ergueu seus servidores e assumiu sozinha todos os custos necessários para fazê-los funcionar. Desde o início, o poder público participa da criação das condições territoriais, institucionais e econômicas para viabilizar o projeto.


E essa participação rapidamente ultrapassou os limites da Prefeitura. De projeto municipal a articulação federal Em julho de 2025, poucos meses depois do anúncio, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) assinou um protocolo de intenções com a Prefeitura para desenvolver o Rio AI City. A articulação passou a envolver também o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), a Eletrobras e a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep) (BNDES, 2025; FINEP, 2025).


A Finep chegou a definir a iniciativa como um “arranjo governamental” formado pelo Governo Federal, Município do Rio de Janeiro, BNDES, Finep e Eletrobras (FINEP, 2025). É uma expressão reveladora. Naquela altura, a escala financeira do projeto também começava a aparecer com maior clareza: estimativa de US$ 65 bilhões para sua implementação e capacidade próxima de 3 GW até 2032. O BNDES informou ainda que estudava criar um fundo destinado a data centers e inteligência artificial, com aporte de até R$ 1 bilhão (BNDES, 2025).


Em agosto daquele mesmo ano, Prefeitura, Oracle Brasil e Elea Data Centers assinaram um memorando de entendimento para impulsionar o Rio AI City, ampliando a participação de grandes agentes privados na estruturação do complexo (RIO DE JANEIRO, 2025c; ELEA DATA CENTERS, 2025). É necessário neste ponto fazermos uma distinção: nada disso significa que os US$ 65 bilhões anunciados sairão dos cofres públicos. Grande parte do capital previsto é privado.


Em junho de 2026, por exemplo, a Prefeitura anunciou um aporte de US$ 550 milhões na plataforma de infraestrutura digital da Elea, incluindo o Rio AI City. O investimento integra a primeira etapa da aquisição da empresa pela gestora internacional I Squared Capital e, segundo a Prefeitura, poderá abrir caminho para um ciclo de expansão de até US$ 10 bilhões nos próximos anos (RIO DE JANEIRO, 2026a). Mas o inverso também merece cuidado. Chamar o Rio AI City simplesmente de “US$ 65 bilhões em investimento privado” conta apenas uma parte da história. O Estado está presente. Na articulação territorial, na aproximação com investidores, nos memorandos, na discussão sobre financiamento e no planejamento da infraestrutura. BNDES e Finep participam formalmente do processo. Prefeitura, Invest.Rio, CCPar e ministérios federais aparecem em diferentes etapas (BNDES, 2025; FINEP, 2025; RIO DE JANEIRO, 2026a).


O projeto, portanto, combina capital privado e política pública de desenvolvimento econômico. É aqui que a discussão fica mais interessante, tem incentivo tributário. Em setembro de 2026, entrou mais uma peça nesse quebra-cabeça. A Lei Federal nº 15.504/2026 criou o Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter, o Redata (BRASIL, 2026a).


Na prática, o regime estabelece incentivos fiscais para equipamentos destinados à implantação, modernização e expansão de data centers. Segundo o MDIC, há desonerações de PIS/Pasep, Cofins e IPI para determinados equipamentos de tecnologia da informação e comunicação, além de tratamento específico para produtos importados sem equivalente nacional. Em contrapartida, as empresas beneficiadas precisam atender a exigências relacionadas a pesquisa e desenvolvimento, mercado interno e sustentabilidade (BRASIL, 2026b; BRASIL, 2026c).


Não é um detalhe burocrático. Durante a discussão do Redata, o próprio Ministério da Fazenda registrou que a renúncia de receita associada ao regime havia sido estimada pela Receita Federal e considerada na elaboração do Projeto de Lei Orçamentária Anual de 2026 (BRASIL, 2026d). Isso não quer dizer que cada real de benefício tributário concedido a um data center seja um real retirado diretamente do bolso do carioca. Seria uma conta simplista.


Mas também não faz sentido fingir que o incentivo não existe. A instalação dessa indústria no Brasil não depende apenas da mão invisível do mercado. Existe uma política pública criada precisamente para reduzir determinados custos e tornar o país mais competitivo na disputa internacional por esses empreendimentos (BRASIL, 2026b; BRASIL, 2026d).

O elefante na sala é a eletricidade?

