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Atualizado: 18 de jan.



Poucos artistas transformaram o desenho em instrumento político com tanta força quanto Chittaprosad Bhattacharya (1915–1978). Para negar a hierarquia das castas, abandonou o sobrenome Bhattacharya, associado à sua origem brâmane. Autodidata, poeta e ativista, fez da arte um meio de denúncia da miséria, do colonialismo e da injustiça social, deixando um legado que ultrapassou fronteiras e encontrou eco até mesmo na antiga Tchecoslováquia.


Nascido em Naihati, no estado de Bengala, Chittaprosad cresceu em meio às tensões do domínio britânico na Índia. Ainda jovem, aproximou-se do Partido Comunista da Índia (PCI), ao qual se filiou em 1940. Em um país submetido ao colonialismo, transformou o desenho em ferramenta de luta política, produzindo ilustrações, cartazes e caricaturas para jornais ligados ao partido, como People’s War e People’s Age. Sua arte não buscava o mercado nem o prestígio institucional: tinha como objetivo alcançar diretamente o povo.



Desde o início da carreira, com um estilo enraizado no realismo popular, Chittaprosad rejeitou os modelos artísticos dominantes de sua época, como a arte acadêmica e a pintura em têmpera da Bengal School, frequentemente voltadas às tradições espirituais e à estética clássica. Na década de 1930, enquanto estudava em Chittagong, posicionou-se abertamente contra o domínio britânico e contra a exploração promovida pelas elites locais.


O momento mais marcante de sua trajetória ocorreu durante a Grande Fome de Bengala (1943–1944), em plena Segunda Guerra Mundial, quando entre dois e três milhões e meio de pessoas morreram em decorrência da má gestão de recursos, de desastres naturais — como inundações — e de políticas coloniais britânicas, que incluíam o desvio de alimentos para a metrópole e a chamada “política de negação”, agravando ainda mais a crise sob o governo de Winston Churchill. A fome foi, assim, forjada no interior de um processo colonial brutal.



Chittaprosad percorreu vilas e cidades devastadas pela escassez de alimentos, registrando em desenhos diretos e cruéis o sofrimento humano. Esses trabalhos foram reunidos no livro Hungry Bengal, cuja força visual levou as autoridades britânicas a censurarem e queimarem exemplares da obra.


O desenvolvimento indiano do realismo popular e a influência de Mao


Chittaprosad fez uma escolha estética e política deliberada: em vez de produzir retratos de líderes ou figuras heroicas, concentrou-se em camponeses, trabalhadores, famílias famintas, mulheres e crianças — sujeitos anônimos que compunham as massas. Suas imagens partem “de baixo para cima”: as figuras comuns dominam a composição, traçadas com linhas fortes e diretas, enquanto personagens das elites, quando aparecem, surgem reduzidos à caricatura ou à crítica mordaz.



Esse estilo de caráter documental aproxima sua obra de um realismo social e jornalístico, no qual rostos emagrecidos, olhares vazios e corpos debilitados “falam” por si mesmos sobre a miséria e a injustiça estrutural.


A arte produzida por artistas-ativistas ligados ao comunismo, como Chittaprosad, possuía um caráter ambíguo. De um lado, era vista como “partidária” e ideológica nos debates da vanguarda cultural da época; de outro, não reproduzia simplesmente os modelos soviéticos, pois desenvolvia uma linguagem própria, centrada no povo e não na exaltação direta do partido.



Nos anos 1950, já afastado do PCI, Chittaprosad passou a retratar Mao Tsé-Tung como símbolo de paz, anti-imperialismo e libertação, em sintonia com os processos de descolonização e com o contexto da Guerra Fria. Essa iconografia, porém, tornou-se gradualmente marginal, tanto pela perda do apoio cultural do partido quanto pela emergência, na Índia pós-independência, de uma nova estética nacional que esvaziou o imaginário revolucionário dos anos 1940.


A centralidade visual de Mao retornaria com força no final da década de 1960, associada ao movimento maoísta dos naxalitas, que mobilizou camponeses e redesenhou o campo político e simbólico, sobretudo em Calcutá. Nesse contexto, Mao voltou a ser concebido como figura-chave de uma possível “revolução cultural” indiana.



