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Em memória do camarada Ganesh publicamos tradução do texto de Harsh Thakor sobre sua vida entre a luta do povo indiank. Foi militante de quatro décadas do Partido Comunista da Índia (Maoista) assassinado em encontro forjado na região de Gumma no dia 25 de dezembro.


ABAIXO A OPERAÇÃO KAGAAR!


O camarada Paka Hanumanthu, ou Ganesh, parte após iluminar a chama da Revolução enfrentando os mais duros perigos por quatro décadas — Harsh Thakor


O camarada Paka Hanumanthu, conhecido carinhosamente como Ganesh e mais tarde como Roopa Dada, faleceu. Ele foi morto em um encontro forjado e encenado (bootakapu encounter) na região florestal de Gumma, em Ni Kandhamal, no dia 25 de dezembro de 2025, domingo, por volta das 12h, em sua aldeia natal Pullemla, Chandur Mandal, distrito de Nalgonda, estado de Telangana.


Por mais de quatro décadas, o camarada Hanumanthu iluminou a luz do movimento revolucionário. No contexto das perdas fatais que o movimento sofreu nos últimos dois anos, seu martírio assume um significado especial. Ele conquista um lugar permanente entre os revolucionários maoístas martirizados.


O camarada Ganesh permaneceu firme no serviço ao movimento revolucionário desde a juventude até o fim de sua vida, aos 67 anos (1985–2025), personificando a verdadeira essência de um revolucionário.


A vida revolucionária do camarada Ganesh concentrou-se na reorganização política e organizativa. Ele transformou os adivasis em uma força coesa de guerreiros militantes na luta por seus direitos e, como CCM, orientou os massivos protestos tribais de 2021 a 2024. Seus escritos foram publicados por amigos revolucionários em 2023. Seu martírio ressuscitará uma nova centelha revolucionária para que novos lótus floresçam.


A trajetória de Ganesh foi marcada pela capacidade de ressurgir dos mares mais tempestuosos, recolocando o movimento nos trilhos diante dos perigos mais severos. Foi um testemunho de como um movimento revolucionário forja um novo tipo de ser humano — aquele que, ao perecer, planta sementes para que novas rosas floresçam. Com elevada diligência, ele revelou a impressionante capacidade das massas de realizar ações retaliatórias contra as classes dominantes.


Fundamentos e ativismo inicial


Quando pensamos no camarada Ganesh, a região de Gangaloor (Oeste de Bastar) surge imediatamente como sinônimo de sua atuação.

Hanumanthu teve seu batismo no movimento como estudante radical. Nascido e criado em Nalgonda — terra intimamente ligada à Luta Armada de Telangana —, desempenhou um papel ativo como líder estudantil radical durante o ensino intermediário. Atendendo ao chamado do Partido, mudou-se posteriormente para Dandakaranya como revolucionário em tempo integral.


Reconhecendo seu potencial, o Partido inicialmente o designou para a frente urbana. Naquele período, vários ativistas foram enviados a diferentes cidades da Índia Central para construir uma base organizativa de apoio ao movimento florestal. Como parte desse esforço, o camarada Ganesh foi designado para Jagdalpur, onde estabeleceu fortes vínculos com a juventude local e dedicou-se prioritariamente ao estudo da língua hindi.


Um pilar da unidade organizativa


Em Jagdalpur, o camarada Ganesh esteve envolvido em diversas funções durante as negociações de unidade entre o MCC e o People’s War Party. Embora essas discussões tenham sido temporariamente interrompidas por razões políticas, elas foram concluídas com sucesso em 2004. Destaca-se sua participação como delegado no Congresso de Unidade de 2007.

Em 2017, foi incorporado ao Comitê Central (CC) e, até seu último suspiro, serviu como CCM (Membro do Comitê Central), dedicando literalmente a última gota de sangue ao movimento.


