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Transformar a dor e a tristeza em revolta

Foto: Carolina Fioretti
Foto: Carolina Fioretti

Passado um mês em que quase uma centena de pessoas morreram em Minas Gerais [1] devido à deslizamentos de terra e inundações causados por fortes chuvas, pela falta de estrutura urbana adequada e implementação de planos de prevenção, a pauta já não é destaque nos grandes monopólios de mídia. As perdas humanas ocorreram principalmente nos municípios de Juiz de Fora (70 mortes) e Ubá (8 mortes), distantes entre si cerca de 100 km, ambos localizados na mesorregião da Zona da Mata mineira.


Juiz de Fora com cerca de 550 mil habitantes está localizada no vale do Rio Paraibuna e é cercada por morros. De acordo com o Laboratório de Climatologia e Análise Ambiental da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), entre as 17h de 23/02/2026 e as 5h da manhã do dia seguinte, intervalo de 12 horas, o município recebeu 220 milímetros (mm) de chuva [2]. Juiz de Fora foi uma das 10 cidades brasileiras com mais alertas emitidos sobre riscos de desastres naturais no ano de 2025. O Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden) já havia alertado autoridades municipal, estadual e federal sobre essa “tragédia” anunciada, como alguns gostam de denominar esses episódios. 

O Cemaden produziu, em 2023, um levantamento para identificar os municípios brasileiros em que a ocorrência de deslizamentos, enxurradas e inundações são mais suscetíveis com o objetivo de orientar ações prioritárias do governo federal no chamado Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), para investimentos em obras de mitigação, prevenção e preparação das cidades. O estudo identificou 1.942 municípios com pessoas vivendo em áreas de risco para problemas ocasionados pela chuva. Um total de 8,9 milhões de pessoas, 6% do povo brasileiro, vivem nessas condições. Juiz de Fora é o município do interior do país com mais pessoas vivendo em situação de risco, 129 mil que corresponde a 23,45% de sua população.

Recursos públicos para a gestão de riscos e desastres naturais


Enquanto se caminha em direção a uma catástrofe ambiental cujas  proporções são inimagináveis, o velho Estado brasileiro representado pelos governos federal e estaduais realiza cortes no orçamento que deveria ser empregado na gestão de riscos e desastres naturais.  A prioridade não é a vida do povo, mas sim conseguir apoio político para se manter no poder, por meio das famigeradas emendas PIX, moeda de troca entre o poder executivo e o congresso nacional de corruptos. 


Em 2025, ano em que a Conferência das Partes (COP 30) organizada pela ONU foi realizada no Brasil, foram cortados R$ 580 milhões para a adaptação climática e prevenção de desastres em relação à Lei Orçamentária Anual (LOA) do ano anterior (em 2024 a dotação foi de R$ 1,9 bilhão). A tática do governo federal é lidar com os desastres naturais com créditos extraordinários. Dessa forma, em 2024 gastou-se R$ 5 bilhões para o atendimento das emergências climáticas. Esse expediente surge como forma de contornar as limitações do Arcabouço Fiscal de Lula/Haddad, fazendo com que as políticas de prevenção a desastres e adaptação climática disputem dinheiro com áreas como saúde e educação. O controle social sobre os créditos extraordinários fica totalmente comprometido, de forma que o uso desses recursos se tornam uma verdadeira caixa preta. É de conhecimento de todos a farra que a casta política faz com o dinheiro do povo toda vez que se decreta estados de emergência ou calamidade pública.


No caso da gerência do estado de Minas Gerais, sob o comando do escroque fascista Romeu Zema, a situação assume contornos de maior vileza: entre 2023 e 2025 os recursos destinados ao programa de combate aos impactos das chuvas caíram de R$ 135 milhões para R$ 5,8 milhões, um corte superior a 95%. A respeito disso, o “gestor” mineiro disse que “as verbas podem ter sido reclassificadas e agrupadas sob outra lógica contábil para facilitar a tomada de decisão e o gerenciamento dos recursos” [3], uma resposta mequetrefe típica de uma escória como Zema. Em visita ao município de Ubá, logo após os eventos do dia 23 de fevereiro, uma moradora enquadrou o almofadinha manifestando a indignação de toda a gente ao dizer que não adiantava chegar ali limpinho para fazer política e de que o povo precisava era de estrutura, como por exemplo, caminhões pipa para limpar a lama [4]. 


As Mudanças Climáticas e os Eventos Extremos: uma questão de classe


A engenharia é o que determina porque os barracos desmoronam nas favelas, mas mansões permanecem incólumes em condomínios de luxo localizados em morros (sempre nomeados como Vila da Serra isso ou aquilo, tal e qual). A questão técnica define a qualidade da moradia. 


