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A armadilha eleitoral e o fracasso da conciliação


Chamou atenção de muitos, os resultados das últimas pesquisas sobre intenções de voto para as eleições presidenciais deste ano. Os principais institutos de pesquisa (Quaest e Datafolha), que soltaram atualizações nas últimas semanas, mostram pela primeira vez Flávio Bolsonaro numericamente à frente de Lula no segundo turno da disputa. Embora seja muito cedo, e praticamente inútil, adivinhar quem conquistará o pleito (deixemos o ofício de futurologia para os picaretas profissionais), já resta evidente como o atual governo fracassou no seu intuito de “pacificar” o país, ao invés de enfrentar para valer a mobilização golpista.


Ao se posicionar como autêntico partido da ordem, Lula e o PT concentram em si todo o descrédito do atual modelo econômico, político e social frente à maioria do povo brasileiro. Com efeito, a defesa da democracia formal, representada nas instituições burocrático-burguesas e suas infames figuras, convive com o esvaziamento crescente de todas as garantias fundamentais aos trabalhadores, num amplo espectro que abarca desde a continuidade do genocídio da juventude nas favelas – embora as ações no Rio e em São Paulo tenham maior visibilidade, a PM da Bahia, dirigida pelo PT, é a mais letal do Brasil – até a manutenção da “reforma” trabalhista de Temer. O caso do Banco Master, embora não relacionado especificamente ao governo, representa aos olhos da população as espúrias relações entre as “autoridades” da república e o sistema financeiro, cujos crimes mais atentatórios contra a nação são os praticados legalmente, como, por exemplo, a brutal taxa de juros sem par no mundo. Política cambial esta, aliás, mantida por Gabriel Galípolo e que representa uma verdadeira sangria do Orçamento da União em favor dos rentistas locais e estrangeiros. Se lançamos vistas à questão agrária, por exemplo, o Lula completa seu terceiro mandato com indicadores quase nulos de desapropriação de terras a favor de camponeses e o avanço das mineradoras contra os territórios indígenas, como na recentemente frustrada tentativa de privatização de hidrovias no Amazonas.

Quanto ao conteúdo da candidatura de Flávio Bolsonaro, é preciso observar a sua colocação de maneira criteriosa. Sem dúvida, a extrema-direita golpista, chefiada por Jair e Eduardo, é uma corrente da sua candidatura, mas ela não é hegemônica até aqui. Na verdade, o “rachadinha”, considerado o representante do “centrão” no seio do clã, renunciou até aqui à pregação mais extremada, como estratégia de atrair os caciques dos partidos direitistas do Congresso, a Faria Lima e os monopólios de imprensa (inclusive a Rede Globo) para o seu palanque. Isto não é apenas manobra, mas o reflexo de uma correlação de forças real, na qual, ao menos por ora, a extrema-direita puro-sangue não é capaz de vencer a eleição presidencial sozinha e muito menos preparar no curto prazo um novo golpe de Estado. Na verdade, a candidatura de Flávio é mais uma reedição na história brasileira de selar um pacto “com Supremo, com tudo”, para estancar a sangria e anistiar o próprio Bolsonaro e alguns outros personagens do seu desgoverno.


Flávio Bolsonaro representa um projeto de tipo Milei para o Brasil, ou seja, um projeto reacionário, antipovo e de corte fascista, mas não o perigo de um golpe iminente. Projetos como o seu se combatem nas ruas, com luta social, e não, mais uma vez, fechando os olhos para não ver o fracasso – a esta altura, mais do que fracasso, a falência enquanto um projeto histórico – do projeto de conciliação nacional representado por Lula. Este, no futuro, será lembrado como um centrista, que, se cumpriu um papel de salvaguarda contra o golpe militar em 2022, também bloqueou por décadas o avanço de qualquer estratégia revolucionária e mesmo minimamente emancipatória no campo popular brasileiro. A verdade é que desde os tempos da disputa com o PSDB, segundo os marqueteiros lulistas, o adversário representa o “fascismo” e a próxima eleição é “a mais importante da história”. Desde então, de vitória eleitoral em vitória eleitoral, a cada pleito os direitos sociais estavam mais dilapidados e as massas trabalhadoras mais descrentes no sistema político. Se subestimar o fascismo é um perigo, banalizar a sua classificação é uma velha artimanha reformista para capturar o movimento popular e fazê-lo um mero apêndice dos setores mais perfumados da burguesia.