Data centers dedicados à inteligência artificial consomem muita energia. Muita. Os servidores precisam trabalhar continuamente. Sistemas de refrigeração, equipamentos de segurança, transformadores, geradores e estruturas redundantes também. Uma instalação desse tipo não pode simplesmente apagar quando o sistema estiver sobrecarregado. Por isso, quando alguém anuncia um complexo na casa dos 3 GW, talvez a pergunta mais importante não seja quantos bilhões serão investidos.


É outra: de onde virá essa potência? E como ela chegará até lá?

A própria Prefeitura utiliza a disponibilidade energética como um dos argumentos para defender a localização do empreendimento no Rio. Nas apresentações mais recentes, o projeto aparece com aproximadamente 1,5 GW em sua fase inicial e possibilidade de chegar a 3,2 GW posteriormente (INVEST.RIO, 2026; RIO DE JANEIRO, 2026a). É uma carga gigantesca.


Para se ter dimensão da mudança que está ocorrendo no país, em 2024 o Ministério de Minas e Energia contabilizava 22 projetos de data centers buscando acesso à Rede Básica, com demanda potencial próxima de 9 GW até 2035 (BRASIL, 2024). Depois, o número de solicitações passou de 50. Segundo o MME, a demanda máxima acumulada informada pelos próprios consumidores poderia alcançar 13,2 GW até 2035, caso todos os projetos obtivessem parecer favorável de acesso do Operador Nacional do Sistema Elétrico (BRASIL, 2025).


A Empresa de Pesquisa Energética informou que realizará em 2026 um estudo específico para avaliar a entrada de grandes cargas no Estado. O trabalho deverá analisar as condições do sistema e as alternativas de reforço necessárias para permitir a conexão de projetos que, juntos, estão na ordem de 4 GW (EPE, 2026).

Entre outras coisas, será preciso saber quanto ainda cabe nas principais subestações e corredores de transmissão e quais adaptações serão necessárias para receber essa demanda. O órgão responsável pelos estudos de planejamento energético brasileiro já está avaliando quais intervenções poderão ser necessárias para conectar cargas dessa magnitude ao sistema do Rio de Janeiro (EPE, 2026). Por isso, dizer simplesmente que os data centers funcionarão com “energia limpa” resolve apenas uma parte da equação. Energia renovável também precisa chegar até a tomada. E transmissão, subestações e reforços de rede não aparecem por mágica.

A conta de luz vai aumentar?

 

Aqui convém segurar a ansiedade por uma resposta simples: até agora, não há estudo público que permita afirmar que o Rio AI City aumentará a tarifa residencial da Light em um determinado percentual. Dizer que cada carioca pagará R$ 10, R$ 20 ou qualquer outro valor a mais por mês seria especulação. Só que o raciocínio contrário também não se sustenta automaticamente. Uma nova carga na ordem de 3 GW pode exigir investimentos e adaptações relevantes no sistema elétrico.


A Agência Nacional de Energia Elétrica explica que aquilo que pagamos na conta não corresponde apenas ao custo da eletricidade produzida. Entram ali energia, transmissão, distribuição e encargos setoriais. Na estrutura tarifária das distribuidoras, a chamada Parcela A reúne justamente custos associados à compra de energia, transmissão e encargos (ANEEL, 2022a).

A ANEEL também estabelece procedimentos próprios para tarifas de uso do sistema, custos de transmissão e execução de melhorias e reforços na rede (ANEEL, 2026a). Então chegamos à pergunta central: se forem necessárias novas obras para conectar esses grandes data centers, quem vai pagar? Se toda a infraestrutura específica exigida pelo Rio AI City for bancada pelos próprios investidores, o argumento de que esses custos seriam socializados perde bastante força. Agora, se parte relevante dos reforços acabar remunerada por mecanismos compartilhados do sistema elétrico, o cenário é outro. Consumidores sem relação direta com os data centers poderiam participar, ainda que indiretamente, do financiamento de parte da infraestrutura necessária para mantê-los funcionando.


