Bolívia em chamas: contra a entrega do lítio e o governo de Rodrigo Paz
- Comitê Revista Revolução Cultural - São Paulo
- há 1 dia
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Por Jorge Hannah

A Bolívia está em chamas. Desde o primeiro dia de maio, a Central Obrera Boliviana convocou greve geral por tempo indeterminado. Mineiros, camponeses, indígenas, professores, transportadores e toda sorte de trabalhadores dos mais diversos setores participam da greve. Mais de 70 bloqueios de rodovias foram erguidos em diferentes regiões, cortando o abastecimento de La Paz. Ao menos quatro manifestantes foram mortos, dezenas ficaram feridos e mais de 57 foram presos nas operações de desbloqueio. O governo mantém ordem de prisão contra Mario Argollo, secretárioexecutivo da COB em uma tentativa de decapitar o movimento pela cabeça de suas lideranças. Não funcionou., os bloqueios cresceram de 32 para 46 em 24 horas.
Para entender o que está acontecendo, é preciso recuar alguns meses: no final de 2025, o senador Rodrigo Paz, do Partido Democrata-Cristão, venceu o segundo turno das eleições presidenciais bolivianas com 55% dos votos, escolhido como mal menor contra o candidato da direita aberta e pró-imperialista Jorge Quiroga. A farsa durou menos de um dia. Já no decreto supremo de 18 de dezembro, seu governo eliminou os subsídios aos combustíveis, vigentes há duas décadas sob o MAS (Movimiento al Socialismo – partido de Evo Morales), cortou impostos sobre o setor empresarial, criou incentivos para repatriação de capitais e anunciou um ciclo de privatizações de empresas públicas a partir de 2027, incluindo licitações para petróleo, gás e o lítio boliviano. O slogan de campanha era “capitalismo para todos”.
A Bolívia abriga o maior depósito de lítio do planeta, parte do chamado triângulo do lítio que cobre também Chile e Argentina e que é cobiçado por Washington, Berlim e Pequim como recurso estratégico central para a transição energética e o complexo industrialmilitar do século XXI. O próprio Elon Musk chegou a declarar publicamente que a busca pelo lítio boliviano esteve na base do golpe de 2019 contra Evo Morales. Rodrigo Paz, que participou em março de 2026 da Cúpula Escudo das Américas convocada por Trump em Miami representa a fase mais avançada desse projeto de entrega, ou seja, um governo centrista com verniz democrático-cristão que faz em doses maiores o que um direitista aberto não conseguiria fazer sem provocar reação imediata.
A reação veio de qualquer forma, a Central Obrera Boliviana, a Confederação Sindical Unificada dos Trabalhadores Camponeses, a Federação Camponesa Túpac Katari — os Ponchos Vermelhos —, indígenas da Amazônia boliviana que marcharam 28 dias para chegar a La Paz, cocaleiros do Chapare, etc. Todos convergindo sobre a capital com uma pauta que começou econômica e se tornou política. A exigência de aumento de 20% no salário mínimo, a revogação da Lei 1.720 sobre propriedades rurais e o fim da privatização dos recursos naturais deram lugar a uma demanda única: renúncia de Rodrigo Paz. Em 18 de maio, uma marcha desceu de El Alto até o centro de La Paz, o governo enviou 3.500 agentes militares e policiais em operação que chamou, com o cinismo habitual, de “corredor humanitário”.
Paz chamou os protestos de “conspiração” do ex-presidente Evo Morales, acusou os manifestantes de “destruir a democracia” e prometeu prisão para quem portasse dinamite. Evo, por sua vez, acusou Washington, o DEA e o Comando Sul de coordenarem com o governo boliviano uma operação para prendê-lo ou assassiná-lo.
A crise boliviana reafirma a velha lição que a esquerda reformista insiste em não aprender: eleições dentro da ordem burguesa podem trocar o nome de quem governa, mas não alteram a estrutura de classes do Estado.
O que o povo boliviano está fazendo neste momento é exatamente o que precisa ser feito: ocupar as ruas, bloquear as estradas e parar o país. A greve geral por tempo indeterminado é o instrumento mais poderoso que a classe trabalhadora possui dentro da legalidade burguesa. Mineiros descendo de El Alto, indígenas chegando a pé de 28 dias de caminhada, camponeses erguendo bloqueios ao amanhecer. Esta é a política real, não o que se passa nos palácios de governo, nas assembleias legislativas da burguesia, nos jantares a portas fechadas ou nas colunas dos jornais financeiros.