Rompimento com o partido e reconhecimento internacional


A partir de 1948, em desacordo com os rumos do PCI, Chittaprosad rompeu formalmente com a organização, embora continuasse a participar de frentes de denúncia e de apoio às revoltas camponesas, como a de Naxalbari. Estabeleceu-se nos arredores de Bombaim (atual Mumbai), mantendo-se fiel à sua postura crítica e independente.


Nesse período, construiu, por meio de cartas e de contatos pessoais, uma rede de solidariedade internacional, especialmente com intelectuais e instituições de Praga, na então Tchecoslováquia socialista. Essas conexões garantiram-lhe reconhecimento fora da Índia: suas obras passaram a circular em revistas culturais europeias, e a National Gallery Prague adquiriu uma coleção significativa de suas gravuras. Amigos tchecos também o apoiaram financeiramente e ajudaram a divulgar seu trabalho, num momento em que ele permanecia marginalizado em seu próprio país por manter uma arte voltada à denúncia social e à solidariedade internacional.



Influenciado por esse intercâmbio e já fora das fileiras do partido, Chittaprosad criou o teatro de fantoches Khelaghar, voltado às crianças de bairros periféricos. Ele próprio escrevia os textos, desenhava os cenários e manipulava as marionetes. A infância, a vulnerabilidade e a esperança tornaram-se temas recorrentes de sua produção tardia, integrados ao seu projeto de ativismo cultural e político.


Chittaprosad (ao meio)
Chittaprosad (ao meio)

Chittaprosad morreu em 1978, em Calcutá, importante centro político do movimento naxalita. Embora não haja registros formais de sua filiação ao PCI-ML, suas obras continuam a ser utilizadas até hoje como uma das principais representações visuais associadas ao socialismo na arte.



Foto: Octavio Jones/AFP
Foto: Octavio Jones/AFP

Dezenas de milhares de pessoas foram às ruas por todo os EUA nos últimos 5 dias, desde o assassinato covarde de Renee Good, em Minneapolis, na quarta feira (07). Ao acompanhar uma abordagem do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) no bairro onde morava, foi enquadrada em seu carro e, ao manobrar para se afastar do local, foi baleada brutalmente na cabeça com vários tiros. Porta-vozes do governos alegaram que Renee acelerou contra o oficial, o que vídeos divulgados de diversos ângulos deixam claro que não ocorreu.


Renee era voluntária de uma rede comunitária de monitoramento de abordagens do ICE, iniciativa que se generalizou pelo país como resposta aos métodos agressivos e fascistas aplicados por seus agentes. Na terça-feira (6), o governo fascista de Trump começou uma ofensiva em Minneapolis, enviando 2 mil agentes, a maior quantidade de agentes do ICE enviados a uma cidade - com centenas sendo enviados após as manifestações, superando por muito o número de policiais locais.


Este brutal assassinato é mais um degrau na escalada fascista do governo Trump, que espelha internamente sua política de ataques aos povos oprimidos do mundo. A resposta interna para a crise política e econômica de confrontação de sua hegemonia internacional é a agressão brutal aos direitos mais básicos, enquadrando a população imigrante como responsável pela crise que o país enfrenta. Esta velha tática já é conhecida desde os nazistas de Hitler, requentada ao longo das décadas até o século XXI pela extrema-direita, onde para dissimular a crise capitalista na qual se encontra, os governos taxam como principais inimigos grupos discriminados racialmente e considerados estrangeiros.


No dia seguinte a este brutal assassinato, já com dezenas de manifestações se espalhando pelo país, oficiais do ICE balearam dois imigrantes venezuelanos, Yorlenys Contreras e Luís Moncada, em frente a um hospital, na cidade de Portland, no estado de Oregon. A mulher foi baleada no peito e o homem na perna, ambos foram hospitalizados, mas sem informações divulgadas sobre seu estado. Novamente, a alegação dos agentes é de que o casal teria acelerado com seu carro em direção aos oficiais durante uma abordagem, alegação completamente desmoralizada pelo assassinato de Renee. O modus operandi da manipulação fascista neste caso fica evidente: tratar a evasão com um veículo durante uma abordagem como ataque direto a um oficial, prática definida pela secretária de segurança dos EUA como “terrorismo doméstico”.