Nessa equação ainda há, claro, os interesses externos, notadamente norte-americanos, que pesarão no processo eleitoral. Na verdade, a administração ianque articula junto às duas candidaturas principais, e adota uma política frente ao governo do PT e assoprar em público e morder no privado, com muito dinheiro investido em big techs. O que o Departamento de Estado e demais agências estadunidenses querem, por qualquer meio, é o acesso privilegiado às imensas reservas de recursos naturais que o País possui. Uma possível vitória de Flávio Bolsonaro escancararia este processo de subserviência, que, no entanto, é inerente à própria constituição do Estado Brasileiro. Vejamos, por exemplo, o papel inalterado das forças armadas nacionais como uma tropa de ocupação interna (a ponto de manter uma agenda de exercícios militares conjuntos com as FA ianques no momento em que estas intensificavam sua agressão à Cuba e à Venezuela), ou a atuação de Fernando Haddad como verdadeiro lobista da implantação de data centers no Brasil. Vários dos militares que cumpriram papel de proa no epicentro da tentativa golpista do princípio da década, como Vilas Boas, Heleno e Braga Netto exerceram cargos de confiança por indicação de Lula e Dilma, seja na infame intervenção no Haiti ou durante os megaeventos. Lula não representa uma alternativa à dominação do imperialismo norte-americano, e sim um modelo alternativo, mais negociado, desta mesma dominação.


Por tudo o que se disse, a contradição principal da sociedade brasileira na atualidade segue sendo entre as massas populares de um lado e o Estado burocrático-reacionário de outro. Como diz o Presidente Mao, em “Sobre a Contradição”:


“Quando o imperialismo não recorre à guerra como meio de opressão, mas utiliza formas de opressão mais moderadas, políticas, econômicas e culturais, a classe dominante do país semicolonial capitula diante do imperialismo; então, forma-se uma aliança entre eles para oprimirem em conjunto as massas populares. Nesse momento, as massas populares recorrem frequentemente à guerra civil para lutar contra a aliança dos imperialistas e da classe feudal. Quanto ao imperialismo, em vez de recorrer à ação direta, usa geralmente meios indiretos, para ajudar os reacionários do país semicolonial a oprimirem o povo, donde a acuidade especial das contradições internas”.



É claro que o imperialismo ianque – e não só ele, aliás – intervém na sociedade e nas eleições brasileiras, mas o financiamento de campanha e possíveis declarações de apoio não têm o mesmo peso de uma agressão militar direta. Na verdade, a verdadeira tarefa dos revolucionários brasileiros é construir através da luta direta, isto é, no chão das fábricas, territórios, escolas e áreas rurais, a frente única anti-imperialista, que não é uma frente eleitoral, porquanto o sistema político vigente é sócio do imperialismo na dilapidação das riquezas naturais e sociais da nação; em tempos normais, é mesmo o seu representante imediato. Por isso, os setores mais esclarecidos e politicamente engajados dos movimentos populares devem rejeitar a falsa polarização e levantar com coragem a bandeira do voto nulo ou da abstenção, maneira mais segura, aliás, de se vincularem às dezenas de milhões de descontentes que já se abstém ou escolhem um candidato apenas porque rejeitam mais o seu oponente. De resto, as classes dominantes não perguntam ao povo se a este interessa um golpe militar ou não. Portanto, a questão decisiva será sempre a da sua mobilização permanente e independente, seja qual seja o governo.

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