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Viva Frantz Fanon!


Da Martinica para o mundo


Frantz Omar Fanon, nasceu no dia 20 de julho de 1925 na Ilha da Martinica, então colônia da França. Seu pai ocupava um cargo médio na administração local o que permitiu à Fanon realizar seus primeiros estudos na ilha caribenha. Na escola secundária teve aulas com o poeta Aimé Césaire, que exerceu influência em sua formação inicial.


Aos 18 anos se juntou às tropas das Forças Francesas Livres para lutar contra o fascismo na Europa e concomitantemente contra o racismo nas fileiras do exército francês. Foi ferido em combate na cidade de Colmar, na fronteira nordeste entre França e Alemanha, em 1944. Recebeu a insígnia da Croix de Guerre por bravura. Voltou para a Martinica em 1945 onde ajudou na eleição de Césaire para prefeito de Fort de France, capital da ilha.


De 1946 a 1952 cursou medicina na Universidade de Lyon, França. Em 1953 assumiu o posto de chefe do Hospital Psiquiátrico Blida-Joinville, na Argélia. Com o objetivo clínico de “ouvir a loucura, ao invés de amordaçá-la”, Fanon implementou reformas radicais na instituição colonial. Três anos mais tarde, renunciou ao cargo no hospital para se juntar à luta contra o colonialismo francês. Serviu à Frente de Libertação Nacional (FLN) da Argélia como psiquiatra, jornalista, editor e diplomata, realizando trabalhos de reconhecimento e ensinando filosofia aos soldados na frente de batalha.


Pele negra, máscaras brancas


Pele negra, máscaras brancas publicado em 1952, primeiro livro de Frantz Fanon, é um texto fundamental para quem se dispõe a realizar estudos sobre raça. Nessa obra, Fanon declara seu compromisso com a liberdade do ser humano criticando o racismo existente na colônia e na metrópole sob os aspectos que vão desde a linguagem à cultura popular, do romance ao sexo, da antropologia à psicologia [1].

Explica o caráter estruturante do racismo e sua ideologia, a forma como ele envolve o ser humano. Fanon aponta que só é possível combater o racismo coletivamente, ou seja, pela ação política para mudar a superestrutura da sociedade.


Os condenados da terra


Publicação póstuma de Frantz Fanon, em “Os condenados da terra” é tratado os efeitos devastadores, como por exemplo na saúde mental, de mulheres e homens sob o jugo do colonialismo na Argélia, e por extensão em outras partes do mundo.

Fanon defende que em um verdadeiro processo de descolonização, o mínimo que se exige é que os últimos se tornem os primeiros. Nesse contexto não há espaço para conciliação, o colonizador é sempre um inimigo. Na luta contra o colonialismo, de acordo com Fanon, o lumpesinato das casas de lata e dos bairros miseráveis são a aponta de lança da ressurreição nas cidades. Destaca ainda o papel fundamental do campesinato, considerado por ele como classe revolucionária, na derrubada da estrutura colonial.


Escrito em plena corrida armamentista da Guerra Fria, seguindo a máxima cunhada pelo Presidente Mao Tsé Tung de que a bomba atômica é um tigre de papel, Fanon é assertivo ao dizer que os foguetes não intimidam os condenados da terra, uma vez que a atmosfera em que vivem, dia sim e outro também, é a da mais cruenta violência.


O intelectual militante


Fanon faz uma exigência ao intelectual formado nas universidades: casar o seu pensamento com o pensamento dos oprimidos. O que coaduna com o que Marx apresenta nas Teses sobre Feuerbach: “Até agora os filósofos se preocuparam em interpretar o mundo de várias formas. O que importa é transformá-lo”. O intelectual militante deve se comprometer com a práxis da insurgência e da verdadeira democracia, se situar na “zona de instabilidade oculta onde as pessoas habitam”, no “caldeirão fervilhante do qual emergirá o aprendizado do futuro” e, lá, “colaborar no plano físico”. Não pode se esquivar de debates genuínos e se tornar “uma espécie de homem sim que concorda com cada palavra que vem das pessoas”. O intelectual militante deve se incluir na “onda ascendente das massas”, visando alcançar “uma corrente mútua de iluminação e enriquecimento”. Nesse processo educar a si e às massas politicamente, tendo bem claro que não existem mulheres ou homens ilustres e responsáveis por tudo, e de que é das mãos criadoras do povo que se cria tudo. Como diz Lênin: “Todo cozinheiro deve saber dirigir o Estado” [2].