O arquiteto do Oeste de Bastar


Respondendo às necessidades do movimento florestal, Ganesh integrou-se à luta em Bastar em 1990. Serviu oficialmente ao movimento de Dandakaranya (DK) em diversas funções até 2018, e de forma não oficial até junho de 2023.

Em 2019, foi nomeado membro do Bureau Regional Sul (SRB), que cobre a tríplice fronteira entre Tamil Nadu, Karnataka e Kerala. Contudo, devido a graves problemas de coordenação interna, não conseguiu chegar à região. Com prisões e martírios atingindo a liderança local, o movimento lutava para se manter ativo.


Consequentemente, na 8ª reunião, o Comitê Central foi obrigado a enviá-lo para Odisha. Enfrentando inúmeros perigos com fervor revolucionário, ele chegou a Odisha em julho de 2023 e integrou a equipe de CCMs. Foi ali que selou sua obra de vida, deixando lições indeléveis para o Partido por meio de seu sacrifício supremo.


Um líder das massas


Ganesh atuou por décadas no Oeste de Bastar, especialmente na região de Gangaloor. Estava tão profundamente integrado à comunidade que conhecia cada aldeia, cada casa e cada criança pelo nome. O povo, em retribuição, o acolhia com afeto.


Durante o período da Salwa Judum, quando Ganesh convocou a comunidade Koya a se proteger enviando um membro de cada casa para o PLGA (Exército Guerrilheiro Popular de Libertação), a resposta foi espontânea: centenas de jovens foram dedicados ao movimento. Esse sacrifício não apenas desferiu um golpe mortal contra a Salwa Judum, como também lançou as bases para a formação de companhias do PLGA e, posteriormente, de um batalhão.


Após tornar-se membro do Comitê Zonal Estadual (SZCM) em 2000, trabalhou incansavelmente para impulsionar o movimento em DK. Durante a década da Operação Green Hunt (iniciada em meados de 2009), enquanto ataques militares devastavam Dandakaranya, Ganesh garantiu que os Janatana Sarkars (Governos Populares) avançassem do nível de aldeia para o nível divisional no Oeste de Bastar.


Campanhas de repressão e resistência popular


As regiões onde atuou — Gangaloor, Bhairamgarh, Bijapur e Kutru — tornaram-se centros de intensa luta de classes em Bastar. Nessas áreas, o conflito entre antigos chefes tribais feudais, que perderam terras e domínio devido à expansão do movimento revolucionário, e os adivasis oprimidos atingiu um ponto de ebulição.


Foi ali que começaram as campanhas de repressão contrarrevolucionária: primeiro o Jan Jagaran Abhiyan-1 no início dos anos 1990, seguido pelo Jan Jagaran Abhiyan-2 no final da mesma década, concentrado sobretudo em Gangaloor e Bhairamgarh. Em 2005, iniciou-se a campanha extremamente bárbara conhecida como Salwa Judum, na área de Kutru, distrito de Bijapur.

Todas essas regiões integravam a Divisão Oeste de Bastar, liderada diretamente por Hanumanthu durante várias décadas.


Apesar disso, todas as campanhas de repressão foram superadas pela resistência heroica do povo. As próprias massas tomaram a iniciativa e mostraram ao Partido o caminho da resistência. Um episódio emblemático ocorreu na aldeia de Kotrapal, nos primeiros dias da Salwa Judum, em 2005.


Após capturar e espancar brutalmente membros de associações em Tadimendri, capangas da Judum atacaram Kotrapal em 18 de junho. Policiais ameaçaram abertamente os moradores, instaurando um clima de terror: “Juntem-se à Salwa Judum ou queimaremos suas aldeias.” Ainda assim, os aldeões e membros da Milícia Popular retaliaram com arcos, flechas e ferramentas transformadas em armas contra centenas de capangas e forças armadas que os apoiavam.


