Lula age como policial bom de Donald Trump na América Latina
- Redação
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Em meio ao cenário de acirramento das contradições interimperialistas e aprofundamento da intervenção ianque na América Latina, o atual presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, optou pelos afagos a Trump, as portas da sua tentativa de reeleição nas eleições de outubro. Em entrevista concedida a Daniela Lima, do UOL, no último dia 5, falou abertamente em se aliar aos EUA para combater o narcotráfico e o crime organizado e abandonou a defesa de seu antigo aliado Maduro. Neste e em outros pontos, ele revelou escandalosa capitulação, quando não plena identidade, com a agenda do fascista estadunidense.
Com efeito, logo no início da entrevista, Lula disse “não importa mais [fim da prisão após sequestro de Maduro e sua esposa], o que importa agora é tornar a democracia venezuelana forte novamente’’. Como será possível um regime ou governo ser democrático, tendo seu presidente legítimo sequestrado por uma potência estrangeira? Lula foi além e afirmou que o problema central é que a Venezuela aumente sua produção de petróleo e reverta o fluxo migratório, sem mencionar que a crise econômica do país deriva em grande medida pela guerra econômica imposta por Washington, mesmo modus operandi adotada no Irã e, de modo radical, em Cuba. Como sabemos todos, tanto a questão da democracia (leia-se: a eleição de um candidato pró-Estados Unidos) como do petróleo (leia-se: a apropriação do óleo venezuelano pelas petrolíferas norte-americanas) constituem o cerne dos argumentos trumpistas para sua agressão à Venezuela.
Ao falar sobre a relação com Trump, Lula fez questão de o tempo todo contemporizar as sanções impostas a membros do STF e o tarifaço que ocorreu em 2025 e declarou que na ida a Washington marcada para março, a ideia que seu governo tem é levar membros da Polícia Federal, Ministério Público, Exército e outros poderes para ‘’Se ele [Trump] quiser combater o narcotráfico, irá saber que estamos dispostos a ajudar’’. Pedir ajuda aos serviços de informação dos Estados Unidos para apoiar o combate ao chamado crime organizado equivale a solicitar que um ladrão supervisione o próprio patrimônio! Na verdade, a penetração, ideológica e operacional, dos tais serviços estrangeiros no Brasil já é enorme, como vimos durante a Operação Lavajato. Enquanto os ianques bombardeavam embarcações venezuelanas no mar do Caribe, em meados do ano passado, o Comando Sul do Exército dos Estados Unidos fazia exercícios militares conjuntos com o Exército Brasileiro no interior do nosso território. Trata-se de um entreguismo descarado de Lula e do PT.
Estas declarações vêm justamente oito meses antes da eleição presidencial, e são uma tentativa de Lula se cacifar frente aos EUA como um aliado fiel, minimizando ao menos a intervenção ianque nas futuras eleições. Lula aplica em política externa o mesmo receituário da política interna: entregar de antemão o produto aos ladrões antes que eles invadam a casa para levá-lo. É uma estratégia que desmobiliza as massas populares e de fato prepara o terreno para a próxima ofensiva da reação. Durante a sua fala, Lula também disse que seu propósito é manter a América Latina como um território de paz, “livre das armas nucleares”, discurso totalmente incompatível com o recrudescimento da rapina imperialista nos quatro cantos do mundo e de escalada da corrida armamentista como reflexo dessa disputa. Se se compara os casos de Irã e Venezuela, por exemplo, salta aos olhos que a capacidade de empreender uma sólida defesa nacional, que, se não impeça, faça os ianques pagarem caro por qualquer intervenção, é a única garantia de soberania no mundo atual. O programa pacifista de Lula significa de fato desarmar o povo brasileiro e facilitar a tarefa da dilapidação dos nossos cobiçados recursos humanos e naturais.
Na verdade, como disse certo historiador, o único princípio de Lula é não ter princípios. A ele pouco importa a soberania nacional ou o povo brasileiro, no final, o decisivo é conservar uma posição de poder que permita a ele e ao seu grupo político negociar os interesses das massas por um bom preço, como já faziam nos tempos de movimento sindical. Durante as eleições, é provável que Lula se apresente como defensor da soberania nacional, enquanto, na prática, cede aos jogos de interesses norte-americanos, assim como se apresente como campeão do antifascismo enquanto por debaixo dos panos negocia acordos com figuras como Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil de Lula. É importante denunciar estas posições capituladoras, pois a máquina bilionária do governo e seu séquito de ingênuos úteis já trabalham para vender aos trabalhadores que, no próximo pleito, ou vence Lula ou ocorre a hecatombe. Lembremos que o mesmo se disse em todas as eleições deste século e, embora o Brasil tenha vivido um grave e sombrio período sob Bolsonaro, no fim das contas é a mobilização popular o que decide o destino de um país, seja qual seja o governo. Na verdade, apenas quando rompermos com a camisa de força do partido da ordem no seu conjunto (da qual o PT é a ala moderada), de modo a assegurar as mudanças estruturais pendentes há cinco séculos, poderemos falar na conquista de uma verdadeira democracia.