Interpretações equivocadas de Fanon


Jean-Paul Sartre e Hannah Arendt, realizaram interpretações da obra de Frantz Fanon reduzindo-as a simples maniqueísmo, a um libelo ressentido ou a manifesto em apoio à luta armada contra o colonialismo. Isso fez com que muitas pessoas deixassem de ler os escritos do martinicano. Entretanto é possível encontrar intelectuais que viram em Frantz Fanon um pensador que unia dialeticamente a teoria e a prática, para além da questão racial. Paulo Freire é um desses intelectuais que prestes a concluir o seu Pedagogia do Oprimido, durante seu exílio no Chile em 1968, leu “Os condenados da terra”. Resultado: teve que reescrever o seu trabalho mais conhecido.


Biblioteca de Frantz Fanon


A partir de sua biblioteca particular é possível entender a base teórica a partir da qual Frantz Fanon erigiu suas ideias. Uma publicação que traz uma lista comentada dos livros lidos por Fanon identificou que dos mais de 350 volumes de sua biblioteca, 150 são textos da área da medicina, dos 200 livros restantes, 53 são do Presidente Mao Tsé Tung, 13 são de Lênin, 10 de Karl Marx, além de coletâneas de Ho Chi Minh. Isso demonstra a importância do pensamento revolucionário marxista na formação de Fanon [3].


Questão cultural e da negritude em Fanon


Fanon defendia uma cultura verdadeiramente popular e combativa, irmanada com o povo. Diante disso, discordava de movimentos da negritude baseados em uma metafísica e num idealismo que se afastam da prática revolucionária. Em momento algum, ele diminui a questão da negritude, considera a luta antirracista e os movimentos de afirmação cultural legítimos no enfrentamento dos valores racistas do colonialismo, entretanto aponta os limites históricos, políticos, teóricos e ideológicos desses movimentos. A compreensão fanoniana da relação entre o negro e o branco não se baseia unicamente no determinante racial, mas sim na luta de classes que permeia sua obra. Ao criticar Sartre, o martinicano reafirma que sua dialética não é existencialista, antes sim alicerçada em Marx.


Em nossos dias, em que as armadilhas liberais e neoliberais tentam desviar os rumos dos movimentos populares, é fundamental que as palavras de Fanon se tornem ações concretas e que as revolucionárias e os revolucionários tenham a clareza de que sua práxis deve ser expressão do intelecto calcado na luta real. A revolução social radical é a única resposta válida para a verdadeira emancipação humana.


Frantz Fanon é mais atual do que nunca!



[1] SILVA, K. C. P.. DIALÉTICA E REVOLUÇÃO NO MARXISMO HUMANISTA DE FRANTZ FANON. In: Caroline Pacievitch; Frederico Duarte Bartz; Fernanda Feltes; Gustavo Koszeniewski Rolim. (Org.). Perspectivas Marxistas: educação, capitalismo e luta de classes. 1ed.Porto Alegre: Fi, 2022, v. 1, p. 216-234.

[2] FRANTZ FANON: o brilho do metal. Tricontinental, dossiê n. 26. Disponível em: https://www.marxists.org/portugues/fanon/ano/mes/90.pdf

[3] Carvalho, J. Por um Fanon revolucionário. Disponível em: https://blogdaboitempo.com.br/2019/07/20/por-um-fanon-revolucionario/



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