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O vento sopra mais forte do outro lado do túnel

Foto: Jornal O Globo
Foto: Jornal O Globo

Eram por volta das cinco horas da tarde de ontem (30), quando um vendaval começou a assolar a Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Para além das árvores caídas nas ruas, os telhados que voaram e os semáforos tombados, o mais impressionante foi que a cidade se paralisou. É uma obviedade que os ventos foram muito fortes, chegando a mais de 110km/h segundo o INMET, e que a mera constatação da sua capacidade de destruição não é por si só uma prova inequívoca da falência de um Estado. Porém, nesses momentos, fica evidente que em todas as cidades brasileiras, o nosso povo está largado à sua própria sorte.


Nesse pandemônio descrito acima, ao andar pelas ruas só foi possível olhar para os pontos de ônibus entupidos de gente desesperada sem saber como voltaria para casa, com os rostos já cansados e amedrontados. O Metrô, privatizado e com a passagem mais cara do mundo, não suporta uma queda de energia e estava paralisado. Assim como a rede de trens, que recém devolvida para governo estadual depois de décadas de uma privatização desastrosa, está com uma rede elétrica em frangalhos e os seus poucos ramais superlotados, operando de forma precária. As vias, que normalmente já estão entupidas de carros e não possuem quaisquer plano que priorize o transporte coletivo, estavam entupidas e bloqueadas por várias árvores.


A Central do Brasil, em seus tons melancólicos laranja, tomada por todo canto de trabalhadores, fechou seus portões. Jogados às ruas, foram formando um cenário de desespero que para muitos somente se encerrou depois da meia-noite quando enfim puderam chegar em casa. Isso, é claro, para aqueles que encontraram uma casa com energia e telhas em pé, já que todos os municípios da Região Metropolitana até o dia seguinte ainda tinham bairros sem energia elétrica.


Parte de fora da Central do Brasil, ás 19:35. Vídeo: Revista Revolução Cultural

Não há plano para solucionar ou facilitar a volta para casa em momentos como esse, pois não há plano de mobilidade nem em dias normais. Estamos falando de um metrô saturado, que na prática opera uma linha e meia, de uma rede de trens que mesmo em dia normais tem dificuldade de funcionar normalmente e não atende o Leste Fluminense. As Barcas, também devolvida para o Estado, anda em seu limite com barcas de 70 anos. Isso sem mencionar o sistema de ônibus, que entre 2019 e 2026 teve uma redução de quase 40% de sua frota regular. Fica claro, que em um sistema que já torna um inferno a volta pra casa em qualquer dia, um evento climático como o ontem, só irá intensificar uma desfuncionalidade já existente. Algo que simplesmente não é visto como um problema humanitário, mas sempre entendido do ponto de vista do empresário: ‘’por que o serviço de trem não dá lucro’’, ‘’precisamos aumentar a passagem para viabilizar a operação’’ e coisas assim.


Desta vez foi uma ventania de 30 minutos, mas e quando há uma grande catástrofe como a que ocorreu com as tempestades que acometeram o Rio Grande do Sul em 2025? Morte. Essa é a resposta deste Estado para essas catástrofes naturais, que não precisam por consequência serem humanitárias. Mas morte de quem? Está claro, dos pobres. São esses que não podem voltar de carro para casa, são esses que não vão ter como voltar pra casa, são esses que vão ficar dias e dias sem energia.


Já são meses em que pipocam notícias sobre o ‘’Super El Nino’’, fenômeno climático que é resultado do aquecimento das águas do pacífico, algo sazonal e que normalmente traria à região sul e sudeste do Brasil uma quantidade maior de chuvas. O problema, é que devido ao processo de degradação ambiental a nível mundial e aquecimento global, o El Nino deste ano vem sendo tratado como o mais intenso já registrado. A ventania de ontem, segundo especialistas foi ‘’um cartão de visitas’’. E o que foi feito até agora?


A questão ambiental é algo muito relevante na luta revolucionária, pois como tudo nesta sociedade, ela não escapa da luta de classes. A sua devastação recaí principalmente sobre as classes oprimidas de todo o mundo em primeiro plano e devemos desde já cerrar fileiras contra a devastação dos biomas e ecossistemas, pela resistência dos povos às suas consequências.

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