Por enquanto, isso é uma possibilidade a ser investigada, não um aumento comprovado na tarifa residencial da Light. Grandes consumidores também pagam tarifas e encargos pelo uso das redes. A divisão final dependerá de como cada empreendimento será conectado, das obras consideradas necessárias e das regras regulatórias aplicáveis. É justamente essa conta que merece acompanhamento. Público e privado não são a mesma coisa e a gente sabe bem no bolso de quem vai recair. O dinheiro do BNDES não significa automaticamente dinheiro entregue gratuitamente a empresas privadas. Crédito concedido por um banco público pode ser reembolsável, cobrar juros e produzir retorno financeiro. Da mesma forma, não se pode chamar automaticamente uma linha de transmissão de “subsídio a data center” apenas porque ela atende uma região onde há um empreendimento desse tipo.


Só que o poder público dispõe de várias maneiras de reduzir custos ou riscos de um investimento privado. Crédito público é uma delas. Incentivo tributário é outra. Infraestrutura, reorganização territorial e expansão da rede elétrica são coisas diferentes e precisam ser analisadas separadamente. No caso tributário, já existe algo concreto: o Redata. A Lei nº 15.504/2026 criou tratamento fiscal específico para o setor, enquanto documentos do Ministério da Fazenda registram uma renúncia de receita estimada associada ao regime (BRASIL, 2026a; BRASIL, 2026d). Chamar todo o Rio AI City de “gasto público” também. O que interessa saber é quanto do risco e do custo ficará efetivamente nas mãos dos investidores e quanto será financiado, absorvido ou facilitado pelo Estado e pelo sistema elétrico.

 

Benefícios privados, custos compartilhados?

 

A defesa do Rio AI City pelas Big Techs é conhecida. A Prefeitura aposta que o complexo atrairá empresas de tecnologia, startups, centros de pesquisa e investimentos ligados à inteligência artificial, formando um novo ecossistema econômico na cidade (RIO DE JANEIRO, 2025a; RIO DE JANEIRO, 2026b). Data centers movimentam quantidades impressionantes de dinheiro e eletricidade. Isso, sozinho, não significa que produzam empregos permanentes, arrecadação municipal e benefícios sociais na mesma proporção.


Existe uma diferença considerável entre o número de pessoas necessário para construir um complexo dessa escala e a força de trabalho permanente empregada depois que instalações altamente automatizadas entram em operação. Bilhões anunciados em investimento também não são sinônimo automático de bilhões em benefício líquido para a cidade. Uma avaliação pública realmente convincente teria de colocar os dois lados na mesma planilha: empregos temporários e permanentes, arrecadação adicional, incentivos fiscais, financiamento público, valor econômico das áreas utilizadas, investimentos privados, obras de transmissão, infraestrutura urbana necessária e eventual impacto tarifário.


Não estamos simplesmente assistindo à chegada inevitável da inteligência artificial ao Rio de Janeiro. Existe uma escolha de política pública em curso. A Prefeitura decidiu disputar esse mercado. Eduardo Paes lançou o projeto em 2025. A Invest.Rio abriu negociações com investidores. A administração municipal começou a estruturar o uso da região do Parque Olímpico. Depois entraram BNDES, Finep, ministérios federais, Eletrobras e empresas privadas. Oracle e Elea assinaram memorando com a Prefeitura. Em 2026, já sob Eduardo Cavaliere, Prefeitura, CCPar e Elea aprofundaram a cooperação em torno do empreendimento (RIO DE JANEIRO, 2025a; RIO DE JANEIRO, 2025b; BNDES, 2025; FINEP, 2025; ELEA DATA CENTERS, 2025; RIO DE JANEIRO, 2026a). Depois veio o Redata, acrescentando à equação uma política tributária nacional especificamente voltada à atração de data centers (BRASIL, 2026a; BRASIL, 2026b). Nada disso, isoladamente, demonstra que essa política seja vantajosa à população.


É justamente por isso que a discussão pública importa. Se uma cidade decide mobilizar território, infraestrutura, capacidade energética e articulação institucional para construir um dos maiores polos de data centers do continente, seus habitantes têm razões para querer conhecer mais do que o número de bilhões prometidos pelos investidores. Também interessa saber o que está sendo oferecido em troca. A pergunta que continua sem resposta O debate sobre o Rio AI City costuma começar com inteligência artificial e terminar em bilhões de dólares. Talvez esteja começando pelo lado errado.