A brutalidade com que Renee foi morta despertou a fúria popular por todo o país, tal como no caso de George Floyd (morto sufocado a menos de 2 quilômetros de onde Renee foi baleada), Breonna Taylor, Sonya Massey e outras vítimas da polícia fascista dos EUA, revelando que o povo norte americano não irá tolerar ser executado pelo Estado. Logo na noite de seu assassinato, cerca de 400 manifestantes protestaram em frente ao escritório do ICE na região e mais de mil manifestações ocorreram no final de semana, onde manifestantes enfrentaram temperaturas negativas para protestar exigindo o fim das operações do ICE por todo o país, em Nova York, Minneapolis, Austin, Seattle, Portland, Filadelfia, Boston e outros. Na capital Washington, milhares protestaram em frente à sede do ICE e à Casa Branca.



Ofensiva Fascista de Trump


O governo de Trump realiza uma ofensiva contra imigrantes sem precedentes. Em 2025 foram 352 mil imigrantes presos e deportados, tratados desde a abordagem como indivíduos sem direitos, com brutalidade e desumanização, realizando detenções sem processos criminais instaurados, separando crianças de suas famílias, lembrando todo o mundo com seus centros de detenção, os centros de concentração da Alemanha nazista, substituindo a execução em massa, pela deportação em massa.


Desde o início do atual mandato de Trump, o investimento da polícia imigratória triplicou, chegando a U$ 29,9 bilhões de dólares ao ano, de acordo com o Conselho Americano de Imigração. Este valor só não é maior do que o orçamento das Forças Armadas de 16 nações do mundo, segundo o SIPRI Fact Sheet, instituição independente de pesquisa em segurança global, sendo maior, inclusive, do que o das Forças Armadas brasileira. Outros U$ 45 bilhões de dólares foram investidos na construção de centros de detenção para imigrantes, chegando a conter 69 mil pessoas detidas no último ano.


Este investimento colossal, somados aos U$ 997 bilhões de dólares gastos em 2025 com as Forças Armadas norte americanas (o triplo da segunda maior, China), junto ao seu resultado direto na forma de agressão colonial e violação de direitos em seu próprio território, manifestam a fascistização interna dos EUA e a agressividade imperialista crescente com que defende sua hegemonia mundial, rompendo qualquer limite humano, se por um lado demonstrando sua potência, também por outro o seu desespero. 


Foto: Platt/Getty Images
Foto: Platt/Getty Images

Rebelar-se é Justo!


Pois os frutos do terror que tenta aplicar ao povo em seu território e aos povos do mundo não esperaram, em nenhum dos casos, nem 24 horas, como nas manifestações massivas nos EUA e a mobilização armada do povo venezuelano, nem 1 segundo, como nos gritos furiosos da esposa de Renee, ouvidos após os tiros serem feitos pelo agente do ICE, Jonathan Ross. Seja Trump ou qualquer outro que aplique uma política fascista ao seu povo, só irá colher uma revolta crescente, que tende a se organizar - já foram registrados nos EUA o acompanhamento armado de abordagens políciais, por parte de militantes negros revindicando o histórico Partido dos Panteras Negras.


As massas populares conhecem bem como usar sua força, contrariando o pacifismo que mesmo opositores de Trump fizeram questão de celebrar, ao parabenizar que diante de um assassinato tão brutal, terem havido “manifestações pacíficas”. Estas condenações só servem às classes dominantes, que se dividem em atacar e cinicamente se colocar ao lado do povo, desesperados por acreditar no que afirmam quando repetem que os que se revoltam com violência para se defender do Estado são apenas “alguns casos” ou que são “criminosos disfarçados de manifestantes”. Quando fazem ser o povo as vítimas do desabamento da sociedade burguesa, é preciso decidir qual direção será dada às pedras: se às instituições repressivas do Estado ou se será permitido serem as nossas cabeças.

Atualizado: 14 de jan.


Foto: Mahdi Aminzadeh
Foto: Mahdi Aminzadeh

Nas últimas semanas o Irã tem sido alvo de uma intensa campanha de agitação e protestos antigoverno que, apesar de explorarem legítimas dificuldades econômicas, como o impacto das sanções norte-americanas que devastaram a economia do país persa, não podem ser compreendidos fora do contexto mais amplo de sucessivas tentativas de ofensiva imperialista por parte dos Estados Unidos e “Israel”. Trump e setores da diplomacia estadunidense não só condicionaram qualquer alívio às sanções à submissão política de Teerã, como têm publicamente incentivado protestos e até sugerido apoio direto à derrubada do governo. Recentes declarações do presidente dos EUA apelando aos iranianos para “continuarem protestando” e prometendo que “a ajuda está a caminho” revelam, sem disfarce ou meias palavras, a intenção de capitalizar sobre a instabilidade interna para pressionar por uma mudança de regime que sirva aos interesses estratégicos de Washington na região. 