Eles capturaram dez pessoas, realizaram um Panchayat (conselho da aldeia) e puniram duas figuras-chave. O camarada Hanumanthu atuou como catalisador desse espírito de resistência em Bastar, elevando a capacidade combativa dos adivasis. Foi realmente notável como ele restaurou o moral do povo para que se erguesse a partir de situações extremas.


Capacidade militar, administrativa e legado literário


Ganesh empenhou-se em aplicar a “Linha de Massas” na resolução dos problemas populares e dedicou especial atenção ao desenvolvimento agrícola dos adivasis na região de Gangaloor.

Entre 2018 e 2023, impedido de se deslocar por problemas de coordenação, concentrou-se em estudos e literatura em Dandakaranya. Adotou o nome “Roopa” (nome de um pássaro na língua Gondi) e explorou de forma profunda e precisa a história revolucionária de cada mártir do Oeste de Bastar até dezembro de 2024. Escrevendo sob o pseudônimo Ganesh Lahar, expressou de forma consistente a posição do Partido sobre diversas questões sociais.


A luta final em Odisha


Apesar do corpo envelhecido, da hipertensão e de problemas neurológicos que comprometiam sua mobilidade, mudou-se para Odisha em junho de 2023. Sua experiência anterior na região de Malkangiri (1991–1995), bem como seu conhecimento das línguas odia e bengali, revelaram-se inestimáveis.

Diante das condições perigosas em Odisha — informantes da polícia e falta de suprimentos médicos —, suportou cada dificuldade sem vacilar. Em dezembro de 2024, foi transferido da Subzona Ocidental para a Subzona Oriental para cumprir suas responsabilidades.


Funeral


Um funeral multitudinário foi realizado em sua memória no dia 28 de dezembro, em sua aldeia natal Pullemla, Chandur Mandal, distrito de Nalgonda, estado de Telangana. O evento ecoou as vibrações de seu espírito ainda vivo, comovendo e despertando as almas de milhares.



Milícias populares treinam com armamento pesado
Milícias populares treinam com armamento pesado

Diante de situações de grande complexidade, ou no curso de comoções da luta de classes, é natural que os fatos se sucedam com incrível velocidade, exigindo uma interpretação tão dinâmica quanto a marcha dos acontecimentos. Sem isso, estaríamos condenados a nos perder na “névoa da guerra”, ou, pior, tomar como verdade as cortinas de fumaça propositadamente criadas pelo imperialismo estadunidense – no que ele é mestre – e fazer o seu jogo de choque, confusão e desorientação.


No caso da Venezuela, quando, mesmo dentro do país, ainda não se sabem todas as circunstâncias que propiciaram o rapto de Nicolás Maduro e Cília Flores, a primeira e fundamental questão a se fazer é uma nítida demarcação quanto aos princípios.


Abrir “senões” sobre o caráter do regime chavista, neste momento, serviria apenas a enfraquecer o necessário esforço de unidade nacional para enfrentar o maior desafio à integridade do país de Bolívar desde a sua independência. A única exigência no calor da hora de uma agressão bárbara, que resultou no assassinato covarde de militares e civis, é que o governo mobilize todas as suas capacidades para defender o território do país. Se o faz, toda a nação deve se unir em torno dele. Tomar partido de modo decidido na luta patriótica e lutar contra as tendências capituladoras da burguesia nacional, no curso mesmo da resistência, é a melhor forma, na verdade, a única, de o proletariado ganhar as massas populares e criar condições para disputar a hegemonia. Foi o que predicou e aplicou com mestria o Presidente Mao quando da guerra sino-japonesa:


“Quando o imperialismo lança uma guerra de agressão contra um tal país, as diversas classes desse país, excetuado o pequeno número de traidores à nação, podem se unir temporariamente numa guerra nacional contra o imperialismo. A contradição entre o imperialismo e o país considerado passa então a ser a contradição principal e todas as contradições entre as diversas classes no interior do país (incluída a que era a contradição principal, a contradição entre o regime feudal e as massas populares) passam temporariamente para um plano secundário, para uma posição subordinada.” 