A EPE já estuda alternativas de reforço para permitir a entrada de aproximadamente 4 GW de novos projetos no Estado do Rio de Janeiro (EPE, 2026). A ANEEL deixa claro que energia, transmissão, distribuição e encargos fazem parte da estrutura econômica do setor elétrico (ANEEL, 2022a; ANEEL, 2026a). O BNDES participa da articulação financeira e chegou a estudar um fundo de até R$ 1 bilhão para data centers e inteligência artificial (BNDES, 2025). A Prefeitura conduz a estratégia territorial e de atração de investimentos (RIO DE JANEIRO, 2025a; RIO DE JANEIRO, 2025b). O Governo Federal, por sua vez, criou um regime tributário específico para estimular essa indústria (BRASIL, 2026a; BRASIL, 2026d).


Enquanto isso, empresas e fundos privados se posicionam em torno de uma infraestrutura digital cujo investimento potencial é medido em dezenas de bilhões de dólares. É motivo suficiente para perguntar quem pagará pela infraestrutura necessária para fazê-lo funcionar. Se os empreendimentos assumirem integralmente os custos adicionais que provocarem no sistema e produzirem arrecadação, empregos permanentes e atividade econômica capazes de compensar os incentivos recebidos, teremos um determinado balanço entre custos e benefícios. Se uma parcela relevante desses custos acabar compartilhada pela sociedade enquanto os ganhos econômicos permanecerem concentrados entre operadores e investidores, o balanço será outro. Por enquanto, não temos informação pública suficiente para fechar essa conta.


E talvez essa seja a pergunta mais importante em torno do Rio AI City. Antes de transformar 3 GW, ou eventualmente 3,2 GW, em símbolo incontestável do futuro tecnológico do Rio, vale saber quanto esse futuro custará, quem ficará com seus benefícios e quem será chamado a pagar por ele.

 

E se acidade olímpica está “desmoronando”, os data centers não vão desmoronar?


Há ainda uma questão menos visível, mas importante: o próprio terreno onde esse novo polo tecnológico pretende crescer. A Barra da Tijuca e a baixada de Jacarepaguá estão sobre uma planície costeira geologicamente muito jovem, formada por depósitos de areia, argila, lama e matéria orgânica acumulados ao longo de milhares de anos em antigos ambientes marinhos, lagunares e pantanosos. Isso, em termos leigos, significa que, esta construção não encontra uma rocha firme e dura abaixo dela, como os clássicos granitos e gnaisses do Rioi de Janeiro e sim sedimentos inconsolidados, solo arwenoso, siltoso e argiloso. Vale aqui dizer que na verdae areia, silte e argila são medidas e não “coisas”, se uma rocha sofre erosão e gera um sedimento e ele tem entre 2mm e 0,064mm chamamos de areia (o que tem na praia geralmente, em sua maioria é quartzo que é um mineral nessa medida), abaixo disso de 0,064 mm a 0,004mm é silte e abaixo argila. Vale comentar que depende muito da rocha erodida, mas é interessante ver que a área quartzosa está sempre perto dos maciços famosos do rio de janeiro. Quem nunca foi a praia e fez uma trilha depois subindo o “morro” ou “pedra” ao lado?


Mas aqui, o maior problema são as camadas de argila mole e saturada em água por causa dio comportamento químico delas, as partículas de argilas se ligam, diferentemente da areia e tendem a absorber agua dentro de sua estrutura molecular. Quando recebem grandes cargas, essas camadas podem se comprimir lentamente, expulsando a água de seus poros devagar e fazendo o terreno baixar, processo conhecido como recalque. Quem quiser ver como é, só dar um goohle em “orla da praia de santos”.


A situação se torna mais delicada quando esse afundamento ocorre de maneira desigual, podendo provocar trincas, desnivelamentos e danos em ruas, tubulações e outras estruturas. A região já conhece esse problema: na Vila Pan-Americana, construída também na baixada de Jacarepaguá, vias apresentaram afundamentos, embora o Crea-RJ tenha afirmado à época que os edifícios não corriam risco de afundar. No próprio Parque Olímpico, a necessidade de fundações profundas já era conhecida, tanto que cerca de 1.500 estacas foram utilizadas nas fundações das arenas. Isso não significa que seja inviável construir os data centers do Rio AI City ali. A engenharia dispõe de soluções para terrenos desse tipo. Mas elas custam dinheiro. Fundações profundas, tratamento do solo, drenagem, monitoramento de recalques e proteção das redes externas podem aumentar a complexidade e o custo das obras. Para um data center, onde servidores, sistemas de refrigeração, geradores, transformadores e instalações elétricas exigem grande estabilidade, esse cuidado é ainda mais importante. Por isso, antes de celebrar a transformação da Cidade Olímpica em um gigantesco polo tecnológico, há uma pergunta bastante concreta que também merece resposta: o que dizem as sondagens e os estudos geotécnicos dos terrenos onde esses data centers serão construídos, e quanto custará preparar esse solo para recebê-los?


