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Cantar sob o Apartheid

Billie Holiday e o inominável da sociedade estadunidense


Há quem diga que todas as formas de arte almejam ser música. Ouvindo a voz melancólica e ao mesmo tempo poderosa de Billie Holiday, é difícil contestar isto. No entanto, de algum modo, quando ela entoou Strange Fruit – composição que lhe foi oferecida por um jovem professor secundário, em 1939 – era a própria música que se convertia em testemunho inigualável. Àquela altura, a humanidade caminhava para a mortandade da Segunda Guerra Mundial, provocada pela barbárie nazista. Contudo, no âmago da sociedade estadunidense, que emergiria como a maior potência do chamado “mundo livre”, se mantinha intacta a brutal segregação racial, onde Hitler e seus sequazes enxergavam um modelo a ser replicado na Europa e em todo o mundo.  

As árvores do Sul dão um fruto estranho,

Sangue nas folhas e sangue nas raízes,

Corpos negros balançam na brisa do Sul,

Um estranho fruto pendente dos choupos. 


Esta é a cena pastoral do valoroso Sul:

Os olhos arregalados e a boca retorcida,

Perfume de magnólias, doce e fresco,

Então o súbito odor de carne queimada.


Eis aqui o fruto para os corvos arrancarem,

Para a chuva colher, para os ventos sugarem,

Para apodrecer ao sol, derrubado pelas árvores,

Eis aqui, uma estranha e amarga colheita.


Estes versos retratam uma tradição ainda vigente àquela época no Sul dos Estados Unidos, onde se “pratica o linchamento como uma recreação inocente e, nas pequenas cidades, todos os habitantes, famílias inteiras, se reúnem para assistir a um, logo depois do piquenique dominical”(1). Com efeito, ao menor sinal interpretado pelos descendentes dos velhos escravocratas, os descendentes dos velhos escravizados são “enforcados, queimados, acorrentados ao parachoque traseiro de um carro e arrastados pela cidade. (...) aplicam-se aos seus cadáveres ferros em brasa nos testículos, cortam-lhes um dedo ‘como recordação’ ou então eles são diretamente castrados”(2).Atualmente, neste país, governado por homens que não se constrangem de elogiar Adolf Hitler e cometer a saudação nazista em público, os linchamentos persistem na forma um pouco menos grosseira da violência policial e do encarceramento seletivo: com efeito, embora constituam cerca de 14% da população, os negros são 38% da população prisional dos Estados Unidos.

A própria Billie Holiday não passou impune por cantar esta que é considerada por muitos a primeira canção de protesto norte-americana. Ao dar voz e alma à música que tratou de maneira aberta o tema da violência racial, convertendo-se em um hino em memória do holocausto negro, ela foi fichada pelo FBI e perseguida de maneira implacável. Acusada de porte de drogas, ela foi presa e teve sua licença profissional cassada, não podendo se apresentar nas principais casas de espetáculos nova-iorquinas até o fim da vida. Contudo, ela não abriu mão de interpretar Strange Fruit, noite após noite, sempre no encerramento das suas apresentações. Mais de uma vez, sentindo que o público não dedicava a merecida atenção à música, ela interrompia a interpretação e insultava os assistentes.


De algum modo, Billie Holiday nasceu para cantar esta música. Praticamente desde o berço, ela foi apresentada ao cruel universo da violência racial e social em todas as suas formas: o cárcere, as surras, o assédio, a exploração desumana do seu trabalho e do seu corpo, o estupro. Billie – nascida Eleanora De Viese, em 1915 – viveu em uma sociedade francamente segregada, anterior à luta pelos direitos civis, que ganharia um novo patamar a partir do caso Rosa Parks, em 1955 (3). Quando Strange Fruit já ecoava nas rádios, e os Aliados lutavam contra o Eixo nos campos de batalha da Europa, Ásia e África, a segregação se mantinha no interior do próprio exército estadunidense: este possuía “unidades de cor”, onde três milhões de recrutas negros foram mobilizados entre 1940 e 1945. Estas unidades recebiam as piores condições de alojamento e alimentação e eram tratadas como buchas de canhão nas batalhas sangrentas. Até mesmo as sessões de cinema eram separadas. Dentro dos Estados Unidos, embora houvesse uma grande necessidade de força de trabalho para as fábricas da indústria de defesa, muitas delas não aceitavam pretos. Isso levou a que, em 1943, estourassem motins em diversas cidades dos Estados Unidos, resultando em dezenas de mortos. 


O Harlem, gueto negro enquistado em Nova Iorque, palco do jazz e do blues, para onde Billie Holiday sempre retornava para começar de novo, também era um centro político de primeira linha. Periodicamente – em 1935, novamente em 1943 – foi sacudido por rebeliões negras, que terminavam em confrontos sangrentos com a polícia. O Partido Comunista dos Estados Unidos foi bastante influente nestes episódios. Em alguns clubes, Billie era obrigada a cantar e esperar a próxima sessão na rua, sob a chuva ou sob o frio, impedida de se “misturar” ao público branco.    