Por mais que a ciência já tenha documentado a dinâmica dos eventos extremos, como as chuvas concentradas e severas, os governos da burguesia demonstram toda sua ineficiência política para a resolução dos problemas que afligem as massas trabalhadoras. O Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), da ONU, possui vários documentos publicados que apontam que as  mudanças climáticas são, possivelmente, a maior crise existencial já enfrentada pela humanidade. Seus efeitos catastróficos estão sendo sentidos principalmente no chamado sul global, leia-se, os países historicamente espoliados pelo imperialismo. 

As COPs, que deveriam servir à estabilização do clima no planeta, se tornaram um circo onde impera o lobby dos conglomerados empresariais do mundo [5]. O fato é que dentro do capitalismo não há solução para a crise climática. Capitalismo e crise climática são irmãos siameses. Os responsáveis pela alteração do clima no mundo são os bilionários de sempre, donos de bancos, empresas de petróleo, big techs e seus lacaios nas esferas executiva, legislativa e judiciária dos podres poderes dos Estados, bem como seus tentáculos nos monopólios de mídia.


História que se repete todo ano


No Brasil, a cada estação chuvosa acontece algum fenômeno parecido como o de Juiz de Fora, que castigam o nosso povo com a força de um vulcão ou de um terremoto.


Na Bahia, entre o fim de 2021 e o início de 2022, foram registradas 30 mortes e quase 100 mil pessoas desalojadas ou desabrigadas devido às fortes chuvas que assolaram o estado. Em fevereiro e março de 2022 foi a vez do município de Petrópolis, no estado do Rio de Janeiro, viver seu maior desastre natural que vitimou 242 pessoas. No final de maio de 2022, a chuva caiu no estado de Pernambuco, principalmente na região metropolitana do Recife, matando mais de 120 pessoas. Em 19 de fevereiro de 2023, um domingo de Carnaval, foram registrados no litoral norte do estado de São Paulo, 683 mm de chuva em poucas horas. A precipitação extrema aliada ao pesado jogo dos interesses imobiliários onipresentes na região, que inviabiliza o direito à moradia segura e digna para o povo, foram responsáveis pela morte de 65 pessoas em São Sebastião. Em março de 2024, o município de Mimoso do Sul, Espírito Santo, com pouco mais de 26 mil habitantes, foi atingido pela maior enchente de sua história. O volume de chuvas chegou a 600 mm em um intervalo de tempo de 6 horas. O Rio Muqui do Sul subiu 9 metros. O saldo dessa hecatombe: 18 vidas perdidas e uma pessoa que segue desaparecida. No final de abril e início de maio de 2024, o Rio Grande do Sul enfrentou enchentes devastadoras que afetaram 478 das 497 cidades do estado, causando alagamentos, inundações e deslizamentos de terra. Morreram 185 pessoas e 23 continuam desaparecidas.


A questão não é se o lugar em que vivemos será episódio de um evento climático extremo, mas sim quando isso vai se passar. Esse quando é imprevisível, por isso a necessidade do povo se preparar. 


Somente o povo defende o povo


A formação de Comitês Populares de Enfrentamento às Mudanças Climáticas é um caminho para a conscientização, mobilização e organização com vistas a cobrar medidas de prevenção junto às instituições do velho Estado. Essa ação é indissociável da luta por moradia digna para o povo, contra a especulação imobiliária e a canalhice da casta política. 


É preciso transformar a dor e a tristeza em revolta. Rebelar-se contra esse velho mundo é a condição para que mais cedo do que tarde ele seja rachado dando lugar a uma nova sociedade, em que as mães trabalhadoras não chorem por seus filhos que foram soterrados. A mudança está em curso, pois como diz o poeta: 


Nos barracos da cidade

Ninguém mais tem ilusão

No poder da autoridade

De tomar a decisão

E o poder da autoridade

Se pode, não faz questão

Se faz questão, não consegue

Enfrentar o tubarão

O governador promete

Mas o sistema diz não

Os lucros são muito grandes

Mas ninguém quer abrir mão [6].


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



[2] Milímetro de chuva é uma unidade que mede a pluviosidade (volume de chove sobre área). Um milímetro de chuva equivale ao volume de 1 litro (1 L) de água de chuva sobre uma área igual a 1 metro quadrado (1 m2). Logo, 1 litro por metro quadrado = 1 milímetro. No caso da chuva que caiu em Juiz de Fora entre a tarde de 23/02/2025 e 24/02/2026, choveu 220 litros por metro quadrado. Considerando que somente a área urbana de Juiz de Fora é de cerca de 441 km2 é possível concluir que o volume de água sobre Juiz de Fora foi descomunal.




[5] Documentário “A COP dos Lobbies - Como empresas e interesses privados capturam as negociações climáticas na COP 30”, disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=Ma7_ebdhXtQ&t=3s 


[6] GIL, Gilberto; LIMINHA. Nos barracos da cidade. In: Dia Dorim Noite Neon. Rio de Janeiro, 1985.

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