Vigiar, controlar e reprimir: a função da Palantir
- Núcleo de São Gonçalo
- há 1 dia
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A Palantir é uma empresa que nasceu logo após os atentados de 11 de setembro de 2001, e demonstra por meio das suas vinte e duas teses tecnofacistas a centralidade da informação dos nossos tempos. Proveniente de uma tecnologia anti-fraude desenvolvida para o PayPal (a conexão com Elon Musk também começa aí) por Peter Thiel e Max Levchin, a empresa já surge com sua necessidade lastreada por meio dos próprios relatórios do governo sobre o ocorrido: faltava integração das informações de inteligência.
Seus trabalhos para o governo estadunidense então migram de casos de fraude para um controle informacional completo da população; além disso, um controle informacional guiado ao destino militar: o uso das informações das câmeras de peitoral do agentes da Gestapo (o serviço de “imigração e alfândega” dos Estados Unidos, o ICE, com 31 imigrantes mortos em 2025 e 14 só em 2026, sob a custódia do serviço); todo mapeamento realizado por drones em ações táticas de extermínio no Oriente Médio, com uma forte presença nos últimos ataques contra o Irã.
Alguns dos pontos levantados em suas teses devem ser comentados, concentrando em alguns blocos de assuntos mais específicos, alterando a ordem do manifesto original. Alguns itens foram suprimidos, mas podem ser acessados na íntegra por esse link.
“1. O Vale do Silício tem uma dívida moral para com o país que tornou possível a sua ascensão. A elite de engenheiros do Vale do Silício tem a obrigação afirmativa de participar na defesa da nação;
[...] 3. E-mail grátis não é suficiente. A decadência de uma cultura ou civilização, e em verdade da sua classe dominante, só será perdoada se essa cultura for capaz de proporcionar crescimento econômico e segurança ao público;
[...] 5. A questão não é se serão construídas armas de Inteligência Artificial; é quem as construirá e com que propósito. Nossos adversários não se deterão em debates teatrais sobre os méritos do desenvolvimento de tecnologias com aplicações militares e de segurança nacional críticas. Eles irão em frente.
[...] 17. O Vale do Silício deve desempenhar um papel no combate aos crimes violentos. Muitos políticos nos Estados Unidos têm essencialmente dado de ombros quando se trata de crimes violentos, abandonando quaisquer esforços sérios para resolver o problema ou assumindo qualquer risco com seus eleitores ou doadores na apresentação de soluções e experiências no que deveria ser uma tentativa desesperada de salvar vidas”
Esses trechos tratam do núcleo primordialmente econômico das teses. Michael Steinberger argumenta em seu livro sobre a ascensão da empresa que “A reviravolta para a Palantir foi o recebimento de fundos da In-Q-Tel, que foi o braço de investimento de capital da CIA”. Muito diferente de uma dívida moral, os engenheiros do Vale do Silício possuem uma dívida com a classe dominante. E essa, para a empresa, só será perdoada se for capaz de entregar “segurança ao público”, ou seja: a agência proporciona o terror para que possa vender a segurança. Há uma inquietação sobre a urgência de se expandir o mercado de armas de IAs e sua justificativa repousa sobre um falso “combate aos crimes violentos”. Aqui o ataque também se direciona especialmente aos políticos nos Estados Unidos que têm “dado de ombros quando se trata de crimes violentos”, como comenta Yanis Varoufakis: “O Vale do Silício deve ser livre para fazer nas cidades dos Estados Unidos o que fez em Gaza. Muitos políticos em todos os Estados Unidos têm encolhido os ombros, em essência, ao conceder à Palantir o direito de aniquilar todas as liberdades civis e direitos humanos restantes. Isso deve acabar”. Além desses políticos, a empresa sofreu um processo na Baviera e em 2023 seus serviços foram proibidos para o uso do Departamento Federal de Investigação Criminal (BKA) e a Polícia Federal pela ex-ministra do Interior, Nancy Faeser. Porém o atual ministro, Alexander Dobrindt, deixou em aberto a questão. Ele avalia a legalidade do uso da ferramenta para todo país e mantém a questão “em aberto”.
“6. O serviço [militar] nacional deveria ser um dever universal. Deveríamos, como sociedade, considerar seriamente abandonar uma força militar totalmente voluntária e só travar a próxima guerra se todos compartilharem o risco e o custo.
7. Se um fuzileiro naval dos EUA pede um rifle melhor, devemos construí-lo; e o mesmo vale para software. Como país, deveríamos ser capazes de continuar um debate sobre a adequação de uma ação militar no exterior, permanecendo ao mesmo tempo inabaláveis em nosso compromisso com aqueles a quem pedimos para se colocarem em perigo.
[...] 12. A era atômica está terminando. Uma era de dissuasão, a era atômica, está chegando ao fim, e uma nova era de dissuasão baseada em IA está prestes a começar.
[...] 15. A neutralização pós-guerra da Alemanha e do Japão deve ser desfeita. O desarmamento da Alemanha foi um excesso de correção pelo qual a Europa está agora pagando um preço alto. Um compromisso semelhante e altamente teatral com o pacifismo japonês, se for mantido, também ameaçará alterar o equilíbrio de poder na Ásia.”