Ai meu camarada, entra outro problema e mais dinheiro gasto dos nossos bolsos em impostos para resolver.


A região da Barra já conhece esse tipo de problema. Na Vila Pan-Americana, também construída na baixada de Jacarepaguá, vias apresentaram afundamentos. À época, o Crea-RJ ressaltou que isso não significava que os 17 edifícios estivessem correndo risco de afundar. A distinção é importante: um edifício pode possuir fundações profundas apoiadas em camadas resistentes enquanto ruas, jardins, tubulações e outras estruturas superficiais ao redor respondem de maneira diferente ao recalque do terreno. A engenharia geotécnica existe justamente para resolver problemas desse tipo. Dependendo do que as sondagens mostrarem, podem ser empregadas fundações profundas, técnicas de melhoramento do solo, pré-carregamento, drenagem vertical, controle dos aterros e monitoramento dos recalques. Só que existe um detalhe pouco glamouroso nessa história. Tudo isso custa dinheiro.


E um data center não é exatamente uma construção tolerante a grandes deformações. É pesado, precisa de Servidores, sistemas de refrigeração, geradores, transformadores, tubulações e instalações elétricas precisam operar com elevada confiabilidade. Mesmo que os edifícios principais sejam estaqueados e permaneçam estáveis, pavimentos, redes externas, subestações, tubulações e conexões enterradas também precisam ser projetados levando em consideração o comportamento do terreno ao redor.


Por isso, antes de transformar a Cidade Olímpica em símbolo do futuro tecnológico carioca, talvez valha fazer uma pergunta bem menos futurista: o que dizem as sondagens e os estudos geotécnicos dos terrenos escolhidos para receber esses data centers? Quanto custará preparar esses terrenos para recebê-los e quem pagará essa parte da conta?

 

Referências


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AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL). Modalidades tarifárias. Brasília, DF: ANEEL, 24 fev. 2022b. Disponível em: site oficial da ANEEL. Acesso em: 21 set. 2026.

AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL). Procedimentos de Regulação Tarifária – PRORET. Brasília, DF: ANEEL, 2026a. Disponível em: site oficial da ANEEL. Acesso em: 21 set. 2026.

AGÊNCIA NACIONAL DE ENERGIA ELÉTRICA (ANEEL). Tarifas e informações econômico-financeiras. Brasília, DF: ANEEL, 2026b. Disponível em: site oficial da ANEEL. Acesso em: 21 set. 2026.

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EMPRESA DE PESQUISA ENERGÉTICA (EPE). REDATA: EPE acelera planejamento da rede para suportar crescimento recorde de Data Centers. Rio de Janeiro: EPE, 2026.

FINANCIADORA DE ESTUDOS E PROJETOS (FINEP). Finep assina protocolo para arranjo governamental inédito que vai impulsionar o Rio de Janeiro como hub de IA. Rio de Janeiro: Finep, 1 jul. 2025.

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RIO DE JANEIRO (Município). Rio AI City: início do projeto para o maior hub de data centers da América Latina. Rio de Janeiro: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro; Invest.Rio, 28 abr. 2025b.

RIO DE JANEIRO (Município). Prefeitura firma parcerias estratégicas em inteligência artificial no Rio Innovation Week. Rio de Janeiro: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 2025c.

RIO DE JANEIRO (Município). Prefeitura do Rio avança na implantação do Rio AI City com aporte de US$ 550 milhões para infraestrutura de inteligência artificial. Rio de Janeiro: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 9 jun. 2026a.

RIO DE JANEIRO (Município). Web Summit Rio mostra avanços em inteligência artificial, inovação e transformação digital. Rio de Janeiro: Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 12 jun. 2026b.

 

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