Por isto, neste momento, desde que o governo da Venezuela se pronuncie e aja pela resistência, é dever mobilizar as massas e apoiá-lo. Mais do que isso, empurrá-lo neste sentido. Isto, em primeiro lugar.


Mas, afinal, o governo venezuelano dá indícios de capitulação? Pode ter havido algum acordo entre setores da administração e o imperialismo ianque, como sugerem hoje os veículos da burguesia? Ou teria havido um grande acordo de bastidores entre o imperialismo ianque de um lado, Rússia e China de outro?


Naturalmente, traições e defecções sempre podem ocorrer, e o imperialismo sempre age em duas frentes: a militar, para golpear sobretudo as forças mais determinadas do campo oposto; e a política, para dividir e quebrantar o movimento revolucionário. Mas, para não nos perdermos no campo das hipóteses e do mero conspiracionismo, devemos nos ater à observação de Lênin de que “em política deve-se partir não do possível, mas do real”. O real é que, em primeiro lugar, o exército venezuelano não tem condições –como, de resto, nenhum exército profissional sulamericano – de prevenir ou contrarrestar simetricamente um ataque militar de grande intensidade norte-americano. É claro que a ausência de defesa antiaérea chama a atenção, bem como a vulnerabilidade do sistema de comunicação do país. Mas este não é o fato principal.


Concretamente, após o rapto de Maduro, todas as autoridades do país se pronunciaram pela resistência e as massas populares foram mobilizadas. O cargo de presidente não foi declarado vago, mas ocupado pela única pessoa que a Constituição autoriza a fazê-lo: a vice-presidente Delcy Rodrigues, que nas primeiras horas condenou o ataque ianque como “brutal e selvagem”. Dizer que ela foi “escolhida” por Trump, como fazem os monopólios de imprensa e não poucos veículos ditos de esquerda, é zombar da realidade e colocar-se de joelhos frente ao agressor.


É claro que os Estados Unidos trabalham para levar o governo à capitulação ou, quando menos, dividi-lo. Mas isto também revela que, embora vocifere sobre a escalada da agressão, a opção de invadir com botas no terreno o território venezuelano lhes seria extremamente custosa. Na verdade, a tentativa de forçar uma rendição sem luta ou um “acordo” leonino aos interesses venezuelanos indica mais um limite do que a plenipotência das forças agressoras. De outro lado, é presumível que haja nesse momento uma luta interna no governo venezuelano sobre qual linha adotar perante este acosso e ameaça implacáveis: luta de vida e de morte ou acumular forças por meio de negociações? Também há no país, certamente, forças pró-norte-americanas, associadas aos setores monopolistas, e elas não podem deixar de repercutir em maior ou menor escala no seio da administração. Seria ingênuo e contrário à própria história e à lógica política supor que não haja contradições internas nas forças chavistas, no momento em que elas perderam seu líder supremo. Há, portanto, neste momento, um impasse, tanto do lado agressor como do lado agredido, impasse este não arbitrariamente tramado por uma mente perversa, mas que expressa a correlação de forças real. 


Por isso, o pronunciamento de Delcy Rodrigues, na tarde de domingo, 4, foi mais matizado do que o seu primeiro e duro discurso na manhã do dia 3: agora, ela sinalizou disposição em negociar com Donald Trump, mas reafirmou a soberania venezuelana. Tomar esta ambiguidade – justificável, na medida em que visa ganhar um tempo indispensável para reorganizar as próprias forças perante uma ameaça existencial e polarizar a opinião pública norte-americana contra a guerra – como um discurso de capitulação é indicativo de capitulacionismo dos que o apontam nos outros. De resto, colocar tal análise em circulação serve a impulsionar ou a enfraquecer as mobilizações internas e internacionais contra a agressão imperialista? Qualquer militante e intelectual sério, engajado, deve se fazer tais perguntas em momentos como estes. Se, no futuro, uma linha de capitulação se impuser, caberá aos verdadeiros patriotas venezuelanos e internacionalistas de todo o mundo denunciá-la e lutar contra ela.