Aqui a afirmativa sobre a militarização das empresas de tecnologia vislumbra – ainda que com um teor nacionalista – uma compreensão sobre a necessidade de expansão desse ideário para a Europa. A argumentação que retoma a neutralização pós-guerra da Alemanha deixa claro o viés neonazista do seu CEO e, por consequência, daquilo que orienta os negócios da empresa. Abordando o fim da “era atômica”, o manifesto desloca o centro do debate para um universo aparentemente “virtual”, ou seja, viabiliza a gestão do sofrimento de milhares de famílias sob ataque de mísseis balísticos com uma suposta guerra direcional, onde a maior quantidade de dados tratados significa também, maior segurança.
“9. Deveríamos mostrar muito mais indulgência para com aqueles que se sujeitaram à vida pública. A erradicação de qualquer espaço para o perdão – um abandono de qualquer tolerância para com as complexidades e contradições da psique humana – pode deixar-nos com um elenco de personagens no comando do qual nos arrependeremos.
10. A psicologização da política moderna está nos desviando do caminho. Aqueles que olham para a arena política para nutrir sua alma e seu senso de identidade, que confiam demais em sua vida interna para encontrar expressão em pessoas que talvez nunca conheçam, ficarão desapontados.
[...] 18. A exposição implacável da vida privada de figuras públicas afasta demasiados talentos do serviço governamental. A arena pública – e os ataques superficiais e mesquinhos contra aqueles que ousam fazer outra coisa que não seja enriquecer – tornou-se tão implacável que a república acaba ficando com uma lista significativa de indivíduos vazios e ineficazes, cuja ambição até poderia ser perdoada se houvesse neles alguma estrutura de crença genuína à espreita.
19. A cautela na vida pública que involuntariamente encorajamos, é corrosiva. Aqueles que não dizem nada de errado, muitas vezes não dizem muita coisa.”
Há também uma necessidade no documento de abordar as figuras públicas e como essas se comportam na sociedade atual. Após os longos vazamentos de dados sobre o mega esquema de tráfico, aliciamento e abuso de menores por meio de grandes, podemos ver passagens que destacam a necessidade do apagamento dessas controvérsias em favor de um equilíbrio republicano e falsamente democrático. A possibilidade de um afastamento demasiado de “talentos do serviço governamental” é utilizada como contra-argumento para aqueles que tentam conectar toda a dinâmica favorável e complacente da classe política com a burguesia e suas ações desumanas. Há uma necessidade de desarticulação do aparato governamental clássico do neoliberalismo; o próximo passo é a venda de ferramentas da Palantir para identificar arbitrariamente pela mineração de dados os inimigos, no funcionalismo público; comumente, para uma empresa privada guiada pela dinâmica do capital, seus inimigos aparecem como aqueles que tentam impedir a penetração completa no tecido social.
“13. Nenhum outro país na história do mundo avançou mais nos valores progressistas do que este. Os Estados Unidos estão longe de ser perfeitos. Mas é fácil esquecer quantas mais oportunidades existem neste país para aqueles que não são elites hereditárias, do que em qualquer outra nação do planeta.
14. O poder dos Estados Unidos tornou possível uma paz extraordinariamente longa. Muitos esqueceram ou talvez tenham como certo que quase um século de alguma versão de paz prevaleceu no mundo sem um conflito militar entre grandes potências. Pelo menos três gerações – milhares de milhões de pessoas e os seus filhos e agora netos – nunca conheceram uma guerra mundial.
[...] 20. A intolerância generalizada da crença religiosa em certos círculos, deve ser combatida. A intolerância da elite em relação à crença religiosa é talvez um dos sinais mais reveladores de que seu projeto político constitui um movimento intelectual menos aberto do que muitos dentro dela poderiam afirmar.”
O nacionalismo aparece como ferramenta ideológica para um aparato tecnofascista se usufruir. Aparece então a necessidade de criação de enredo, ou seja, a Pax Americana como redenção de uma nação que busca fazer o bem – mesmo sendo o país que mais levou guerras, fome e destruição à outras nações. A crença religiosa disponibiliza a aproximação de comunidades majoritariamente conservadoras de um emprego tecnológico em “favor da segurança nacional”. A religião aparece aqui como ferramenta discursiva, retórica, tática já utilizada em larga escala pelas empresas neopentecostais em todo o mundo. O sonho americano não é mais um sonho; há oportunidades para quem delas quer usufruir, mas precisa doer. A ascese, método de auto mutilamento para alcançar níveis espirituais elevados entre os antigos, agora pede emprestado seus dados. Eles serão tratados, processados e vendidos aos mais diversos níveis da dinâmica do capital. Agora, não mais somente para a venda daquele produto que magicamente é anunciado em sua navegação após uma conversa com um conhecido, próximo ao celular. Esses dados, armazenados nos grandes arquivos movidos à água potável e eletricidade – os data centers –, agora são utilizados para definir guerras imperialistas das grandes nações; em tempos que o nosso acesso em larga escala à informação também levou a um esvaziamento do próprio sofrimento, da ira e, consequentemente, da forma que devemos pensar a revolta.