Embora a sua carreira não tenha se caracterizado por posicionamentos políticos explícitos, o próprio fato de ser uma mulher negra e independente, que vivia da própria arte, fazia dela um exemplo para outras mulheres em condições difíceis. Billie Holiday nunca se curvou a quem quer que seja, e foi considerada “vulgar”, “atrevida”, “louca”, como acontece até hoje com qualquer mulher de fibra que não abaixa a cabeça. Praticamente em seu leito de morte, quando já se encontrava em um estado muito debilitado, ela teve a prisão decretada por porte de drogas e teve seu quarto no hospital revirado por policiais, que confiscaram seus discos e a proibiram de se comunicar com o mundo exterior. Hoje, ninguém se recorda o nome dos seus algozes e carcereiros, mas a beleza daquela voz ainda cativará muitas gerações no futuro.


*Uma observação necessária

Citamos como fonte a biografia escrita por Sylvia Fol, aparecida originalmente na França, em 2005. Contudo, embora relate com objetividade e em alguns momentos com beleza a trajetória de Billie, há passagens bastante questionáveis no texto de Fol, para dizer o mínimo. Por exemplo, em um relato sobre um dos encarceramentos de sua biografada, diz a autora:

“Horários fixos, trabalho, recreação, nenhuma responsabilidade, dias que se desenrolam de forma idêntica... A prisão é uma cura em si mesma e talvez Joe Glaser tenha tido a intuição correta. Se Billie se adapta tão bem a este ambiente, é porque ela acha merecer a punição. Na prisão, ela volta a ser uma criança, cuidada por uma figura materna: a diretora, Helen Hironimus”.(4)


Ainda se a própria Billie Holiday tivesse escrito este depoimento, ele seria bastante problemático, mas vindo de uma autora que presumivelmente jamais foi encarcerada, tal passagem é de uma infelicidade avassaladora. Se a própria pessoa julga que merece ou não um castigo é algo que ninguém de fora pode adivinhar e, de resto, o bom comportamento na prisão é em 99% dos casos apenas uma maneira de autoproteção – frente às possíveis sanções e à própria paz de espírito, ainda mais em casos em que se está isolada. Ademais, o fato de um adulto “voltar a ser uma criança” nada tem de benevolente, mas é uma atroz perda de autonomia e autoestima. Essa atitude condescendente não é contraposta, mas complementar, ao ritual de violência estrutural de qualquer prisão, particularmente quando se trata do encarceramento feminino, cuja função é “reabilitar” as mulheres para que se tornem mães e esposas dóceis e virtuosas.


Em outro trecho, ao falar das reiteradas agressões que Billie Holiday sofreu de seus parceiros ao longo da vida, a autora faz digressões pseudo-psicológicas sem qualquer embasamento, associando a violência doméstica nos lares negros à necessidade de “afirmação” do homem, enquanto às mulheres, “esses sinais de golpes demonstravam não somente a potência do homem, como o prazer ambíguo que lhes fazia sentir sua submissão. Assim, elas pareciam escolher sua humilhação, mais do que a sofrer”(5). Na verdade, como bem documentado por Angela Davis, as famílias negras durante a escravidão eram uma ancoragem de apoio mútuo e solidariedade, incomparavelmente mais igualitárias do que suas correlatas aristocráticas brancas(6). O mito do homem negro violento – como indiretamente sustentado pela autora – não é mais do que uma lenda. Se é certo que havia e há inúmeros casos de violência no seio das famílias pobres e negras, a escala deles é incomparável com a praticada pelos homens brancos das classes dominantes, que contavam e contam com o aparato oficial do Estado para cometer violações e assassinatos.


Sorte a nossa que a voz e a vida de uma artista como Billie Holiday dispensam semelhantes explicações. 


Notas


1-  Billie Holiday. Sylvia Fol, trad: William Lagos, ed. L&PM, 2010, p. 109. 

2- Idem

3-  Rosa Parks era uma costureira que se recusou a ceder seu assento em um ônibus a um homem branco, em dezembro de 1955. Em virtude disso, foi presa e condenada a pagar uma multa, o que gerou enormes protestos da população negra e a um boicote aos ônibus. Após 381 dias de boicote, a Suprema Corte dos Estados Unidos considerou inconstitucional a segregação nos transportes coletivos.

4- Op.cit. p. 160.

5-  Idem, p.207.

6-  Ver o seu livro clássico “Mulheres, raça e classe”, ed. Boitempo, tradução de Heci Candiani, 2016.

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