Por fim, sobre a suposta “conspiração” ou “concerto” entre Estados Unidos, Rússia e China para dividir o mundo em esferas de influência, ela nada mais é do que requentar a velha teoria de “ultra-imperialismo”, já desmoralizada no seu tempo por Lênin. A suposição de uma troca Ucrânia por Venezuela não faz sentido sob nenhum ponto de vista, mesmo porque a questão ucraniana é vital para a Rússia de uma maneira que a Venezuela não é, ao menos ainda, para os Estados Unidos. Essa suposição também erra ao pressupor uma igualdade de condições entre as potências, igualdade que não corresponde aos fatos. Como sublinhava o mestre marxista Lênin, “a desigualdade do desenvolvimento econômico e político é uma lei absoluta do capitalismo”. Ou seja, nós vivemos uma época de transição, caracterizada pela crise de hegemonia norte-americana, que não é ainda o seu próprio fim. Esta crise não será superada através de um acordo de cavalheiros, embora acordos táticos sempre sejam possíveis e até inevitáveis: é pela guerra, no fim das contas, que o imperialismo redivide as suas esferas de influência e é somente pela guerra revolucionária que as massas populares podem suplantar o imperialismo.


É precisamente neste ponto em que nos encontramos.


1 Presidente Mao, “Sobre a contradição”, 1937.

2  V.I. Lênin, “Cartas sobre a tática”, 1917.

3  V.I. Lênin, “Sobre a palavra de ordem dos Estados Unidos da Europa”, 1915.



Na madrugada deste sábado (3), os EUA consumaram uma agressão brutal e selvagem contra a Venezuela. Comandos norte-americanos bombardearam alvos militares e civis tanto na capital, Caracas, como nos estados de Aragua, Miranda e La Guaira, deixando cidadãos mortos e feridos. Nicolás Maduro, presidente constitucional da Venezuela, foi sequestrado juntamente com sua esposa Cilia Flores, e, segundo o criminoso de guerra e assassino Donald Trump, está sendo levado para ser apresentado à Justiça norte-americana, onde responderá a um processo-farsa por terrorismo e tráfico de drogas.


Nos primeiros momentos da agressão ianque, antes da sua captura, Nicolás Maduro ordenou a mobilização total das forças armadas e da população venezuelana. A vice-presidente, Delcy Rodrigues, nas primeiras horas do dia fez um firme pronunciamento em que classifica a agressão ianque como um ataque “brutal e selvagem” contra o povo venezuelano. Ela conclamou à resistência nacional, não apenas para defender os recursos energéticos do país, mas sobretudo em nome do seu direito sagrado à independência. “Nunca seremos escravos!”, concluiu. No mesmo tom, se pronunciaram o Ministro da Defesa, Vladimir Padrino e o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV). Nada até este momento indica a capitulação ou a queda do governo, cuja defesa se confunde, desde que foi desatada a agressão ianque aberta em meados do ano passado, brutalmente intensificada hoje, com a própria defesa da nação venezuelana.


Numa das mais infames peças da história moderna, Donald Trump declarou à emissora Fox News que acompanhou o sequestro de Maduro “ao vivo, como se fosse na TV” e que a Venezuela pagaria pelo petróleo “roubado” dos Estados Unidos – petróleo que está situado no sagrado território venezuelano. Em pronunciamento ao vivo, ao lado do cabecilha da extrema-direita latino-americana, Marco Rubio, Donald reiterou a defesa da anacrônica Doutrina Monroe, disse que ninguém mais disputaria com os Estados Unidos em “seu” hemisfério, declarou que os próprios Estados Unidos governariam a Venezuela e que as empresas petrolíferas ianques explorariam o seu petróleo. Foi um pronunciamento que afirmou de modo explícito a dominação colonial não apenas da Venezuela, como dos povos oprimidos de todo o subcontinente.


