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A Copa do Mundo e as dissonâncias político-cognotivas



O pensamento de extrema-direita deitou raízes na sociedade e, hoje, muito mais do que uma força eleitoral, se tornou um movimento cultural, uma identificação profunda com uma própria noção de verdade – nem sempre, ou quase nunca, compatível com a realidade objetiva. Engana-se, portanto, quem pensa que poderá derrotá-lo com uma ligeira vantagem nas urnas. 


Algumas situações recentes, envolvendo a Copa do Mundo, me alertaram para uma verdadeira incapacidade de comunicação que se instalou entre uma parcela da população, vulnerável ao embutido de teologia da prosperidade, bets e Bolsonaro, e um setor no qual eu me incluo, e que presumo ainda ser maioria na sociedade. Não me refiro apenas os militantes de esquerda, naturalmente, uma minoria, mas às pessoas que mantém alguma crença em coisas como a importância de se checar a fonte das notícias, a educação escolar e o método científico. Entre ambos, forma-se um abismo cognitivo, uma muralha que não se vence com base em argumentos, uma vez que nem sequer se compartilha uma língua comum na qual se possa dialogar. Isto não tem a ver com nível de renda ou escolaridade, pois vimos, na pandemia, como as teses medievais de Bolsonaro tiveram ampla adesão entre as entidades médicas, por exemplo. Eventos de massa como a Copa são esclarecedores dessas dissonâncias, uma vez que milhões de pessoas assistem aos mesmos acontecimentos, mas imagens idênticas podem ser interpretadas de modo irreconciliável, a depender do que se queira ver. Como qualquer pessoa que tenha sido apresentada ao beabá da teoria da comunicação sabe, uma fotografia ou vídeo são umas dentre tantas edições da realidade, e engana-se quem pensa que elas dispensam o esforço de interpretá-las no interior de uma visão de mundo articulada.

Primeiro exemplo. Parei em uma padaria para tomar café. Paguei, sentei na mesa, entreguei a notinha ao atendente, um senhor de meia idade. Na televisão do estabelecimento, passava a partida entre Inglaterra e Bélgica. Distraí-me olhando a peleja, ainda 0 a 0, e quando me dei conta já se haviam passado cinco minutos sem que viesse o cafezinho. Olhei para o senhor que me atendia, que ainda estava fixado, sem nem piscar, na TV, como se jogasse o seu time de coração. Ele prontamente me serviu o café e, se desculpando, emendou: “É que eu apostei um galo na Bélgica”. Eu disse qualquer coisa educada, tomei o café e fui embora, enquanto ele continuava impávido diante da televisão. Setenta minutos depois, o jogo terminava com vitória e classificação para o time britânico, e um prejuízo de cinquenta reais para o atendente da padaria, que não deve ganhar mais do que um salário mínimo. Penso por mim: mesmo trabalhando duro, não me sobram dezenas ou algumas centenas de reais para lançar nesses cassinos virtuais. Certamente, a mim faria falta a perda com semelhante aposta. Para ele, não? É claro que sim, mas ainda assim ele aposta e deve continuar apostando. Talvez o êxito não importe, mas o processo, a busca, a crença. Não tenho dúvidas que, para aquele senhor, a tarde passada ao redor do balcão foi mais colorida e menos entediada, mas isso não anula o fato de que a sua esperança se volta contra seus próprios interesses. A banca e seu séquito de influenciadores – neste caso, seriam mais bem chamados de aliciadores – agradecem. É o suor de gente assim que rega a sua fortuna, que neste caso não é sinônimo de sorte, mas de grana, adquirida com precisão matemática. É uma expropriação consentida em massa.