A narrativa de uma oposição puramente doméstica é reforçada pela mídia ocidental e por forças políticas alinhadas ao capital global, mas ignora deliberadamente que o esfriamento econômico que alimenta tal descontentamento está diretamente ligado à máxima pressão imperialista - sanções, ameaças de intervenção militar, chantagens e a constante tentativa de isolar o Irã internacionalmente. O próprio governo iraniano tem dito repetidamente que conspirações e ordens vindas do exterior infiltraram as manifestações com o objetivo de provocar violência, criar pretextos para intervenção e empurrar o país para uma crise política profunda. Diplomatas de Teerã denunciaram que elementos bem treinados e financiados têm agido com claros objetivos desestabilizadores, com instruções vindas de fora do país para inflar conflitos e pressionar o Ocidente a intervir. 


Ontem, em resposta a essa ofensiva explícita, o governo convocou enormes manifestações contra a ingerência estrangeira, colocando milhões de iranianos em uma mobilização nacional de unidade anti-imperialista. Milhões de pessoas marcharam em Teerã e em outras cidades com bandeiras nacionais, entoando slogans contra os Estados Unidos e Israel, e defendendo a independência e a integridade territorial do país diante de tentativas de desestabilização externa. O líder supremo do Irã, Ayatolá Ali Khamenei, declarou que essas mobilizações representam um aviso solene às potências estrangeiras de que o Irã não sucumbirá às intrigas e conspirações de quem procura dividir o povo iraniano e impor um governo subserviente aos interesses de Washington e Tel Aviv. 


A tentativa de vincular as atuais manifestações a um movimento espontâneo de “liberdade” é uma farsa amplamente promovida pelo capital global e pela mídia hegemônica alinhada ao imperialismo. Quando Trump discute publicamente opções militares ou pressiona economicamente os parceiros comerciais do Irã, fica claro que seu objetivo não é aliviar o “sofrimento do povo iraniano”, mas aproveitar o descontentamento social como pretexto para reconfigurar a ordem geopolítica no Oriente Médio de acordo com os interesses estratégicos dos Estados Unidos e da entidade sionista. 


Isso nos leva a uma personagem central na tentativa de instrumentalização externa: Reza Pahlevi, o autoproclamado “príncipe” herdeiro do antigo regime monárquico iraniano. Pahlevi, vivendo em exílio confortável, cercado por paparazzis e vendilhões da pátria e em estreita sintonia com círculos políticos e midiáticos do Ocidente, tem sido promovido como rosto da oposição, inclusive por Washington. Ele mesmo chegou a afirmar que os protestos “não existiriam sem a pressão de Trump” e a propor um plano de transição política para liquidar a República Islâmica e instaurar um novo regime mais alinhado à agenda ocidental. 


É essencial desmascarar Reza Pahlevi por aquilo que ele realmente representa: não um libertador, mas o rosto restauracionista de um passado monárquico, caduco e subserviente aos interesses colonialistas. A monarquia que ele simboliza no imaginário ocidental nada tem de emancipadora, esta foi historicamente cúmplice das potências estrangeiras, especialmente britânicas e norte-americanas, na exploração dos recursos e na submissão do povo iraniano. Seu reaparecimento no cenário político é um sinal de que o imperialismo busca substituir um regime soberano por outro completamente dependente, preparando o terreno para abrir o país aos capitais globais e às estratégias geopolíticas de Washington e Tel Aviv.


A luta por autodeterminação não pode ser cedida às chantagens e intervenções de potências estrangeiras, nem entregue às mãos de figuras restauracionistas como Pahlevi, um homem que nunca sequer pisou em solo iraniano e é incapaz de compreender as particularidades e minúcias do povo daquele país. Assim como não deve ser entregue aos gerentes do imperialismo, que não representam os interesses populares, mas a continuação de uma lógica de dominação externa disfarçada de “mudança democrática”.

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