Neste momento, é inútil, impraticável e contraproducente nos lançarmos a conjecturas sobre os meandros da operação ilegal e imoral perpetrada pelos seguidores de Hitler contemporâneos. Sim, seguidores de Hitler, pois Trump tenta submeter os povos aos seus ditames pelo uso do terror, de operações relâmpago à margem de qualquer direito (mesmo o de guerra, que pressupõe declaração de hostilidades) e pela imposição de fatos consumados. Os principais cenários futuros (que podem ser combinados em muitas variações, sem que isso altere a sua essência), são estes:


1 - O governo venezuelano se une como um só na defesa da pátria e em rechaço à agressão ianque. Isto obrigaria os Estados Unidos a consumarem uma agressão em maior escala, que mergulharia a Venezuela numa poderosa guerra de guerrilhas contra o invasor e toda a América do Sul em uma situação revolucionária.


2 – O governo atual se divide, com uma parte aceitando fazer uma transição negociada. Neste cenário, a Venezuela caminharia para uma guerra civil, cujo conteúdo e programa, no entanto, seriam o de uma luta de libertação nacional.


3 – Capitulação incondicional do regime e desmobilização das milícias populares, com a ascensão de um governo títere ou mesmo militar de extrema-direita. Este cenário hoje, o mais desfavorável para a luta anti-imperialista, parece improvável.


É preciso portanto reiterar que por detrás da aparência de força dos Estados Unidos, eles carecem de legitimidade e de qualquer sentido histórico progressista. Se é certo que o imperialismo nunca deixou de praticar atrocidades e de subjugar os povos oprimidos da Ásia, África e América Latina, há uma distância abissal entre praticar e verbalizar com cinismo inédito a intenção de re-colonizar pela força a Estados independentes. Ninguém aceitará viver como escravo em pleno século XXI. Na verdade, Donald Trump é a expressão acabada da senilidade do imperialismo ianque. Ao sequestrar e levar um presidente de um país soberano a julgamento em seu próprio território, ele viola a própria ideia de Estado-Nação contida nos Tratados de Vestfália de 1648. Trata-se, portanto, de uma tentativa de empurrar o sistema internacional quatro séculos para trás!


Isto é naturalmente algo impraticável, que só aumentará o isolamento norte-americano e o ódio dos povos do mundo contra si. Estes, se levantarão parte por parte e crescentemente, como disse acertadamente o Presidente Mao quando da agressão ianque ao Panamá, em janeiro de 1964:


“Atuando despoticamente por toda a parte, o imperialismo norte-americano se colocou numa posição de hostilidade frente aos povos do mundo inteiro e se isola cada vez mais. Aqueles que não aceitam ser escravos jamais se vão deixar amedrontar pelas bombas atômicas e de hidrogênio que possuem os imperialistas norte-americanos. A corrente de cólera dos povos do mundo inteiro contra os agressores norte-americanos é irresistível. A sua luta contra o imperialismo norte-americano e seus lacaios vai conquistar seguramente maiores vitórias". (Mao Tsetung, Declaração em apoio à justa luta patriótica do povo panamenho contra o imperialismo norte-americano, janeiro de 1964).