Alguns dias depois, a seleção da CBF foi eliminada de maneira vexatória para a Noruega. Com todo respeito ao Haaland, mas custo a ver nele muito mais do que um Jardel (ôps, entreguei a idade) melhorado. O primeiro gol foi de um exímio cabeceador, como era aquele Jardel, mas no segundo ele teve tempo de dominar, armar o chute e finalizar sem ser incomodado. Aí, fica fácil. Enfim, nesse dia o eterno menino Ney entrou, correu, ganhou alguns holofotes xingando o goleiro adversário e chorou. A entrada dele, na melhor das hipóteses, não acrescentou nada; na mais realista, desmontou o time. Após a partida, eu peguei um Uber moto, modalidade de aplicativo em que passageiros e motoristas conversam mais do que em qualquer outra. Conversa vai, conversa vem, entre um corredor e outro, comentamos o jogo e o motoqueiro me disse: “O italiano mandou muito mal”. Claro, nisso estamos de acordo, pensei. O técnico mexeu errado no time. O meu amigo desconhecido, para minha surpresa, logo emendou: “Ele tinha que ter colocado o Neymar para bater o pênalti”. Custei a crer no que ouvira. Como o Neymar bateu o segundo pênalti, ele se referia ao primeiro, ainda nos 45 minutos iniciais, batido e desperdiçado por Bruno Guimarães. Todos que comentam, ou apenas torcem por algum time, sabem que uma situação em que um técnico mexa no primeiro tempo é bastante rara numa partida de futebol, a menos que ocorra um desastre em campo. Não era o caso, pois o jogo estava empatado e o Brasil tinha um pênalti a favor. Nenhum técnico (nenhum técnico, de nenhuma equipe) anularia o próprio esquema montado no princípio do jogo para que Neymar batesse o pênalti, havendo vários jogadores renomados em campo. Isto seria algo bizarro. Mas, para aquele motorista, que comentava futebol enquanto fazia curvas e verificava o celular, o bizarro não é só possível, como necessário. Restou-me torcer que ele fosse menos relativista com coisas como a pastilha de freio ou a aderência dos pneus. 

Essa dissonância não atinge apenas os pobres brasileiros. Há alguns meses, durante um evento, eu vestia uma camisa do Fito Paez, o velho roqueiro argentino, o que me levou a bater papo com uma roda de hermanos e hermanas. Eles eram de esquerda, contra Milei, e por eles soube, com grande decepção, que o músico de Rosário tem ficado em cima do muro ultimamente. Bem, lá pelas tantas, não me lembro como, comentei dos sucessivos e avassaladores episódios de racismo envolvendo torcedores argentinos em estádios, sobretudo em jogos contra times brasileiros, e sinceramente eu esperava ouvir como resposta algo como: “são uns babacas”, ou “os estádios estão elitizados”, pontos de vista que eu estava pronto a aceitar. Mas eis que uma mulher formada, adversária declarada de Milei, não explicitou a condenação esperada (e necessária) dos atos odiosos, mas teceu vagas e confusas considerações sobre manifestações culturais, a diferença de como se age dentro de um estádio e em outras situações similares etc. Ou seja, relativizou as manifestações de racismo, mesmo ali, em um ambiente controlado. O que me fez pensar o quão arraigado este preconceito abjeto deve estar em uma sociedade que deu duas votações expressivas a Milei, apesar da inflação, da carne de burro, da memória do regime militar sanguinário e tantas tragédias mais. O espírito do tempo contamina mesmo aqueles que se julgam vacinados dele. 

Qual a solução desta dissonância? Ela não está em fazer uma ampla campanha de convencimento em valores iluministas; nem, tampouco, em desistir da luta de ideias em nome dos estritos interesses mundanos. Entre a cabeça e o estômago, bate o coração, e falar ao coração, agir com o coração, talvez seja a nossa única esperança. Isto, aliás, não é nada inovador, e foi o que fizeram desde sempre as grandes lideranças populares. “Não se pode entender aquilo que não se sente”, diria o romancista Nick Hornby, pela boca de uma das suas personagens. O x da questão, na minha opinião, está em disputar o rumo das crenças que movem as pessoas, não em negar a necessidade dos sonhos no altar do que é possível, aqui e agora, “segundo a atual correlação de forças...”. Não devemos ser pragmáticos: os pragmáticos são escravos das circunstâncias, ou seja, conformistas, enquanto os revolucionários se esforçam por subvertê-las, não a partir de uma força divina, mas das suas próprias contradições internas. “Tudo o que existe merece perecer”, diria o velho Hegel, isto é, toda realidade existente carrega os germes da sua negação. A extrema-direita aprendeu a falar a linguagem do delírio. Nós, devemos ter coragem de propor e realizar o impossível. 

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