São palavras proféticas, que já começaram a se cumprir do Irã, passando pelo Iêmen e Somália, até a Venezuela e toda a América Latina. Os ianques e seu exército de drogados e degenerados serão humilhados em nossas terras sagradas como foram na Coreia, em Cuba, no Vietnã, no Afeganistão, no Iraque e onde quer que ousaram pisar as suas botas imundas. No caso específico do nosso subcontinente, seus países, embora tenham degenerado para uma situação semi-colonial, gozam de duzentos anos de independência politica, independência esta conquistada em lutas sangrentas contra os colonialistas europeus, circunstâncias das quais nasceram poderosas culturas nacionais. Se, na primeira rodada, as guerras de independência enfrentaram e venceram o colonialismo, nesta segunda rodada as novas guerras de independência enfrentarão e vencerão o imperialismo, com uma distinção crucial: ao fazê-lo, elas só podem caminhar para o socialismo, ou seja, um regime em que à independência formal se some a emancipação nacional e social verdadeira.


Esmagar o fascismo, esmagar o imperialismo: tarefas inseparáveis


A nota do presidente Lula sobre o mais grave atentado à soberania de um país sul-americano desde as guerras de independência é um capítulo vergonhoso da história nacional. Embora condene a agressão ianque como uma ação que “lembra os piores momentos da interferência na política da América Latina e do Caribe e ameaça a preservação da região como zona de paz”, Lula não a classifica como um crime e nem cita o seu autor: Donald Trump e o imperialismo ianque. Este foi o mesmo governo que vetou a entrada da Venezuela nos Brics e não reconheceu a eleição de Maduro no último pleito venezuelano. Com efeito, a tática de Trump de negociar com Lula enquanto estrangulava a soberania venezuelana é o caso clássico de dividir para governar. “Pacificada”, no sentido romano, a “questão venezuelana”, alguém duvida que o próximo alvo da agressão ianque seja o Brasil?


Por isso, acreditar na possibilidade de uma política de apaziguamento a longo prazo seria um erro estratégico, na medida em que desarmaria as massas populares tanto ideológica quanto materialmente para defender a soberania nacional. Na verdade, essa política de apaziguamento tentada por Lula frente a Trump se confunde com sua política de apaziguamento com a extrema-direita brasileira, que é dirigida diretamente, sem qualquer disfarce, desde Washington. Todas as fichas da contenção golpista caíram sobre o STF. Embora algumas cabeças militares tenham sido julgadas, a estrutura das forças armadas e sua doutrina anticomunista obtusa seguem intocadas. As forças armadas brasileiras, na verdade, atuam como forças de ocupação pró-norte-americanas, uma casta privilegiada incapaz de qualquer projeto nacional independente e hostil ao próprio povo brasileiro. No Congresso, pululam os vendilhões da pátria. Portanto, não há como separar unilateralmente a questão nacional da questão democrática e social interna: sem que as massas se mobilizem de modo independente, não pode haver um futuro para a nossa nação; sem esmagar a extrema-direita fascista, quinta-coluna do imperialismo, e aqueles que conciliam com ela, não é possível haver qualquer soberania verdadeira.


Não há meio termo: ou uma independência nacional verdadeira, que implica a derrota dos lacaios internos do imperialismo; ou a exposição permanente aos golpes militares e agressões. Este é o futuro imediato da América Latina. Nem mesmo a roupagem democrática serve mais aos desígnios do imperialismo ianque.

A questão é que, como os séculos XX e XXI demonstram, a agressão desabrida do imperialismo e suas guerras de rapina podem acelerar as condições para que todas estas contradições, nacionais e sociais, convirjam para um mesmo ponto de ruptura. Nesse momento, os ensinamentos do Presidente Mao e da revolução chinesa – que não só não se confundem, como são os antípodas diretos do revisionismo chinês contemporâneo de Xi Jinping – de que o imperialismo ianque e todos os reacionários são tigres de papel, da necessidade de constituir uma poderosa frente única revolucionária contra o agressor e de que a guerra popular é invencível são a pedra de toque para o futuro de toda a humanidade trabalhadora.


Defender a Venezuela é defender a América Latina!

Preparemo-nos para uma segunda guerra de independência!

Morte ao imperialismo ianque!

Punição para Donald Trump, bandido inimigo da humanidade!

O imperialismo é um tigre de papel!

Pátria ou Morte!




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